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Viva o luto para depois não viver na dor - tempos pandêmicos (Iskrépi; F-11)

20/07/2021 - Por luciana okazaki
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Luto. Quatro letras. Uma palavra tão pequena com um impacto tão profundo.

 

O luto está presente em diversos momentos da nossa vida. Ele é o conjunto de reações que sucede uma perda significativa. Perda que pode ser uma morte, o fim de um relacionamento, a demissão de um emprego, uma falência ou perda financeira, uma mudança que desestrutura a nossa vida.

 

Uma perda sempre nos causa uma dor. Maior ou menor. Uma parte de nós vai para não voltar. E isso dói. Já mencionei aqui algumas vezes, mas vale a pena ressaltar novamente que a dor é percebida por cada indivíduo de maneira única. Uma mesma perda por ser muito dolorida para uma pessoa e nem tanto para outra.

 

O luto é um processo que envolve alguns sentimentos que não se resumem somente em tristeza, mas também raiva, medo, culpa, ansiedade e até mesmo alívio. Ele foi amplamente estudado por Elizabeth Kübler-Ross (famosa psiquiatra suíça que ficou conhecida por desenvolver a teoria das fases do luto) e pelo tanatologista americano David Kessler.

 

As fases do luto descritas pela psiquiatra são negação, raiva, negociação, tristeza e aceitação. Trouxe o exemplo da perda de um emprego para ilustrar e facilitar o entendimento:

 

Negação (“não posso ter perdido meu emprego!”) – uma forma de auto-proteção. Especialmente com perdas repentinas. Ficamos meio anestesiados, não internalizamos muito bem a situação. O funeral é um rito de passagem que ajuda a internalizar a perda. No caso de um relacionamento que acaba ou uma demissão de um emprego, fazer um funeral simbólico pode nos ajudar a passar por esta fase

 

Raiva (“foi aquele *** do meu chefe, imprestável! Me demitiu porque se sentiu ameaçado”) – revolta contra o que aconteceu. Brigamos com todos e colocamos a nossa ira até em Deus. Procuramos culpados nesta fase. É uma defesa humana, funcionando como um escudo de proteção para a dor. Quem já leu “A coragem de ser imperfeito” de Brené Brown já viu que a raiva é uma das nossas faces apresentadas nos momentos de vulnerabilidade (no caso, a dor)

 

Negociação (“se eu tivesse me dedicado mais, se tivesse reclamado menos...”) – pensamentos sobre o que deveríamos ou não ter feito para evitar a perda. “Se eu não tivesse dito aquilo”, “se eu tivesse percebido a doença antes”. Esta fase do luto pode vir carregada de culpa. Culpa por não termos sido bons filhos, por não termos conseguido manter o emprego, por termos perdido dinheiro ou por termos terminado um relacionamento

 

É importante lembrar que a culpa acrescenta enorme dor a perda. Por isso tenha autocompaixão consigo mesmo. O que aconteceu era o que tinha que acontecer. Mesmo se não estivermos conseguindo enxergar o macro cenário naquele momento.

 

Tristeza (“estou desempregado...”) – a dor em si. Momento onde a ferida sangra. Precisamos abraçar a dor, chorar, chorar até não ter mais o que sair. A tristeza vem em ondas e com o tempo vão ficando cada vez mais espaçadas

 

É comum neste momento utilizarmos as palavras ‘nunca’ ou ‘sempre’: “nunca mais vou ter um emprego como esse”, “nunca mais terei um relacionamento bom”, “nunca mais amarei assim”, “isso sempre vai doer”.

 

Lembre-se de que nada na vida é permanente. As coisas acontecem, ciclos de abrem, ciclos de fecham. Se apegar a algum evento, objeto ou pessoa é o que torna o sofrimento ainda maior.

 

Aceitação “ok, perdi o emprego...agora vou atualizar meu currículo!”) – compreensão de que “assim é”. O ciclo chegou ao fim e ficar em paz. O sentimento se transforma, passa a ser uma boa lembrança, uma gratidão.

 

David Kessler deu continuidade aos estudos da Dra. Elizabeth (após sua morte, com autorização de sua família) e incluiu mais uma fase no processo do luto:

 

Encontrar um sentido – seria uma sexta fase. A fase do que você faz a partir da sua perda. Seja incorporar um traço da pessoa que se foi, adquirir um novo hábito, uma nova forma de se expressar. Dar um novo significado para o ciclo que se fechou

 

(Eu particularmente gosto muito desta última fase. Acredito que tudo possa ser ressignificado, e com isso, trazemos mais leveza e alegria para nossa vida. É fazer do limão uma limonada, trazer a tona as boas lembranças de alguém que se foi incorporando algo em nossas vidas, dar início a um curso ou um hobby depois que um emprego já não existe mais, e por aí vai...)

 

Independente de qual fase do luto você esteja passando (se é que está passando, mas com certeza já passou por um) é importante acolher o sentimento vivenciado. A ditadura da felicidade em que vivemos e o ‘positivismo acima de tudo’ nos deixa cada vez mais acanhados para abraçar a dor que estamos vivendo. A sensação é de que estamos fazendo algo de errado e não há espaço para a tristeza e outros sentimentos coexistirem. Nesse nosso mundo pós-moderno muitas tradições que antes faziam parte do luto já não existem mais. Mas é importante vivenciar o momento e respeitar a sua dor.

 

Não existe tempo padrão para o luto. É uma experiência pessoal. Lembre-se também de que as fases não virão necessariamente nesta ordem e nem todas as fases também aparecerão. Mas é necessário respeitar os sentimentos, abraçar a nossa dor e vive-los quando aparecerem.

 

Um luto não vivido pode ficar “entalado” na garganta como um pedaço de pão seco que tentamos engolir e vai arranhando a medida que desce. A dor que inicialmente tentamos ignorar e esconder ficará vindo a tona de tempos em tempos, como ciclos que se repetem.

 

Se precisar, busque apoio. Existem dezenas de grupos que cumprem esse papel de apoiar pessoas em luto. Mas também pode ser um apoio profissional, um terapeuta. Alguém que possa te escutar. Um ombro amigo, alguém com quem você se sinta bem e possa se abrir. Lembre-se de que você não está sozinho.

 

Luciana Okazaki (Iskrépi; F-11) ex-moradora da República Cupido, é engenheira agrônoma vivendo seu propósito como Terapeuta Integrativa

 

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