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Vida de República - a Kpixama no início dos anos 1990

01/09/2026 - Por luiz carlos beduschi filho
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No começo dos anos 1990, a Kpixama já era uma das principais repúblicas estudantis da ESALQ.

Sediada então em um casarão antigo no número 400 da rua do Vergueiro, no centro de Piracicaba, a Kpixama era o arquétipo das grandes repúblicas estudantis daquela época.

Como era uma casa em desnível, entrava-se pelo piso onde ficavam os cinco quartos, uma sala e um banheiro. Cada quarto tinha uma denominação própria: o “quarto da frente” abrigava até quatro moradores, com uma janela voltada diretamente para a frente da casa e uma porta permanentemente fechada — com uma chave que ninguém sabia onde estava — que dava acesso à pequena varanda da entrada; o “quarto de quatro”, o mais amplo de todos, tinha dois beliches em um espaço interno separado por uma cortina azul do restante do quarto, onde ficavam três escrivaninhas e armários; o “verde e amarelo”, para duas pessoas, ficava no corredor, de frente para a porta do banheiro; o “polo norte”, com janelas de vidro quebradas e orientação norte-oeste, abrigava três moradores e era frio no inverno e quente no verão; por último, o “quarto de um”, a nossa suíte presidencial, que, em algum momento, seria desfrutada durante um semestre por um de nós, quando estivéssemos mais perto da formatura.

Na sala principal, com uma enorme janela e a porta quase sempre aberta, podia-se ler na parede, escrita com pincel atômico pelo Biola, a frase que marcaria muita gente: “Moçada, tô partindo para enfrentar o mundo. Levo nas mãos armas que adquiri nos anos de Kpi, Esalq, Pira. Levo no peito esperança e saudades.” Biola (F-89), na parede da Kpixama.

Descendo a escada para o piso inferior, estavam o banheiro principal; um pequeno cômodo onde instalamos o primeiro computador da Kpixama; a sala de almoço, com sua mesa enorme, na qual comiam sentadas umas 20 pessoas, que foi palco de memoráveis “canaletas” em visitas desavisadas, e a parede com os quadrinhos dos ex-moradores, perfeitamente alinhados em colunas e fileiras como em um jogo de batalha naval; a cozinha, com seu fogão industrial, onde Dona Neia preparava as refeições diárias e o Xikré fazia sua famosa feijoada; uma sala de televisão, com alguns sofás e nossa coleção de troféus; outro pequeno cômodo onde ficava o estoque de itens não perecíveis; e a “masmorra”, um cômodo multiúso que teve diferentes destinações ao longo do tempo, a última delas, se não me engano, um estúdio com bateria, guitarras e outros instrumentos musicais.

Contudo, o cômodo mais icônico daquela casa era o “terracinho”, um solar definido pelo Frangão (Julio Cesar Socorro) como “um quarto que tem o universo como paredes”. Qualquer pessoa que frequentou a Kpixama na casa da rua do Vergueiro passou algum momento no terracinho. Para nós que moramos ali, foram incontáveis noites de violão e vinho; conversas animadas e discussões profundas sobre temas aleatórios; tardes com o mais incrível pôr do sol com vista para o rio Piracicaba; e noites bem dormidas, bem ou mal acompanhados, acordando com o sol na cara e o barulho dos feirantes montando suas barracas para a feira das quartas pela manhã.

Ainda havia um quartinho no fundo da casa, entre o gramado com o pé de acerola e a velha garagem com o telhado caindo aos pedaços, onde eram disputadas intermináveis partidas de dudo, o clássico jogo de dados que foi uma febre naqueles tempos. E também havia, junto a uma pequena área de serviço com um minúsculo banheiro, uma churrasqueira de tijolos construída pelo Xikré e pelo Tá Limpo em uma de suas empreitadas como pedreiros amadores.

Esse era o cenário físico das nossas aventuras nos anos 1990, que está sendo maravilhosamente reconstruído pelo 43 (Diogo Martinez) em uma maquete espetacular, apresentada recentemente no evento de comemoraçao dos 50 anos da Kpixama.

Para quem olha de longe, uma república pode parecer uma bagunça generalizada, especialmente depois de uma bela noitada. Mas nada está mais longe da realidade. Pelo menos da realidade da Kpixama naqueles anos.

A cada semestre, em uma das nossas frequentes reuniões noturnas, decidia-se a distribuição dos moradores pelos quartos. Era a oportunidade de mudar de quarto ou de seguir no mesmo quarto com novos moradores. Uma vez tomada a decisão a respeito de quem dormiria onde e com quem, havia um tempo definido para fazer a mudança: alguns já mudavam na mesma noite; outros enrolavam até chegar àquela situação em que, ao voltar da escola, encontravam suas coisas no meio da sala e eram obrigados a se instalar nos novos aposentos.

Todo semestre também se organizavam as duplas responsáveis pela alimentação semanal. Começava-se pela definição do cardápio e da lista de compras, com a obrigação de ater-se ao orçamento estimado para os gastos da semana. Fazíamos uma espécie de competição entre as duplas, para ver qual preparava as melhores comidas sem estourar o orçamento.

As outras funções fundamentais para o bom convívio kpixamano eram o “estoque”, o “caixa” e o “telefone”.

O “estoque” era o responsável por comprar tudo o que não era perecível: óleo, azeite, vinagre, papel higiênico, sabonete, papel-toalha, sabão em pó, chocolate em pó, pasta de dente, entre outras coisas. Essa era uma das funções mais cobradas pelos demais moradores, que ficavam só esperando faltar alguma coisa para dar um puxão de orelha no colega.

O “caixa” era o responsável por organizar as finanças daquele semestre: fazer um orçamento realista, cobrar os pagamentos mensais dos moradores, pagar as contas e administrar o caixa da república. Pela responsabilidade que implicava, era uma função para quem já tinha algo mais de experiência na república.

Em uma época em que não existiam telefones celulares e era preciso alugar uma linha telefônica, o “telefone” era fundamental. A cada mês, quando chegava a conta telefônica, era necessário identificar de quem eram aquelas ligações interurbanas que custavam o olho da cara. A conta passava de mão em mão, e cada um identificava seus telefonemas. O “telefone” revisava, fazia as contas e, invariavelmente, identificava chamadas telefônicas sem dono.

Essas chamadas eram conhecidas na Kpi como UFOs, um jogo de palavras com a sigla em inglês para objeto voador não identificado, “unidentified flying object”. Muitas vezes, logo se descobria que eram de algum visitante de outra república que usava nosso telefone com a maior cara de pau e não pagava. A solução clássica para esse problema era colocar um cadeado no disco do telefone, ficando a chave com o responsável pelo telefone ou escondida em alguma gaveta. Funcionava até que alguém precisasse fazer uma ligação urgente e, sem paciência para esperar a chave, rompesse o disco do telefone.

Como parte adicional desse sistema de funcionamento, é preciso ainda destacar a função de “Ateiro-mor”, responsável por tomar nota das reuniões periódicas e registrá-las no livro de atas da república.

Duas outras práticas ajudavam a manter as coisas funcionando: os horários semestrais, impressos e pendurados na parede do corredor, para que todos soubessem onde cada um estava em cada período do dia, e queimados ao final do semes; e o pano, um lençol branco pendurado na parede da sala principal, no qual eram anotadas as pérolas verbais que a intensa convivência estudantil é capaz de produzir.

Essa forma de organização social da vida estudantil, muito característica da ESALQ, contribuiu para o desenvolvimento de um sentido profundo de responsabilidade e de compromisso com o coletivo. Não havia desculpa aceitável para a dupla que não comprava os ingredientes a tempo de preparar o almoço ou para o estoque que deixava faltar papel higiênico. Os “puxões de orelha” eram duros e doíam mais do que as represálias de pais e mães quando éramos adolescentes.

Essa comunidade de moradores era complementada por outras duas instâncias anuais de extrema importância: o Xurrasco dos Pais e o Xurrasco de Ex-Moradores (na gramática esalqueana, o X substitui o CH em palavras como Xurrasco e Bixo, entre outras).

O Xurrasco dos Pais é uma tradição nas repúblicas esalqueanas. É um momento de convívio entre as famílias dos moradores. Também é aquele momento em que as mães, horrorizadas, se dão conta de onde realmente moram seus filhos; os pais se imaginam vivendo naquela república em seus tempos dourados de juventude, enquanto assumem a churrasqueira tomando uma cerveja; e as irmãs, os irmãos e as primas se integram rapidamente aos moradores e seus amigos. Os pais dos moradores mais velhos recebem os pais daqueles que estão recém-chegando com entusiasmo e compartilham os sonhos e as preocupações relacionados ao futuro dos filhos. Na minha memória, o ambiente dos Xurrascos dos Pais da Kpixama era caracterizado pelo riso fácil, pela cumplicidade entre filhos e parentes e por expressões de assombro e felicidade diante de um mundo que era, ao mesmo tempo, caótico e maravilhoso.

Aos nossos olhos, depois de um grande esforço de limpeza e organização, a casa parecia impecável. Aos olhos das mães, provavelmente não era bem assim: “Meu Deus, depois de tanta mamadeira esterilizada, é aqui que ele veio morar?

No final do dia, depois de uma quase overdose de sobremesas preparadas com esmero pelas mães, todos se sentiam parte de uma única grande família.

Os Xurrascos de Ex-Moradores, por sua vez, eram uma empreitada mais ambiciosa.

O primeiro de que participei foi o de 1991, quando comemoramos os 15 anos de vida da Kpixama.

Foi uma festa com ampla participação dos ex-moradores. Houve um esforço enorme para contatar cada um deles, por carta e por telefone, esperar a confirmação e, então, preparar a festa.

Até hoje, quando tenho que organizar um evento, lembro-me desse ritual de planejamento coletivo a que nos dedicávamos: fazer orçamento; encomendar cerveja, carne e tudo o que mais tinha que ter num xurrasco desse tipo (até os dois tipos de maionese, com e sem maçã, para agradar aos diferentes gostos da turma); organizar as contas; encomendar os souvenirs (caneca, chaveiro, camiseta, canivete, adesivo etc.); arrumar a casa; colocar a cerveja para gelar na sexta à noite para receber os mais animados; e cuidar para que tudo “saísse bem” até o domingo à noite, quando só sobravam a gente e os amigos das repúblicas mais próximas que sempre apareciam.

Os ex-moradores deixavam de ser “fotografias em quadrinhos na parede” e rapidamente se transformavam em kpixamanos de carne e osso, desfrutando aquilo que costumávamos chamar de “espírito kpixamano”. No meio da tarde de sábado, todos juntos e embalados por litros de cerveja, cantávamos o hino da Kpixama, seguido pelo hino do Agricolão. Logo, alguns subiam para ver o pôr do sol no terracinho; outros se juntavam para lembrar e contar histórias de um passado épico, quando ainda eram estudantes; outros simplesmente desapareciam e capotavam em alguma cama ou sofá até serem descobertos e acordados com um balde de água.

Os detalhes dessas histórias, como me sugeriu o Priguissa (Marcos da Costa Viellas), deixo para as conversas ao vivo.

O que deixo registrado, no ano em que comemoramos os 50 anos de sua fundaçao, é a profunda gratidão pela oportunidade de fazer parte desta comunidade que é a Kpixama e a alegria e o orgulho de ser ESALQUEANO.

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