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Vamos mudar o foco e nos prepararmos para a retomada

29/03/2021 - Por gustavo chiarinelli barreira
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Concordo que é muito difícil falar em retomada quando estamos no pior momento desde o início dos impactos da pandemia no Brasil, em março de 2020. Porém, a existência da vacina, a evolução do ritmo de aplicação das doses e os exemplos dos efeitos positivos já observados em outros países, já são motivos suficientes para enxergarmos um pouco além do trágico cenário atual. Acredito que estamos a poucas semanas de uma forte retomada e é necessário mudar o foco negativista das manchetes e das nossas conversas com nossos amigos, familiares, colegas, para uma visão de retomada. Se não começarmos a nos preparar para o retorno, teremos os mesmos problemas que já observamos no ano passado: ruptura de produtos em geral, falta de matérias-primas e embalagens e consequente e elevada pressão inflacionária. Não podemos deixar isso acontecer!

De forma objetiva, trago aqui os números que sustentam minha opinião, com dados coletados sobre a vacinação no Brasil até dia 27 de março de 2021. Vamos à eles:

-  17,5 milhões de doses aplicadas, somadas primeiras e segundas doses;

- 13,5 milhões de pessoas receberam pelo menos a primeira dose, 6,4% da população brasileira;

- Quando consideramos apenas a população acima de 18 anos (mais suscetíveis à contaminação), este percentual é de 8,0%;

- No Brasil, a média móvel de 7 dias das doses aplicadas saltou de 180 mil doses/dia para atuais 577 mil doses/dia, em um intervalo de apenas 14 dias;

Partindo destes dados, proponho aqui um exercício que nos leve a uma compreensão de quando veremos a luz no fim do túnel. Portanto, para fins de exercício, considerando que em abril e maio teremos uma média diária de doses de vacinas aplicadas de 700 mil, em 40 dias chegaríamos próximos de 45 milhões de doses.

Sobre o total de doses aplicadas, atualmente temos a seguinte relação: 75% são de primeira dose e 25% segunda. Replicando esta relação na projeção, teríamos até o dia 10 de maio, 32 milhões de pessoas vacinadas com pelo menos uma dose, ou seja, 16% da população brasileira e a experiência de outros países mostra que este número é emblemático.

Em países como Estados Unidos e Inglaterra, onde a velocidade de vacinação caminha a passos largos, foi observado uma queda acelerada do nível de novos casos de COVID-19 quando o percentual de pessoas vacinadas chegou a 15%. Nos EUA, após este percentual ter sido atingido, o número de pessoas contaminadas caiu 75% em relação ao pico (04 de janeiro) ao longo dos 60 dias seguintes e assim permanece até o momento. Na Inglaterra, a velocidade da queda foi ainda mais impressionante, de 90% nos mesmos 60 dias. Em ambos os casos, ao longo dos referidos 60 dias, o ritmo de vacinação foi em torno de 0,45% da população/dia. No Brasil, estamos próximos de 0,3%, mas crescentes.   

Atualmente, a Inglaterra vacina a uma velocidade de 0,80% a 0,90% da população por dia e os Estados Unidos estão em 1,0%.   

As premissas assumidas para o Brasil e as experiências observadas nos outros dois países, nos leva a entender que teremos dias difíceis até a primeira quinzena de maio, quando alcançaremos os 15% da população vacinada mas que a partir daí, caminharemos para uma reversão de tendência e já é possível imaginar um segundo semestre com vida próxima do velho normal.

Como contrapontos e possibilidades (espero que sejam muito remotas), existem as mutações do vírus ou mesmo eventuais efeitos reversos das vacinas, que podem retardar o cenário de melhoria e estender por mais tempo a volta à uma vida livre.

Como potencial upside, é bastante provável que tenhamos uma disponibilização maior de doses de vacinas do que as consideradas nas premissas que usei acima para abril e maio. Tal aumento viria não só pela maior produção mas também pelo fato de que vários países desenvolvidos já terão vacinado boa parte da sua população e poderão destinar mais doses para países que estão no epicentro dos novos casos.

Apenas a título de exercício, se considerarmos uma média de 1 milhão de doses aplicadas por dia no Brasil, como média de abril (ao invés dos 700 mil anteriormente propostos), atingiríamos os 15% da população vacinada com pelo menos uma dose ainda em abril e obviamente, todos os efeitos positivos se antecipam.

Entendo os “lockdowns” e medidas restritivas atuais como necessários e tenho conciencia da sua importância já que chegamos em números assustadores. Dentre as medidas mais recentes, entretanto, uma em específico me preocupa muito: a parada das indústrias. Isso certamente trará impactos bastante negativos para a economia no futuro próximo, que vão além da própria desaceleração econômica em si. Ruptura de matéria prima, falta de produtos, inflação...tudo que vivenciamos no ano passado.

Sei que a decisão de continuar produzindo e fazer estoques com objetivo de ter disponibilidade de produto no futuro próximo depende de muitas outras variáveis, como por exemplo capital de giro para bancar os custos deste carregamento. Por isso a necessidade de linhas de crédito, públicas ou privadas, para evitar um mal maior muito em breve, especialmente para pequenas e médias empresas.

Não é fácil ter um olhar otimista quando estamos vivendo nosso momento mais crítico. Mas precisamos ter serenidade e olhar dados e fatos e traçar cenários para tomar as melhores decisões. 

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