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Um Caminho para a Pesquisa Agropecuária (FIFI; F65)

15/01/2018 - Por roberto rodrigues
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Um Caminho para a Pesquisa Agropecuária 

Roberto Rodrigues *

"Homem que é homem Faz como o cedro,
Que perfuma o machado Que o derrubou"...

(Lupicínio Rodrigues, poeta e compositor gaúcho)

Nos últimos dias tem acontecido um debate bastante aquecido sobre a estrutura, a estratégia e os métodos de trabalho da Embrapa, a partir de questionamento colocado na mídia por respeitado pesquisador que acabou demitido pela igualmente respeitada direção daquela renomada instituição.

Não é momento para personalizar esta discussão e nem para procurar eventuais desvios de rumo de uma das mais admiradas empresas públicas brasileiras e buscar culpados por isso.

Mas o debate traz a público a necessidade de olhar de perto as questões levantadas, com equilíbrio e sem paixão, tendo sempre em vista os horizontes demandados pelo mundo em termos de participação do agro brasileiro na segurança alimentar e também na segurança energética globais.

Não se trata de questionar a contribuição da Embrapa para o desenvolvimento da agropecuária e do agronegócio nacionais. Isso está "transitado em julgado", e faz tempo. Basta dizer que nos anos 60 o Brasil era grande importador de alimentos e hoje somos dos maiores exportadores. Muito dessa notável mudança se deveu ao extraordinário trabalho dos técnicos daquela instituição que com patriotismo e determinação ajudaram a mudar o cenário do interior brasileiro, com ênfase para a conquista do cerrado, sempre considerando o tema da sustentabilidade produtiva. Deve-se dizer que a Embrapa não foi a única responsável pelos avanços tecnológicos que aconteceram no nosso agro. Tivemos o esforço de organismos de pesquisas estaduais, das universidades ligadas ao agronegócio, bem como o do setor privado, seja o desenvolvido por empresas nacionais, seja o das multinacionais. Foi o amplo trabalho desse conjunto de organizações atuando no país, e principalmente a disposição dos produtores rurais de todos os rincões em incorporar as tecnologias por elas geradas que permitiu os saltos espetaculares dados pelo campo. E não se pode esquecer que tivemos, ao longo destas 4 ou 5 décadas, muitas políticas públicas que também ajudaram.

Mas se pode dizer que isso é história. E os desafios para o futuro são muito maiores. Primeiro, porque os novos saltos de produtividade serão mais curtos em função dos patamares alcançados até aqui; segundo, porque os mercados estão muito mais exigentes em relação à qualidade dos alimentos; terceiro, porque é preciso produzir cada vez mais com os olhos postos na sustentabilidade, com preocupação quanto a preservação dos recursos naturais, especialmente a água; quarto, porque a competição está se acirrando, e não

podemos cometer erros como o da "carne fraca", por exemplo; e quinto, porque o mundo espera que o Brasil seja um grande player na oferta de alimentos, energia e fibras, e não podemos ficar de costas para isso, que representa uma oportunidade histórica para a geração de empregos, renda e riqueza para o país e seu povo.

Que fazer então? Talvez tenha chegado a hora de uma ampla revisão de todo o sistema nacional de pesquisa agropecuária. E não apenas na Embrapa. Tomemos o caso do Instituto Agronômico de Campinas, uma instituição à qual jamais poderemos pagar pelo que desenvolveu de novas tecnologias que melhoraram a produtividade agrícola em todo o país. Cada pesquisador que por lá passou merecia uma estátua, pelo compromisso com o agro, também característica inspiradora da Embrapa. Pois está hoje à míngua. Falta tudo, desde recursos humanos remunerados dignamente até material de pesquisa, por maior que seja o esforço dos sucessivos Secretários de Agricultura que lutaram e lutam para mudar isso. Segundo dados da APqC - Associação do Pesquisadores Científicos de São Paulo, a Secretaria da agricultura do Estado tem 638 pesquisadores científicos ativos e 574 vagas não preenchidas! E ainda pior: cerca de 60% dos pesquisadores estão com tempo próximo para se aposentarem, e muitos não o fazem para não esvaziar ainda mais suas instituições.

É tempo de rever todo esse quadro. Um país não vai a lugar nenhum sem desenvolvimento de ciência e tecnologia que lhe permita ombrear-se aos competidores internacionais. Os orçamentos para tal fim vão diminuindo, e poder-se-ia aceitar que a recente crise econômica levou a isso. Mas na verdade, esse cenário vem de muitos anos já, revelando falta de visão dos governantes em relação ao futuro da ciência nacional.

Diante da questão levantada na Embrapa, fica uma sugestão: o Governo Federal poderia contratar uma consultoria independente e externa à Embrapa, respeitada e competente, para rever todo o programa dela (inclusive a estrutura atual, verificando se tem algo de mais ou faltando), à luz de tudo o que tem sido debatido e principalmente das demandas contemporâneas dos agricultores brasileiros e dos consumidores daqui e de fora. É mais do que oportuno, até porque em 2019 teremos governo novo, a Embrapa deverá também ter renovação de dirigentes, podemos aproveitar a crise lá instalada e reformular o que for necessário, em benefício da sociedade toda. Adicionalmente, o IBGE está avançando com um novo Censo agropecuário que revelará a nova realidade do campo, quem produz o que, como e quais são os problemas reais para o futuro. É a essa realidade que a Embrapa precisa estar atrelada.

E os Governos Estaduais fariam o mesmo com seus sistemas de P&D, sob uma crença definitiva: não haverá progresso sem ciência e tecnologia. Nem no campo e nem nas cidades.

* Coordena o Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas, foi ministro da Agricultura e escreve artigos todas as terceiras segundas-feiras do mês, é Conselheiro Consultivo e Sócio Mantenedor da ADEALQ. 

Originalmente publicado no BROADCAST ESTADÃO JAN/2018 UM CAMINHO PARA A PESQUISA AGROPECUÁRIA 

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