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Trio Encarnado pra Paraíba (Pikira; F87)

17/11/2019 - Por cesar figueiredo de mello barros
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Eram três: o indefectível SuperF69, intrépido conquistador dos Andes com a F74, e dois da Viação Macir Ramazani de Sertãozinho, que depois deste episódio jamais voltou a locar ônibus para viagens da Atlética.


Sábado à tarde, na saída do Ginásio da Agronomia, pessoal da AAALQ et allii se apossou do 69, Sumô de porteiro, de lá expulsando os bixos e -pasmem senhores- as mulheres (nunca me enganaram mesmo). No Ramazini que tinha banheiro se aboletaram os raros atletas,tranquilos turistas, alguns nativos; botamos o Betão Kabra na porta do outro e incluímos todos os excluídos, mais a turma da braquiária toda (em singela homenagem ao mestre da Forragicultura, incontinentemente batizamos o ônibus de Moacirzão). De quebra, botamos pra dentro, só com a roupa do corpo e a carteira de identidade, o finado João Bóbra, que tinha ido se despedir dos amigos. Quando notaram o tamanho da encrenca mandaram o Zilo e o Foguinho pra tutelar a rapaziada.

Batida de coco do Pilequinho pra dar sorte na viagem, velha tradição avarandadina daqueles tempos, estoque de cachaça do Furlan do Estádio e a ida foi uma festa, violão com batuque, fitas do Senhor do Bonfim e um monte de badulaques angariados de forma pouco republicana a enfeitar o coletivo e Protão (estamos velhos, já é o terceiro que partiu antes do combinado que cito) declamando Maiakovski, cervejinha gelada em cada parada de abastecimento que todo mundo ainda tinha algum recurso monetário. Numa dessas, lá pelo meio da Rio-Bahia, travamos uma amizade genuína e profunda com a alegre frentista do posto Atlantic, uma tatuagem na canela, outra acima do seio, uma terceira que prometeu nos mostrar (hoje é muito comum, a juventude toda parecendo um cheque devolvido, cheio de carimbos, mas naquela santa semana de 1985, ainda raro) e para tanto se dispôs a nos acompanhar até a praia de Tambaú com a promessa de que a devolveríamos na volta dali a uma semana; a nativa Patricia, com o bom senso e a autoridade de filha do chefe de departamento de Matemática e Estatística - depois virou diretor e até prefeito de Piracicaba, o Dr. Humberto - vetou, e aquilo não ia mesmo prestar.

Já na Brioi (forma carinhosa de se referir a BR-101) umas 50 horas de viagem, resolvemos dar um banho inaugural no Bóbra, e, sob os olhares incrédulos dos irmãos caminhoneiros com aquela turba pelada e ensandecida, acabamos inundando todo o recinto de chuveiros e sanitários do estabelecimento; Protão até deu uma canja de xispada pro pessoal da lanchonete.

Mais à noite, fomos gentilmente desencorajados de desembarcar do veículo por uma 12 de cano serrado manejada por um mal-educado funcionário noturno de um posto recém saqueado pelos nossos amigos de Pinhal, que iam em 4 ônibus para o mesmo evento. Acatamos, e foi até bom, porque logo encontramos a turma do Super F69, todos com os pescoços arroxeados pela célebre carícia do Sergio "Ventosa" Porrada, e pudemos, debaixo de chuva, encerrar triunfalmente a chegada das delegações à Universidade Federal da Paraíba.

Tinham nos reservado uma ala de 5 ou 6 salas de aula, escolhemos a penúltima, que tinha imensa goteira bem no centro, e considerado o melhor porque tinha "piscina"; compramos o carnê pro bandejão, tão bom e natural o rango que o peixe vinha com escamas e o estrogonofe de frango era só pele, osso e coentro. Chegava a dar saudade do bife a rolê do Rucas, mas nunca perdíamos a batalha de comida entre o pessoal de Mossoró e Cruz das Almas, rixa antiga, coisa linda os universitários daquela época.

Foi uma semana linda, assistíamos ou jogávamos de manhã e à tarde, íamos ao centro e a praia ver o crepúsculo de Mercedes (da CBTU Mandacaruense), a Cabedelo fomos de trem, uma garrafa de Pitú em 4 durava até uns 25 minutos, sem virar, que não tínhamos pressa. Forró todas as noites, depois serenatas pras surfistas de Taubaté e as dançarinas de Brasília, repente com os da Rural de Pernambuco, fandango com os gaúchos de Santa Maria. Ganhamos fácil na natação, um tal Valerini de Pinhal (planta um ermo de batata perto de Araxá, vi na tevê um dia desses) nos derrotou na final do handebol sozinho; companheiros João Kavalo e Bóbra tiveram que ser substituídos no futebol de campo após praticarem vômito sincronizado, um em cada bandeirinha de escanteio; tomamos uma fogueira coletiva monumental na chuva, um dos melhores gran reserva do terroir de Alagoas, o Chateau Capelinha; Protão surpreendeu no salto em altura, descalço e muito sujo, só de calção e uma fita no cabelo, pulou 1.75 e foi medalha de prata, eu e o Kabra as únicas testemunhas oculares; defendemos, eu, Abutre e o presidente Katuaba do Calq , o caráter lúdico-esportivo e a continuidade de jogos como aqueles, contra uma maioria de delegados que achava que não eram mais necessarios naqueles redemocráticos tempos Tancredistas; terminamos vice-campeões, com uma equipe bem menor que os pinhaleiros.

Na volta, sei que guardei a foto, mas infelizmente não encontro, estamos sentados à sombra de um caminhão do fermento Itaiquara, debilitados pela esbórnia e sem dinheiro algum, mastigando pão com carne e banana que caridosos e previdentes colegas contrabandeavam pra fora do restaurante, quando Bóbra determina: Temos que tomar uma Atitude! Reuniu os últimos trocados do nosso pequeno grupo, 4.000 dinheiros da época, e voltou com duas garrafas da pinga Atitude, deu pra anestesiar o coração até um posto Flecha que aceitava o cartão Elo que alguém de nós tinha e o reabastecimento etílico indecoroso providenciado pela bixada.

Bóbra, Sumô e Proto tão escalados no time titular de São Pedro, Largo, Foguinho e Punkão nunca mais ouvi falar, Kabra, Abutre, outros, vejo de vez em quando, nos quinquênios, muito menos que deviamos, Bandit e João Kavalo só no feicibuque, temíveis doutores hoje são simpáticos grisalhos, saudade é sempre maior que as pequenas mágoas, somos todos A encarnado.

Tempo muito bom, aquela Agronomíades de João Pessoa, grande viagem. Apareçam.


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