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Travessia (Pinduca F68)

10/10/2015 - Por marcio joão scaléa
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A noite em Montes Altos passou depressa, pois o cansaço era grande. Dia clareando, os universitários acordaram já com gente cercando a kombi, que era a grande novidade do lugar. Muitos nem sequer conheciam um carro daqueles, ou mesmo um motor refrigerado a ar, pois o que dominava por ali eram os jipes e as jardineiras(veículo misto de caminhão com carroceria aberta de ônibus), para o transporte de carga e de passageiros.

 

Cara lavada e dentes escovados sob os olhares curiosos dos passantes, os viajantes sentaram-se na escadaria da igreja para tomar o seu café, quando chegou o prefeito da cidade, acompanhado por dois outros homens. Ele se apresentou, deu as boas vindas e perguntou se estavam precisando de alguma ajuda. Confirmou o destino do grupo, que era São Luiz, passando por Grajaú e Barra do Corda e fez uma proposta :

 

- Estes dois companheiros precisam ir a Grajaú, que é caminho para vocês. Sozinhos, vocês dificilmente vão conseguir passar pela estrada, é um labirinto cheio de desvios, alem dos areiões e valetas. Em troca da carona, estes dois amigos os auxiliam na estrada, indicando os melhores atalhos e ajudando a empurrar, no caso de encravarem. E é gente de minha confiança. Vocês topam?

 

A proposta era perfeita, era tudo o que o grupo precisava, e a viagem seguiu seu curso, com os dois novos companheiros a bordo da kombi.

 

Para os areiões delineou-se uma estratégia : assim que o trecho de areia ia se aproximando, o motorista engatava uma terceira marcha e acelerava fundo; após alguns metros, quando a velocidade caia, ele engatava uma segunda enquanto os outros abriam as portas da kombi; quando era puxada a primeira marcha, com o carro quase parando, os passageiros saltavam e se atracavam na traseira da kombi, com todas as forças, arrastando-a até o fim do trecho. Era desgastante, mas funcionava. Fora os areiões existiam ainda pedaços em que não havia mais estrada, eram valetas escavadas pela erosão no período das chuvas. As enxadas e enxadões trazidos a bordo foram providenciais, para derrubar os barrancos e abrir um "trilheiro", por onde era conduzida a valente kombi.

 

O anoitecer desse dia trouxe muita incerteza : estava escuro e a cidade não chegava; perguntados, os "caronas" só diziam que Grajaú estava "logo ali", mas eles repetiam isso desde cedo; o combustível estava quase no fim, já havia se passado um bom tempo desde que o último garrafão de cinco litros fora despejado no tanque, e a cidade não chegava. De repente, numa curva, dentro de um capão de mato, apareceu uma ponte, dessas feitas de troncos e paus roliços, de aparência duvidosa. Antes de tentar cruzá-la, foi decidido fazer uma revisão nos paus, a ver se estavam dando passagem segura. Ao descer, a surpresa : numa pequena clareira, logo após a ponte, um grupo de índios os espreitava com curiosidade, iluminados pelos faróis. Não deu tempo de checar as condições da ponte, ela foi cruzada aos trancos e barrancos, deixando para trás a inquietante presença dos índios.

 

Finalmente uma rua, alguns casebres, depois casas, era Grajaú. Vivas, buzinaço, abraços, haviam conseguido chegar, depois de mais de quinze horas para vencer parcos sessenta ou setenta quilômetros.

 

Mas não era o fim da travessia. Na realidade, a travessia estava por acontecer, pois seguindo as indicações dos "caronas", o motorista conduziu a kombi até um local em que a rua mergulhava no rio Grajaú!

 

- Ôpa, deve ter tido um engano, a ponte fica em outra rua...

 

- Não, é aqui mesmo, não tem é ponte! Tem que atravessar por dentro do rio, a vau, é o que todo o mundo faz.

 

O rio foi cruzado na manhã seguinte, atrás de outros veículos já acostumados ao trajeto. Foi uma experiência incrível, pois era uma extensão de mais de cinqüenta metros de corredeira nas pedras, com mais de meio metro de água, que quase carregava a kombi rio abaixo.

 

Travessia !


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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