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TIO SAM (Pinduca F68)

30/05/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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TIO SAM

 

 Junho de 1984, a protelada viagem aos Estados Unidos estava para acontecer.

 

O Pesquisador havia tido sua formação em plena revolução. Onde se preferia tudo a ter que admitir que no fundo, a saída estava no capitalismo. Trabalhara durante anos em empresas nacionais, desdenhando oportunidades em multinacionais, por pura opção política. Mesmo nessa fase, tendo a chance de viajar e se aperfeiçoar, ao entender que isso seria uma forma de se curvar ao capital e à tecnologia das multinacionais, desistira.

 

Em seu primeiro emprego, um ano e meio de trabalho, nunca recebeu os salários e nem teve a Carteira Profissional assinada. Mas as amizades que fez e a reputação profissional que estabeleceu o acompanharam por toda a vida. Satoshi Koutaka, Tonicão, Carlos Albert, Juan Nakamoto, Edmundo Ochomogo, foram todos parceiros dessa primeira fase profissional.

 

Em seu segundo emprego, na Aero Agrícola Caiçara, da família Moura, em Santos, nenhuma queixa : gente muito decente e honesta, mas cujo principal negócio não era a aviação agrícola, o que limitava os horizontes. Assim como era limitada a própria atividade de aplicar defensivos por avião em lavouras de terceiros : só depois de todos os outros débitos pagos (bancos,adubo, semente, defensivos, mão de obra), se sobrasse dinheiro seria para pagar a aviação agrícola. Era complicado pretender estabelecer uma família sobre estas premissas.

 

Em resumo, pruridos políticos à parte, a carreira numa multinacional era atraente : ao ser contratado, salário bem claro e pago a cada 15 dias. Cargo e carreira : hoje você tem este cargo e ganha X, amanhã você poderá ter aquele cargo e ganhar Y. Mas viajar para os Estados Unidos era demais para o nacionalismo do Pesquisador : idiotas que vão à Disney, quando no Brasil temos tantas belezas e atrações. Mas daquela vez não pudera se furtar, pois dois altos executivos de um grande grupo brasileiro, amigos pessoais seus, exigiram que a empregadora do Pesquisador o escalasse para ser o tradutor/acompanhante na viagem que fariam aos Estados Unidos em breve.

 

Primeira viagem internacional para os três, a classe executiva da Varig foi algo inesquecível. A melhor roupa e sapato, champagne, tudo era novo. Até que de madrugada, perceberam que sapato novo não combinava com pés inchados de ficar sentado por horas a fio. A solução cabocla foi óbvia : tirar os sapatos, e eliminar o problema. Sem saber que criariam outro : de manhã, para desembarcar, como voltar a calçar os sapatos novos nos pés inchados? A solução foi dar três voltas olímpicas pela cabine das classes executiva e econômica, restabelecendo a circulação nas pernas, até que os artelhos novamente coubessem no restrito espaço que lhes fora reservado.

 

Finalmente Miami, bagagens arrumadas, carro alugado. Saída do aeroporto, primeiro choque : ponte, no caminho da Highway 1, com cancelas e cobrança de passagem. Cinqüenta cents. Parecia loucura : cobrar para passar numa ponte, no país mais rico do mundo? Assim como parecera muito estranho ter que pagar para usar os carrinhos de bagagem no aeroporto ou pegar um carregador para as malas. Mas essa é a base de uma economia que funciona : nada é de graça, tudo tem preço, mas o valor é justo. Há mais de vinte anos que qualquer carregador de malas em qualquer aeroporto dos Estados Unidos cobra um dólar por mala, e vive disso. Serviço não falta. Dia destes o Pesquisador perguntou em Congonhas para um carregador quanto ele cobrava para levar sua mala, ao que ele respondeu, com visível má vontade, visto ser mala grande : uns dez real. Parado estava, parado ficou, a reclamar da vida, da sorte e do governo.

 

Primeira parada, para comer alguma coisa, Pancake House ou algo parecido. Segundo choque : a atendente (fico pouco à vontade para chamar a velha senhora de garçonete) assim que os viu sentar, se apressou em lhes perguntar em que poderia ser útil, com uma boa vontade e uma alegria contagiantes. Disse que era uma velha senhora, e era mesmo, pelo menos uns setenta e tantos anos. Setenta e tantos anos, e com o maior orgulho de poder ser útil, ao contrario de certos paises, em que parece que trabalhar é indigno. O Pesquisador conhecia inúmeras pessoas que mal começavam a trabalhar e já se preocupavam com a aposentadoria. Um país onde se valorizava o trabalho, era o que o Pesquisador estava conhecendo agora.

 

Dia seguinte, querendo ou não, o caminho os levou à Disney, em Orlando. Sorriso irônico nos lábios, respostas pré fabricadas para o que ia observando à medida que chegavam ao estacionamento, o Pesquisador era puro ceticismo. Até perceber que não havia filas, não havia buzinas, não havia congestionamento, eram 11 faixas de estrada despejando veículos um após o outro e tudo fluía como se fosse domingo de manhã na Avenida Paulista. Não tinha aquele esperto querendo parar mais perto, todo mundo parava onde era para parar. Vinha o trenzinho e levava todo o mundo, não se esperava mais do que alguns minutos, apenas suficientes para todos deixarem seus carros e caminharem até o trem. Não havia filas : milhares de pessoas entravam no parque por hora, e não havia filas, pois o numero de bilheterias era compatível com o numero de visitantes. Este foi o terceiro choque : existe um país onde as coisas funcionam.

 

E o Pesquisador percebeu que abominara e odiara todo um povo e uma cultura, apenas baseado em suposições e em meias verdades que lhe haviam sido impostas por terceiros.


Marcio João Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

 

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