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TEORIA (Pinduca F68)

17/08/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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O Velho não aceitava muito o sofrimento. E achava que ninguém, em sã consciência, se sentisse bem ao sofrer. Até aceitava o sofrimento como uma forma de atingir algo melhor ou muito desejado: uma provação, com direito a recompensa no final. O que, no fim, é a receita de muitas religiões : vale de lágrimas, purgatório e céu. Até entendia o sofrimento de alguns, como forma de penitencia por erros cometidos, nesta e noutras vidas. Como é explicado por outras religiões : carma, evolução, iluminação.

 

Ao ver um adulto sofrendo, qualquer um chega até a se comover, mas logo acorrem justificativas para jogar uma cortina de fumaça sobre a visão, distanciando-a do espectador : deve ter sido alcoólatra...; ou quem sabe mexe com drogas...; pela cara não gosta muito de trabalhar, de pegar no pesado...Mas uma coisa difícil de aceitar era ver o sofrimento de uma criança : não teve tempo de sequer saber o que é droga ou álcool. Aquele olhar parado, distante, de perplexidade frente à dor. Qual seria a sua causa?  Aquele choro de fome, o empurra-empurra pra tentar pegar a moeda jogada. Ou o enfrentamento com ratos e urubus nos monturos. Existiria uma explicação para aquilo? Uma relação de causa e efeito? E a dificuldade em aceitar aquilo acabava por gerar um grande desconforto no Velho : será que Deus não era infalível? Não era justo?

 

Mas a resposta estava ali mesmo : Deus, em sua justiça e infalibilidade, estava apenas tratando da sobrevivência da espécie. Num futuro próximo, após alguma hecatombe que parecia iminente, causada pelo próprio homem ou pela natureza, quem teria mais chances de sobrevivência?  Seria o filho do rico, obeso e sedentário, ou o filho do miserável, ágil e pronto para a disputa? Seria o filho do doutor, que não conseguirá nem ligar seu vídeo game, por falta de energia, ou o filho do miserável, que brinca com o carrinho quebrado achado no lixão? Seria a criança suíça, que congelará de frio na falta de energia para o aquecimento ou o filho do etíope, que conseguirá sobreviver comendo vermes? Seria o neto do doutor, que não consegue descascar uma laranja, ou o menino nordestino, que com seu engenho e arte é capaz de construir uma arapuca para pegar umas rolinhas, garantindo a sua dose de proteína por uma semana?

 

Seleção natural, uma teoria.

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