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Susto 3 (Pinduca F68)

30/01/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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SUSTO 3

 

O Agrônomo estava em plena safra de algodão em Goiás, aviões trabalhando de sol a sol, mas precisava fazer uma viagem a S.Paulo. A carona de avião oferecida pelo Sr.B. foi providencial, pois em poucas horas estariam em S.Paulo, no dia seguinte resolveria seus assuntos e à noite já poderia tomar um ônibus de volta, não convinha se ausentar por muito tempo de Santa Helena de Goiás.

 

O Sr.B. voava com um Mooney 21, prefixo PT-DKK, monomotor americano que tentava ganhar mercado no Brasil. Era um avião muito rápido, que em pouco tempo chegou a São José do Rio Preto no estado de S.Paulo, com o Sr.B. pilotando, o Agrônomo sentado à sua direita e um terceiro passageiro que era contador da empresa, que nunca havia voado, sentado no banco de trás.

 

Em Rio Preto o aviãozinho foi reabastecido e as condições de vôo foram checadas, mas as informações não eram animadoras : estava subindo do sul uma frente fria muito forte, com nuvens pesadas e muito altas, provocando temporais em toda uma faixa através do estado de S.Paulo. A recomendação era de não tentar cruzá-la. O Sr.B. olhou as cartas de clima, avaliou e decidiu : "Vamos embora, já cruzei frentes piores". Os demais pilotos presentes, aqueles tradicionais freqüentadores de aeroportos, balançaram a cabeça em sinal de desaprovação. O contador, confiando em seu patrão, logo se aboletou no banco traseiro, mas o Agrônomo, escaldado de outros vôos, não se sentia confortável. Mas também não podia abandonar o "navio", seria uma ofensa ao Sr.B., que alem de tudo era sócio de seu patrão.

 

Decolagem autorizada graças a um plano de vôo na direção oposta da frente que entrava, corrida na pista e o Mooney ganhou altura, com o Sr.B. comentando :

 

- Vou subir para uns dez ou doze mil pés, sintonizando com um rádio a freqüência de Rio Preto, atrás. Com o outro, sintonizo a radio de Praia Grande, então estaremos sempre orientados, mesmo voando acima da camada de nuvens. Quando bloquearmos Praia Grande (quer dizer, quando voarmos sobre a antena da radio da Praia Grande), toco mais três minutos para fora da costa e começo a descer em espiral. Como a chuva não cola nunca sobre o mar, assim que sairmos das nuvens, estaremos voando bem baixinho sobre as ondas, e aí é só voltar para terra e pousar no Aero Clube da Praia Grande. Já fiz isso antes!

 

O contador sorria, feliz. O Agrônomo preocupado, pois sabia que há nuvens com mais de trinta mil pés de altura, como os famosos CBs (cumulus nimbus), só esperava não dar de cara com uma delas.

 

Com poucos minutos de vôo já era visível a barra negra de nuvens semeada de relâmpagos, bem na proa do DKK. O Sr.B. confiante, o contador cochilando e o Agrônomo olhando ao redor, vendo que penetravam cada vez mais na frente de nuvens, que quase já os cercava. O Mooney, com toda a sua potencia, berrava e ganhava altura, quando começou a turbulência. Pequenas sacudidas, parecendo trepidações numa estrada de chão e alguns pingos esparsos de chuva. O Sr.B. mantinha o avião com o nariz para cima, tentando ganhar mais altura, mas a nuvem bem na frente parecia não ter fim, subia até aonde a vista alcançava. De repente entraram voando na nuvem, tudo ficou mais escuro. O altímetro parecia louco, a oscilação de pressão dentro do CB era tanta que ele acusava subida e descida quase ao mesmo tempo. Três minutos voando assim pareceram muitos anos, e aí o Agrônomo se preocupou de verdade : as mãos do Sr.B. estavam crispadas agarradas ao manche, e ele suava, de tanta força que fazia para manter o avião nivelado. O contador assoviava baixinho.

 

Foi quando o Sr.B. percebeu que não conseguiria passar por cima daquelas nuvens e resolveu fazer meia volta, para procurar um lugar seguro lá atrás. Só que fazer meia volta numa situação daquelas não é coisa que se aprende em aeroclube, e os poucos minutos de volta pareceram séculos. E quem poderia garantir que estavam mesmo voltando? O Sr.B. se esforçava por manter o avião nivelado, mas nem isso era fácil pois não haviam referencias, e os instrumentos de vôo pareciam loucos. Quando se vislumbrou uma área mais clara, à direita da proa, o DKK foi apontado para lá, desembocando numa "clareira" no meio das nuvens, com uns dois ou três quilômetros de diâmetro, onde não chovia tanto e a visibilidade era melhor. Conseguiram ver que estavam quase nivelados, a mais ou menos uns trinta metros de altura sobre uma floresta, e a decisão foi voar em círculos dentro da clareira, tentando se orientar. Antes de completar uma volta, passaram sobre uma estrada, e com rápida manobra o Sr.B. começou a segui-la, esperando que desembocasse em alguma cidade. Logo depois apareceu a cidade, que o Agrônomo, promovido a navegador, tentava identificar no mapa. Parecia ser Dourado, mas não havia certeza, poderia ser Brotas. Voando em círculos, a baixa altura, o avião chamava a atenção da população, que começou a sair às janelas, apesar da chuva. Se a cidade fosse mesmo Brotas, bastaria seguir a estrada de ferro que a cruzava, para chegar em poucos minutos a Itirapina, o que foi feito, e o problema agora era achar uma pista para poder "despejar" o avião, pois a chuva forte vinha chegando rápido. Ajudado pelo mapa e pela memória, o Agrônomo propôs ao Sr.B. tentar pousar na pista de uma fazenda, que ele visitara algum tempo antes, ainda estudante :

 

- Estamos perto da rodovia Washington Luiz, ali à direita. Um pouco abaixo, à margem da estrada está a fazenda Guanabara, que cria gado holandês, e que tem uma pista perpendicular à rodovia, ao longo de uma carreira de eucaliptos. Acho que é a pista mais próxima e que dá para chegar lá.

 

Em poucos minutos a pista foi avistada, fez-se o procedimento para pouso e o DKK chegou à cabeceira com um vento de través que envergava os eucaliptos. Mas o Sr.B. conseguiu pousar e manobrar o avião no chão para ficar de frente para o vento. Aí caiu o temporal e os três ficaram quase quarenta minutos esperando a chuva amainar, para poder sair do avião. O piloto e o Agrônomo estavam até frouxos, pela tensão e o esforço. O contador, inocente, só queria que a chuva passasse, pois ele precisava fazer xixi!

 

O fim da viagem foi de táxi debaixo de chuva forte até São Paulo! O táxi só tinha um rádio, que tocou musica caipira a viagem inteira, não importando qual rádio estivesse sintonizada.


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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