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RIO DOCE - A Realidade Agridoce (Wick F87)

24/11/2015 - Por warwick do amaral manfrinato
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Por Warwick Manfrinato,

Piracicabano, 

eng. Agrônomo/ESALQ/USP, MSc CENA/USP,

Diretor da Plant Inteligência Ambiental.

 

De todos os planetas conhecidos pelo ser humano, o Planeta Terra tem algo muito diferente: água líquida. Conhecemos, de longe muitos planetas, alguns minuciosamente, pra onde até mandamos robôs voadores para espionar. A água liquida requer um equilíbrio muito delicado para ser mantida estável e incrivelmente esse equilíbrio tem muito a ver com a vida, principalmente com as plantas e mais ainda com a estrutura de funcionamento de florestas amplas e diversas. É disso que vem a nossa principal riqueza, a floresta. Já descobrimos alguns planetas onde existe água, mas a temperatura nesses está ou muito baixa, e só existe gelo duro inóspito (Marte a -60 graus Célsius) ou muito alta e só existe um escaldante vapor (Vênus a +464 graus Célsius). Em condições adversas de temperatura, a vida pode até existir, mas numa forma ainda muito primitiva e elementar, pouco organizada. Para manter esse equilíbrio propício, como na Terra, é tão delicado que mesmo eu sendo pragmático, entendo com facilidade a necessidade de um milagre ou mão divina. 

Aqui na Terra, olhados de longe, os rios são veias que cortam a terra, levam e trazem de tudo, do bom e do melhor. Em tempos difíceis ou conturbados, ajudam limpar e carregam sedimentos e tantas outras coisas. Mas rios funcionam sempre ao tempo largo, quietos. Muito raramente, algo extremamente drástico envolve rios como os conhecemos, plácidos. Rios tumultuados são como enxurradas, passam destruindo, pouco poéticos ou românticos. O ser humano, entretanto, tem a capacidade de alterar os rios estáveis, lhes impondo barragens úteis, terraços, represamentos, grandes reservatórios de água, enfim, modificam suas vontades e desejos de oceanos. 

A tragédia de Mariana nos alerta, aqui em nossa região, farta de rios e riachos e represamentos, para a realidade que o homem vem construindo em sua busca frenética por avançar sua civilização com crescimento, desenvolvimento e aumento ilimitado de sua influência sobre o Planeta Terra. No agigantamento da sua meta, nós humanos esbarramos nos limites, sem respeita-los. Em grande parte por ignorância. Mas a ignorância é da sociedade como um todo, por isso o espanto, o susto, a indignação e ate o inconformismo com as notícias catastróficas de Mariana. A ignorância, o desconhecimento, entretanto, não era de todos. Alguns sabiam, sempre alguns sabem! Sabiam até demais, com números, estatísticas, características geológicas, sedimentares, biogeoquímicas e mesmo os níveis de risco de algo ruim que poderia acontecer. Esses que sabiam, não estão indignados. Devem, ou deveriam, estar com vergonha, sem dormir, sem saber onde enfiar a cara. 

Em algum momento houve a demanda da construção das barragens de Mariana, e um grupo de engenheiros saiu a calcular e compreender a situação. O assunto é de alta precisão. Ninguém se mete a fazer algo desta monta sem saber o todo, inclusive, e especialmente, as variáveis imponderáveis do bem e do mau. Utilizam de uma estatística complexa para compor um plano executivo, calculando as diferentes possibilidades e as chances de ocorrências extremas. Então, alguém toma uma decisão e aponta para o que se assume como ponto de equilíbrio ótimo e o que se fazer na visão da engenharia. Depois disso, a decisão final vai para a área financeira e um novo ponto de equilíbrio é decidido. E assim se foram vidas de seres humanos, ceifadas para o além e com elas a Arca de Noé cheia de bichos e desta vez plantas e muita lama.... Talvez algumas espécies endêmicas extintas, na contabilidade desse ser inteligente, do topo da pirâmide biologia, chamado de Ser Humano, um suposto espírito em forma de húmus. 

O mineiro Jose Carlos de Carvalho, figura importante da política de meio ambiente brasileira, lança o desafio, contextualizando: "A calha principal do Rio Doce está praticamente morta. Mas ele sobreviverá, será ressuscitado pelos seus afluentes, que continuam realizando o milagre da vida. Agora, mais do que nunca, restaurar e recuperar as cabeceiras de todos os rios que desaguam no Doce tornou-se um imperativo do Governo brasileiro. (...) Os mineiros e capixabas estão convocados para esta tarefa inadiável. (...) Só uma tragédia poderá suplantar o desastre do Rio Doce, a tragédia da omissão, da indiferença e do descaso em relação à restauração do Rio." 

A nossa região, aqui da bacia do Rio Piracicaba, sempre a "jogar água pra fora", de tamanha abundância, tem me colocado uma preocupação extrema. Se não dividíssemos sua água com ninguém, cidades inteiras sofreriam. Um grande contingente de paulistanos e cidades da Grande São Paulo dependem do nosso Rio Piracicaba. Já até temos diversas organizações, em volta da sigla PCJ (Piracicaba, Capivarí e Jundiaí) que reúnem mais de 80 municípios, todos dependentes desses rios. Vários milhões de habitantes estão a mercê de uma política de uso da água. E muita gente a pensar em soluções para melhorar as condições de uso e manutenção dessa fonte de água e riquezas. 

Mas não posso deixar de considerar, de maneira muito objetiva, que existem algumas poucas pessoas que sabem muito mais do que eu e a grande maioria da população. Conhecem os limites e seus contornos, sabem de riscos e possíveis atentados à qualidade, segurança e condições de estabilidade da nossa água, essa preciosa. Sabem quem usurpa e quem protege, sabem das coisas. 

Certamente as decisões de hoje poderão evitar uma catástrofe de grande monta no futuro. As bacias hidrográficas contam com uma rede de gente que busca pensar no futuro e no uso vantajoso dos rios de cada região do Brasil. Está na lei, na nossa constituição, que essa organização seja feita de maneira ordenada. Assim, mais do que nunca, as organizações públicas e as privadas, algumas da sociedade civil organizada e também as empresas, deveriam exigir um grande esforço de transparência dos gestores da água, bem público e inalienável, e considerar uma análise de longo prazo, sobre as perspectivas que recaem sobre nossos rios e bacias hidrográficas. 

Estamos diante de uma grande oportunidade de construir o FUTURO QUE QUEREMOS. E certamente neste futuro que queremos, não se encontram catástrofes planejadas e calculadas. Devemos convocar as organizações ligadas ao Comitê de Bacias da nossa região, e as instituições que se dedicam a observar este assunto, a relatar para a nossa sociedade como poderá ser nosso destino e o que sabemos hoje sobre nosso futuro. Pois certamente existem aqueles que já sabem muito e por alguma razão, justificada ou não, não se dispõe a compartilhar.

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Lanço assim uma dúvida! Será que em nossa região há uma segurança e observância sobre os planos que são feitos para nosso futuro? Será ele de águas claras e piscosas ou de lama e tristezas? Quem há de dar explicações, esclarecimentos e visão de futuro para que as surpresas sejam mais positivas e as desgraças minimizadas? O que vem sendo feito em nível regional? O que pode ser feito em nível local, pensando no curto, médio e longo prazos? Quais são as lacunas para o futuro? Qual o nível de risco para as diferentes situações indesejadas?

Planos e planejamentos devem sempre ser a principal atividade de uma sociedade que pensa e que constrói seu futuro, reduzindo as surpresas. Principalmente as indesejadas.

Warwick Manfrinato (Wick F87) Eng Agrônomo, Nativo, membro do Coral da ESALQ, Mestre pelo CENA e empresário.

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