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Potencial Agrícola e Agronegócio

25/01/2017 - Por antonio bliska júnior
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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O agronegócio tem sido o salvador da pátria e da economia. Não fosse ele, a situação do país seria mais grave. No entanto, apesar desse sucesso, pode-se dizer que o país não conhece seu real potencial agrícola. Caso conhecesse, estaria planejando investimentos para aumentar a produtividade, gerar renda, empregos e aumentar a qualidade de vida da sociedade brasileira a curto prazo.

Um caso típico: o café. As projeções (MAPA) indicam aumento de produtividade e de produção passando de 25 sc/ha para 33 sac/ha e de 45,4 milhões de sacas para 62,4 milhões de sacas, de 2016 a 2026. Eles indicam crescimento de produtividade de 28% em dez anos. Apesar de positivos, não são nos alentadores. A passos de jabuti, se passarão dez anos para que se confirmem. Temos tecnologia para dobrarmos a produção em três anos com adoção de medidas que propiciem acesso à informação, linhas de crédito, serviço de extensão universalizado e capacitação em gestão para os empresários. Se somarmos a essa questão o fato de que hoje o país entrega cafés de qualidade como commodities para alemães, italianos e em breve também chineses, a conta do que deixamos de ganhar só piora.

Na horticultura, é possível detalhar esse cenário. Ela é um campo da agronomia que engloba a olericultura (hortaliças), a fruticultura e a floricultura. Comecemos pela fruticultura. Essa cadeia possui várias associações, mas pouca coesão para trabalhar de forma organizada e exportar algo próximo de nossos irmãos chilenos. O potencial climático brasileiro é como um mundo em miniatura: podemos produzir frutas de clima temperado e tropical para consumo e exportação. Mas não se vê uma proposta real sair do papel para tornar isso realidade. Em recente viagem à China foi possível verificar "in loco" em uma cidade no interior do país, próximo ao Nepal, uvas e maças americanas sendo comercializadas em frutarias e mercearias. Assim como tomates e pimentões vindos da Holanda para Xangai e Pequim.

 Falemos então da olericultura, orfã de um ator que dê um norte aos empresários rurais desde a falência da Cooperativa de Cotia. Na outra ponta da cadeia vivem os supermercados que usam seu poder de negociação contra empresários rurais e consumidores. Aqui, abrimos um parêntese para falar do melão. Primeiro por ser produzido como olerícola e comercializado como fruta. Vale lembrar que ele é parente do pepino. Segundo porque boa parte de sua produção é exportada para a Europa, confirmando que oportunidades e competência, existem. Fica então a dúvida: se o melão chega até lá, porque não levamos também tomates, etc. para os europeus nas suas janelas de importação?

Finalmente, a floricultura. O setor cresceu ao menos 8% a.a. nos últimos 30 anos. Com crises ou não a Cooperativa Veiling de Holambra é o exemplo vivo, ficando atrás apenas de similares europeus. É a 4a cooperativa de flores em movimentação financeira no mundo. E mesmo assim não desperta a atenção para servir de exemplo organizacional a ser imitado e seguido pelas outras cadeias.

Expostos esses exemplos vem a pergunta: Porque inexistem políticas públicas arrojadas para desenvolver o agro? O prof. Paulo Cidade, da USP, que trabalhou até os 84 anos, pouco antes de falecer no final de 2016 disse: "Cada R$ 1 investido com recursos públicos em pesquisa, educação superior e extensão rural na agropecuária  um retorno de R$10 a R$12 para a economia paulista." Obviamente números parecidos serão encontrados se forem feitas pesquisas nesse sentido no resto do país. Além da falta de investimento,  limitações com a cadeia do frio e com o seguro para uso de tecnologias como estufas para citarmos apenas dois gargalos.

Países de menor potencial, como Israel e Chile traçam metas e as perseguem. Agricultores israelenses não sabiam fazer a enxertia de um pé de abacate. Após identificar a oportunidade de exportar e alguns anos de trabalho, tornaram-se os principais fornecedores da variedade "fuerte", própria para salada. Já no Chile, apesar das limitações de solo e clima, o país tem como meta ser um dos 10 maiores fornecedores de alimentos para o mundo. Resta então perguntar, quais são as metas do agronegócio no Brasil, saindo do arroz com feijão, ou melhor, da soja com milho?

 

Antonio Bliska Jr (Bliska F83)

Editor da Revista Plasticultura

Pesquisador da Feagri- Unicamp

Texto publicado no Jornal Correio Popular em 23/01/2017, Campinas, SP.

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