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Pandemia de Outono (Pikira; F87)

27/04/2020 - Por cesar figueiredo de mello barros
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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O inicio do outono meridional, dia de São José - santo venerável para muitos, eu incluso, traído manso, pros hereges iconoclastas - equinócio e data marcante em tudo quanto é calendário criado pelos humanos para fatiar o tempo e tentar entender os desígnios insondáveis do Universo, último dia pra começar a chover no sertão pelado e esturricado do Nordeste, enchente das goiabas (nesta época, por supuesto, caiam de maduras e eram levadas pelas águas de março que iam suqueixando o verão) pros antigos das nossas paróquias, pouca ou nenhuma relevância tinha pros urbanos humanos acostumados ao ar condicionado e a iluminação de LED.


Disse tinha, porque a nova peste nos reconduziu ao pó (e a lama) de onde nunca, na verdade, logramos sair; muito menos letal que as medievais negras ou bubônicas, tão virulenta quanto a espanhola de um século atrás (apesar de vir a cavalo, de trem ou navio, chegou a infectar quase um terço do povo de então) tem no entanto a mesma implacável natureza: democrática, atinge asiáticos e ocidentais, descolados cosmopolitas e empedernidos caipiras, mitômanos, coxinhas e renitentes mortadelas, alcança sem pudores ou preconceitos quaisquer dos 17 gêneros atualmente oficializados, parece mais mortal pros heróicos e vitoriosos do glorioso alvinegro praiano, mas não distingue tampouco os decadentes bambis dos inadimplentes e delinquentes gambás ou dos porcos órfãos de mundial, o todo-poderoso e presunçoso presidente do Senado da miserável nóia grávida debaixo do viaduto...



Gregários pela natureza primata, nos aliançamos, subjugamos e conchavamos pela segurança, celebração e conservação da espécie -  mas essa proximidade agora nos transmite inóculos, temos que recuar três passos e dois séculos, trancar as portas e polir as maçanetas, voltar a viver nos campos e roças (que aliás não podem parar, há que haver pão, agora que o circo fechou e as colossais e perdulárias arenas são inúteis), reconciliar Caim e Abel, esquecer das grandes navegações,das conquistas espaciais e recriar os lares, os quintais. Deixar depurar os rios, clarear os céus, desopilar os mares. Viver o dia e o sol, a noite e a lua.



Não acho tão ruim, sempre tive alma de eremita, mas sou muito preguiçoso para manter uma cabana no mato ou caverna habitável. Tampouco gosto de sol, sal ou areia (mas adoro água, vento e boteco) então praia deserta, definitivamente não é a minha. E as populares, aliás, estão fechadas, quando é que vocês imaginariam isto?.



Forçados à introspecção e ao reexame das ações (próprias, já que as ordinárias e preferenciais nominativas derreteram em meia dúzia de pregões - pra que mesmo é que serve esse grande cassino chamado bolsa de valores?) ,inverteram-se os pólos,estamos redescobrindo que existe vida sem xopingues, féstifudi e fórseils consumistas (e perdoem a recaída de Policarpo, na quaresma), SUV´s gigantescas atravancam as garagens, não tem muita graça se embebedar sozinho na varanda gourmet, mais alguns dias e enojaremos de Netflix, Sexyhot e Bubleegames, acho que voltaremos a jogar cartas, reler livros de papel e seguir novelas. O país inteiro vai falir, mas o álcool gel, o papel higiênico (pretendem obrar mais, compatriotas?) e as máscaras que agora são dos mocinhos (os bandidos se apresentam de cara limpa) já tem ágio.



Os oportunistas de sempre conspiram pelas redes sociais, sovando os utensílios domésticos, para coroar novo rei, ou conquistar novos condados para esse mesmo, sonhando quiçá em recuperar velhas sinecuras ou distribuir novas.



Em poucos pares de dias, o inadiável virou irrelevante, o tempo é ócio, acabou-se quase toda urgência, o planeta virou plano, só que vivemos de ponta cabeça, na parte de baixo. Somos de novo medievais, com medo do fim do mundo e que o céu caia nas nossas cabeças, oramos e tomamos poções mágicas.



Mas, há sempre um porém, haverá mundo após-apocalipse, depois do tal "louquidão". Postergaremos planos, passagens e, se der, os boletos e duplicatas, voltaremos com toda força, inovação, estupidez e falta de escrúpulo que caracteriza nossa nova espécie -homo chipens, não somos mais ninguém sem sinal de internet - e faremos orgias de Santo Antônio, esbórnias no São João, micaretas no São Pedro. Penso até, agora mais sereno, que pandemia mesmo, vivíamos antes, de ansiedade, o famoso excesso de futuro, depressão, o famigerado excesso de passado, e stress, o excesso de presente. Sairemos, com poucas baixas, anticorpos renovados, talvez melhores lá na frente, quiçá mais solidários e com sol na eira e chuva no nabal. Amém, por Tutatis.


César Figueiredo de Mello Barros (Pikira F87) Engenheiro Agrônomo, Ex Morador da Republica Avarandado


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