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O VELHO (Pinduca F68)

15/05/2016 - Por marcio joão scaléa
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O VELHO

O plantio do algodão em Goiás estava no auge, início da crise de 1972. Produtividades decrescentes, custos ascendentes, problemas nutricionais, problemas de controle de pragas, problemas de mercado. Era mais um ciclo que se fechava.

 

A sabedoria popular produzia verdadeiras jóias, como a que identificava uma caminhonete muito vendida na época : ao ser comprada, 2 anos antes, era a famosa C-10 e  no ano seguinte era a C-deve. Naquele ano era a C-devolve, por falta de pagamento.  Ou a jóia que ligava o fracasso da lavoura algodoeira aos 3 "P" : tanta gente resolvera plantar algodão, que até os 3 "P" estavam tocando lavoura : um P de padre, outro P de polícia e o terceiro P de pu..!

 

O Agrônomo sentia na carne a crueza da crise do algodão : comandara durante meses uma equipe de pilotos, mecânicos, agrônomos e técnicos agrícolas que haviam conseguido a façanha de aplicar inseticidas em mais de sessenta mil alqueirões de algodão (300.000 hectares), trabalho pesado. A rotina começava antes das 5 da manhã e terminava perto da meia noite, fechando a programação para o dia seguinte, especificando desde a ordem das lavouras a tratar e os respectivos técnicos responsáveis, até os aviões e seus pilotos. Eram 11 aeronaves, desde um Pawnee 150, arrendado pelo Ministério da Agricultura, até um reluzente Thrush Commander, a coqueluche da base, com seus 600 HP no motor radial e seus 1200 litros de capacidade de carga.

 

O faturamento havia sido bom, mas o recebimento estava comprometido, pois muitos cotonicultores estavam quebrados ou em adiantado processo de quebra. A companhia que empregava o Agrônomo tinha exatos um milhão, cento e vinte quatro mil cruzeiros para receber, e o Agrônomo não tinha 1 cruzeiro no bolso para comprar um maço de cigarros Luiz XV. Num momento de desespero, remexendo em sua mesa, achou dois papéis. Num deles estava anotado :"Devo 2 tambores (400 litros) de gasolina de aviação. Assinado : Paulo Lopes."  O outro era um recado para ir a Rio Verde, receber a dívida de um grande produtor e pecuarista, Carrinho Cunha. 

 

Paulo Lopes, como muita gente deve saber, era o "Rei do Algodão" em Santa Helena de Goiás.  Homem muito simples, mas arrojado empreendedor, excelente administrador e grande negociante, fizera fortuna. Era correto, nunca deixando de honrar seus compromissos. Havia comprado um avião, que fora entregue desabastecido, motivo do vale da gasolina emprestada. Lembrado da dívida, na mesma hora puxou do bolso um maço de notas e pagou, não sem antes brincar com o Agrônomo, como sempre fazia ao encontrar com ele : agarrava-o pelo cavanhaque e saia puxando-o pelas salas de sua algodoeira, quase arrancando os esparsos pelos, a muito custo preservados.

 

Com o dinheiro recebido o Agrônomo abasteceu o fusquinha e decidiu ir a Rio Verde, a receber a conta devida. Estrada de chão, mangas de chuva, terra roxa, o barro tornava qualquer viagenzinha uma aventura. Ao sair da cidade, ainda achou de dar uma carona a um senhor de muita idade, barba e cabelo branquinhos a emoldurar um rosto enrugado e queimado de sol. Início de viagem, preocupação com os atoleiros, o Agrônomo concentrava-se na direção, mal dando atenção ao velhinho, que excitado pela carona, falava muito, sobre tudo e sobre todos : os políticos, o tempo, as lavouras, a crise, etc.Lá pelas tantas, o Agrônomo, para demonstrar um pouco de interesse, perguntou :

 

- O senhor parece muito bem disposto, qual a sua idade?

 

Ao que o velho todo orgulhoso respondeu :

 

- Já faz tempo que passei dos oitenta. Estou com oitenta e seis anos de idade!

 

Era tão evidente o orgulho com que ele falou da idade, que na mesma hora cruzou uma centelha na cabeça do Agrônomo : que mérito tem uma pessoa por ter idade avançada?  Então quem morre novo tem que se envergonhar? Quanta ingenuidade, quanta empáfia, pois bastaria ao Agrônomo errar o trilheiro no barro daquela descida, para entrar atravessado na pontezinha do Rio Lajeado, e iriam todos, fusca, velho e Agrônomo rio abaixo, na enchente. De que adiantaria a um ter mais de 80 anos e ao outro ser "doutor"?

 

O ser humano assume posições e posturas, se orgulha ou se envergonha, incha seu ego ou derruba sua auto estima, se vangloria ou se mortifica por coisas e fatos que não são, de maneira alguma, mérito ou demérito seu. Tudo é proveniente de um poder maior.


Marcio João Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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