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O Que Esperar da Floresta (Ranho F90)

23/12/2015 - Por rudolf woch
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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O que esperar da floresta
Apesar das dificuldades conjunturais da atualidade brasileira, o setor florestal tem perspectivas de crescimento
sustentável para os próximos anos. No ambiente interno, a forte valorização do dólar traz consigo aumento
da inflação das matérias-primas, do frete e da energia elétrica, o que gera impactos diretos nos custos de
produção florestal. Somam-se a isso a desaceleração da economia e a retração do consumo. Nesse
contexto, uma redução da construção civil leva à diminuição da demanda por madeira processada e aço, 
gerando impactos diretos na cadeia produtiva de florestas plantadas.
 
No ambiente externo, porém, segmentos de exportação, como celulose e papel, se beneficiam da valorização 
cambial. Outro aspecto que tem impactado a produção nacional é a crise energética, responsável por uma 
elevação dos custos de produção dos produtos finais da cadeia produtiva. Por outro lado, a crise oferece 
oportunidades para a produção de bioeletricidade como alternativas para o uso de carvão mineral e de 
combustíveis fosseis, com o surgimento de usinas termoelétricas com o uso de biomassa. Segundo a Agência 
Internacional de Energia Renovável – Irena, a demanda energética deve dobrar no mundo até 2050. 
 
Na Europa, o desafio está na meta de se obter 20% da energia através de fontes renováveis até 2020. 
Desse modo, a produção florestal como biomassa, seja para abastecimento do mercado interno em termoelétricas,
 seja na forma de materiais para exportação, como pellets, é uma oportunidade crescente para o setor no País. 
O Brasil apresenta vantagens competitivas, como disponibilidade de terras produtivas, condições climáticas favoráveis
 e possibilidade de formação de florestas de ciclo curto.

Outro aspecto positivo é a capacidade de inovação do setor, desde o uso da madeira de eucalipto para produção
 de celulose de fibra curta, na década de 1960, até o desenvolvimento de biotecnologia com materiais adaptados
 às diferentes condições e usos da madeira. A expansão florestal no Brasil está ocupando locais onde há 
degradação ambiental, ou em terras onde a produção agrícola tem se tornado inviável. Como exemplo, 
na Zona da Mata de Pernambuco, uma região onde se produz cana-de-açúcar há 500 anos, áreas declivosas 
têm dado espaço para a produção de eucalipto. 
 
Existe um projeto da Usina Petribu de plantar cerca de 18.000 ha de florestas de eucalipto até 2021, para 
a produção de energia elétrica. No segmento da siderurgia e carvão vegetal, o futuro é incerto: além da 
redução do consumo interno do aço, em decorrência da crise econômica, os preços internacionais estão 
baixos, e a valorização cambial não é suficiente para repor os prejuízos. No 56° Congresso Latino-americano 
do Aço, Martín Berardi, presidente da Alacero – Associação Latino-americana de Aço, afirmou que, no mundo, 
existem 770 milhões de toneladas de excesso de capacidade de produção; dessas, 65% estão na China. 
 
Segundo o artigo 12° da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), o País deve adotar como compromisso 
nacional voluntário ações de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, com vistas a reduzir entre 36,1
 e 38,9% suas emissões projetadas até 2020. Entre outras medidas para atingir os objetivos, o artigo prevê ações
 para ampliar o sistema de integração com a pecuária em 4 milhões de hectares, expansão do plantio de florestas
 em 3 milhões de hectares e incremento da utilização, na siderurgia, do carvão vegetal originário de florestas 
plantadas, com melhoria na eficiência do processo de carbonização.
 
De modo geral, existem várias oportunidades de crescimento e desenvolvimento do setor florestal no Brasil. 
ara alcançar a potencialidade do crescimento, é necessária uma revisão de conceitos e reavaliação de 
modelos técnicos e de gestão silvicultural. Novos modelos de silvicultura precisam ser desenvolvidos e/ou aperfeiçoados. 
Como exemplo, alguns trabalhos da Unesp em Botucatu estão encurtando o tempo de colheita florestal para 18 a 24 meses
, com o adensamento populacional para produção de biomassa.
 
O desenvolvimento de novos materiais genéticos também terá papel fundamental nos novos modelos silviculturais.
 Tolerância a ambientes adversos e resistência a herbicidas permitirão a expansão de áreas para uso com florestas
 plantadas e redução de atividades de manutenção florestal. No controle de plantas daninhas, pragas e doenças,
 novos produtos estão em processo de registro, e, nos próximos anos, teremos mais opções de ativos e marcas 
participando do setor. A fertilização dos plantios está passando por um processo de concentração de volumes 
de adubo em uma quantidade menor de operações.

As aplicações dos novos produtos para silvicultura terão de melhorar substancialmente. Apesar da experiência do 
setor, muitas operações de distribuição de insumos precisam de um olhar mais atento e de evolução tecnológica.
 Bons tratamentos são considerados insatisfatórios e descartados, não pela tecnologia que trazem em si, mas por
 problemas operacionais. Nessa área, as ferramentas de silvicultura de precisão e controles de qualidade 
serão fundamentais para o sucesso dos empreendimentos silviculturais de todos os portes, em maior ou menor 
escala, dependendo dos objetivos de cada projeto.

Tudo o que pode ser medido pode ser controlado. Diante disso, o uso de sensoriamento permitirá maior controle
 operacional em tempo real, com o uso de equipamentos montados em pulverizadores e adubadoras, ou para 
geração de relatórios gerenciais que permitirão ajustes nos processos com maior acurácia. Num ambiente de sensores 
e controladores eletrônicos, é necessário um modelo de controle de qualidade das atividades, focado no processo e 
não nos resultados.

É preciso assegurar que os resultados sejam constantes e entender que o básico das atividades, como 
entupimento de filtros, desgaste de pontas de pulverização ou de engrenagens de sistemas de adubação, a adequação
 ou atribuição de constantes para os sensores de fluxo, precisa ser monitorado e corrigido por um sistema adequado 
de controle de qualidade. Este deve levar em conta todos os fatores que interferem nos processos e oferecer um método claro e objetivo
 para análise e definição de limites de conformidade.
 
A evolução da automação e o uso da tecnologia de precisão somente ocorrerão com uma intensificação
 da mecanização das atividades florestais. Muita tecnologia já está disponível no mercado, embora a 
adoção ainda seja lenta na maior parte do setor, por questões culturais ou pelo apego a paradigmas que 
vêm se mostrando ultrapassados. Os maiores desafios para o crescimento do setor estarão associados a:
 
  • Sobre a capacitação de pessoas para a nova realidade de tecnologia no campo, os operadores e seus encarregados precisarão passar por processos de qualificação específica, e muitos deles não conseguirão acompanhar as mudanças. Para os níveis de supervisão e coordenação, será necessário conhecimentos em gestão da tecnologia, como interpretação de mapas de produção ou de prescrição e tomada de decisão baseadas em volumes de dados maiores e mais consistentes. Nesse novo cenário, gerentes e diretores devem promover a descentralização da tomada de decisão, transmitindo-a às equipes e aos indivíduos mais próximos dos problemas, de forma que as soluções sejam aplicadas com maior rapidez e eficácia. 
  • Sobre a inovação tecnológica, que é característica desse setor, a evolução precisará permear toda a cadeia que suporta o setor, além dos produtores florestais. Modelos para promover a mecanização, novos avanços em biotecnologia, sensoriamento e tratamento de dados, informações e comunicação, entre outros, precisam criar ferramentas para o alcance das potencialidades do setor. Aspectos como mudanças climáticas, pressão pelo uso racional e sustentável de recursos naturais e expansão para novas regiões deverão nortear os avanços. 
  • Sobre a evolução das políticas públicas, apesar das metas estabelecidas no PNMC, com a crise atual, boa parte dos financiamentos para a produção florestal está parada. Sem a chegada de recursos aos projetos de pequeno e médio porte, os avanços serão lentos, e as metas estabelecidas no programa serão difíceis de alcançar. Outros esforços dos governos seriam essenciais, como avaliação de alternativas para uso das florestas e proteção comercial na área de siderurgia.
O momento atual é de inseguranças e desafios, e o sentimento de pessimismo permeia diversos setores da economia nacional. Contudo o setor florestal tem potencial, pessoas e caminhos para superar essa fase e crescer de maneira contínua e sustentável.

Texto originalmente publicado na Revista Opiniões - Para ler o texto original clique aqui

Rudolf Woch (Ranho F90) Engenheiro Agrônomo, Sócio Fundador da APOIOTEC, Jogador de Rugby, Ex Mourante da Republica Gato Preto
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