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O Paraninfo (Pikira; F87)

12/01/2024 - Por cesar figueiredo de mello barros
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Num dia foi Zagallo, no outro Beckenbauer. Mais um dia e se foi o nosso Zilmar Ziller Marcos, o ZZM, como o chamávamos na república Avarandado. Zagallo, único tetracampeão do mundo, incansável ponta-esquerda recuado, chamado de Formiguinha, precursor do jogador moderno, que defende e ataca, foi técnico inovador que teve a ousadia de escalar 5 craques camisa 10 no mesmo time, e de quebra um volante na zaga  pra melhorar a saída de bola.

O Kaiser Beckenbauer, figurinha marcante  e cobiçada do álbum Copa 74 (único que completei e conservo até hoje, faltando a capa e meio time do Brasil e do Zaire, é vero) comandou a Alemanha Ocidental em 3 copas, foi campeão como capitão e como técnico da Alemanha reunificada e revolucionou a posição de líbero, era um dublê de zagueiro e armador, craque, que pensava o ataque desde a defesa. Em comum entre os dois e Zilmar, o amor incondicional à camisa, a inteligência e maestria, dedicação e inovação em suas áreas de atuação.

Erudito e espirituoso, elegante e educado, entusiasmado e eloquente, educador com alma de extensionista, era um oásis de atenção aos alunos, aprendizagem e pedagogia na aridez didática da Esalq do nosso tempo. No Depto. de Solos então, onde os melhores falavam em japonês ou francês com sotaque caribenho, cursavamos 5 disciplinas essenciais sem aprender quase nada, pra depois entender alguma coisa na Gênese optativa do Demattê (eu não fiz e tive que estudar depois de formado).

Sagaz e engraçado, figuraça, carismático, conhecia a maioria dos alunos pelo nome, falava dos seus tempos na fazenda da Anderson Clayton em Prudente, história da agricultura, do Liebig, da deusa Ceres e do Jethro Tull (o original, não o do rock) e estórias de agricultores e outros professores, do Texas e sobretudo da  Esalq, era a memória viva da Gloriosa e dos que nela viveram. Ninguém amou, venerou e glorificou nossa Escola como ele. Merecia ser enterrado debaixo do flamboyant.

Em 84 ministrava uma matéria optativa aos alunos do último semestre, chamada Relações Solo-Planta, conhecida como 10 x 10 do Zilmar, que consistia num terreno dessas dimensões, um are, logo ali atrás da Agricultura e acima da "rodovia" recém inaugurada apelidada de Sanchódromo. Quatro créditos fáceis, pois ele concedia 5,0 na média e 70% de presença a quem nunca desse as caras no latifúndio, e o aluno tinha liberdade de plantar qualquer coisa, da forma e critério que bem entendesse, e tentar demonstrar uma tese qualquer, por mais esdrúxula ou desimportante que fosse, ajudado por um bixo do primeiro ano, chamado de gandula. Essa história de gandula foi iniciativa do Zilmar com o saudoso e finado Bombril, quando entrou; eu era o único bixo da KTT e fui ser o gandula do simpático Dr. Kupim, paulistano empedernido e convicto, que, à época, mal distinguia nabo de cenoura e cavalo pampa de vaca holandesa (mas hoje defende bravamente a defesa sanitária da nossa agropecuária como AFFA em Viracopos). Animado, montou um inovador e revolucionário experimento de milho, variedade Piranão por supuesto, metade com e metade sem calcário, vejam vocês. Ajudei pouco nos tratos culturais, mas fui decisivo na véspera da apresentação final, ao decepar impiedosamente um único e altaneiro pé de milho que insistia em ser muito maior e viçoso que todos os outros na parte que não tinha nada. A apresentação final dos trabalhos, in loco, era um show de ironia e perspicácia do mestre, e de alguns alunos, sempre suave, sem nunca ser desagradável com ninguém. Lembro de um 10x10 interessante do Piau, que tentou provar a importância das fases da lua e orientação espacial na emergência das plântulas (não conseguiu, mas vos garanto que funciona) e do da Puff, nossa vizinha de cerca, que ia plantar gergelim com não sei o quê, mas não teve tempo durante o semestre, e na apresentação discursou até bonito sobre a emergência de plantas daninhas no latossolo tropical. Zilmar delirou.

Nascido no dia de finados, conterrâneo de Franca, só soube agora, teria adorado conversar sobre isso; era pedologo, mas sabia um pouco de tudo, especialista em generalidades, como todo bom agrônomo; confesso que pouco conheço das suas façanhas científicas, mas foi coordenador de pós-graduação, um dos primeiros professores da Esalq em universidade norte-americana, e criou e lecionou a Introdução à Agronomia, antigo sonho seu, quando mudaram o curso de 4 para 5 anos, que acoplado a um terreno de 5x5 pra cada aluno do primeiro semestre, se tornou um farol de agricultura e ruralidade para um corpo discente cada vez mais originário do meio urbano, pena que depois da minha época.

Nem vou me alongar sobre o Hino da Esalq, de sua autoria, a Ode à Esalq, suas atividades de poeta e filósofo, seus memoráveis discursos na Semana Luiz de Queiroz, muita gente pode contar isso mais e melhor que eu.

E, da minha turma F87, em especial, foi escolhido paraninfo, para imenso orgulho, nosso e dele. Pouco participei das tratativas e atividades de formatura, já chegava ébrio aos Butecalq, não ia mesmo concluir em 4 anos, mas minha mãe, (que o pai não deixou cursar agronomia na década de 50, teria sido ótima, ainda ama as plantas mesmo enclausurada pelo Alzheimer) filha,sobrinha, irmã, tia e prima de esalqueanos, queria ir e a próxima turma só se formaria em 89. Então paguei atrasado e resolvemos fazer campanha, eu e o Betão Kabra, pro Rolando Boldrin pra paraninfo (a turma de 84 chegou a escolher o poeta Carlos Drummond de Andrade, tio avô do Angu, mas adoentado, declinou). Péssimos cabos eleitorais, teve 2 votos, o meu e o dele, suponho. Mas Zilmar, francamente defendido pelo pessoal da Comissão de Formatura foi em primeiro, favorito, pro segundo turno, meio cabotino, 3 candidatos. Dra Victória Rossetti, do IAC e primeira agrônoma formada na Escola,  o Prof. Molina, da Sociologia, que era popular na ala mais à sinistra da turma, e Zilmar que foi o escolhido e lisonjeadissimo, se esbaldou. Desencavou a Mettadiea literata, uma aranha classificada pelo decano Toledo Piza em priscas eras, que aliás faleceu no dia seguinte à nossa colação, num devaneio alucinógeno-taxonômico sem cogumelos, salpicou-lhe um A encarnado e o azul da Gloriosa no dorso, fez camiseta às próprias expensas pra todos, ensaiou conosco os hinos, inaugurou e regeu a marcha triunfal do prédio principal até a cerimônia de colação no ginásio. Memorável e emocionado discurso, que misturou mitologia grega com biologia molecular, sobre as escolhas na vida, fez naquela noite de janeiro que prenunciava o tal aquecimento global. Companheiro Kaki e seus asseclas eternizaram (espero e confio) nossa aranha na Caixa d´Água defronte à escola. E certamente no imaginário coletivo da nossa turma e todos os esalqueanos. Esteve presente, uniformizado, em todos os nossos quinquênios (penso que ia todos os anos, na verdade) e em várias outras confraternizações, onde contava as mesmas velhas histórias, e algumas novas, até, com a picardia e simpatia de sempre. Acho que não pode, mas merecia que plantassemos um ipê-felpudo (perdemos o nosso) ao lado do seu jazigo eterno.

Era, sobretudo, um PROFESSOR, na sublime e verdadeira acepção da palavra, e um grande amigo, pra todos nós. Que a terra, perdão, o solo, lhe seja leve.


Pikira F87

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