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O legado de uma pandemia na saúde mental do Brasil

26/01/2021 - Por rodrigo pazzinatto de almeida leite
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Lendo as notícias e acompanhando as redes sociais, fica evidente que a profecia se cumpre: o impacto psicológico da pandemia é muito maior do que o impacto biológico do vírus. Essa afirmação eu não tirei de minhas convicções, mas estão baseadas em uma pesquisa que realizei para minha conclusão do curso de Psicologia.

A explicação para tal afirmação reside no fato de que o impacto psicológico é mais permanente e duradouro. Pelo avanço científico que verificamos na formulação de vacinas, um dia, o vírus em si não será grande problema: até o final do ano teremos dezenas de vacinas disponíveis e quem sabe, alternativas para tratamento. O que fica é a devastação que a população brasileira tem sofrido, não só pela pandemia, os lutos e a situação de confinamento, mas também pelo cenário político de polarização, instabilidade e negacionismo, endossados não apenas pelo presidente da república, mas também por parte de profissionais de saúde que deveriam estar zelando pela ciência e pela saúde da população, mas que parecem ter resolvido jogar o diploma no lixo. Fiquei boquiaberto com a declaração da enfermeira do Espírito Santo que debochou da CoronaVac: acabou sendo demitida. A convulsão social e a crise econômica provocada pela pandemia (e sua má gestão) são combustíveis para o adoecimento psíquico.

O mundo todo sente os impactos da pandemia, mas certamente nosso querido Brasil está colhendo frutos mais amargos. Sintomas de estresse, ansiedade e depressão têm aparecido com maior frequência corroborando a tese de que os impactos em saúde mental causados pela pandemia são extremamente preocupantes. Fatores de estresse que emergem nesse contexto são potencializados para aqueles com maior risco de infecção fazendo a população conviver com o medo, tédio e informações inadequadas.

A situação de confinamento tem gerado também uma crise no sistema familiar. Diversos “personagens” que apareceram na minha pesquisa podem ser encontrados em diversos lares do Brasil: a criança dentro de casa, a mãe sobrecarregada, os jovens confinados e o homem provedor com medo do desemprego são alguns deles, que além de tudo tem que enfrentar o desconforto que vem da hiperconvivência dentro do sistema familiar. Olhando pelas janelas afora é possível encontrar ainda dezenas de outros personagens. Expus esses apenas, uma limitação da minha pesquisa. Já abordei sobre as imperfeições da família e as questões de saúde mental em um livro de contos literários, Deslaços de Família. Isso foi antes da pandemia, se fosse escrito agora, com certeza haveriam novos contornos.

Num sistema econômico baseado na produtividade, a família surge como empecilho para a produção. Como responder a um sistema que demanda uma produtividade cada vez mais inalcançável? Não é a toa que o esgotamento psíquico está assolando os operários desse sistema, que como eu, como você, se veem sem muitas alternativas a não ser dançar essa música sinistra e torcer para que primaveras venham colorir esse inverno absurdo que estamos vivendo.

 

Rodrigo Pazzinatto de Almeida Leite (Dema – F05)

Engenheiro Florestal, Psicólogo clínico (CRP-04/60681) e ex-morador da República Xapadão

https://www.instagram.com/rodrigopazzinatto/

 

 

 

Algumas fontes:

 

BROOKS, S. K., WEBSTER, R. K., SMITH, L. E., WOODLAND, L., WESSELY, S., GREENBERG, N., & Rubin, G. J. (2020). The psychological impact of quarantine and how to reduce it: Rapid review of the evidence. The Lancet, 395(10227), 912-920. https://doi.org/10.1016/S01406736(20)30460-8

MORAES, R. Prevenindo Conflitos Sociais Violentos em Tempos de Pandemia: Garantia da Renda, Manutenção da Saúde Mental e Comunicação Efetiva. Brasília: Ipea. Março, 2020. (Nota Técnica Diest, n. 27).

MORGANSTEIN, J. C., FULLERTON, C. S., URSANO, R. J., DONATO, D., & HOLLOWAY, H. C. (2017). Pandemics: health care emergencies. In B. Raphael, C. S. Fullerton, L. Weisaeth, & R. J. Ursano Eds., Textbook of disaster psychiatry (2 ed., pp. 270–284). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781316481424.019 (BROOKS et al, 2020; McBRIDE et al, 2020).

ORNELL  F,  SCHUCH  JB,  SORDI  AO,  KESSLER  FHP.  Pandemia  de  medo  e  covid-19:  impacto  na  saúde  mental  e  possíveis  estratégias.  Revista  debates  in Psychiatry. 2020. In press. .Disponivel em: http://www.ufrgs.br/ufrgs/noticias/arquivos/pandemia-de-medo-e-covid-19-impacto-na-saude-mental-e-possiveis-estrategias. Acesso em: 04 de maio de 2020.

WANG, C., PAN, R., WAN, X., TAN, Y., XU, L., HO, C. S., & HO, R. C. (2020). Immediate psychological responses and associated factors during the initial stage of the 2019 coronavirus disease (COVID-19) epidemic among the general population in china. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(5), 1729. https://doi.org/10.3390/ijerph17051729

 

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