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O Agro e o Paraíso Restaurável (Alma; F97)

23/06/2021 - Por fernando de mesquita sampaio
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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O satélite MOD17 da Nasa usa sensores de espectrorradiômetro para captar a energia absorvida ou transmitida pela Terra. Em 2019, a partir dessas informações, cientistas produziram um cartograma da produção primária bruta composta cumulativa (Gross Primary Productivity) da biosfera terrestre. É uma idéia de como a energia do sol é usada pelos seres vivos do planeta. O cartograma distorce as proporções de cada país conforme seu GPP. Eis aí o Brasil imenso, coração pulsante da Mãe Terra, em franco contraste com projeções cartográficas historicamente eurocêntricas e que tendem a supervalorizar as proporções do hemisfério norte.


A imagem é o ponto de partida do livro "Brasil, Paraíso Restaurável", escrito por Jorge Caldeira em colaboração com as pesquisadoras Julia Marisa Sekula e Luana Schabib. A premissa do livro é simples, porém transformadora. Estamos no alvorecer de uma nova economia. Uma economia baseada na restauração de uma harmonia perdida entre homem e natureza, traduzida pela descarbonização da economia, sobretudo na geração de energia. O autor e as autoras, trazem dados e informações econômicas e exemplos dessa transformação, com um resgate de sabedoria ancestral dessa harmonia perdida.


Jorge Caldeira é doutor em Ciência Política, mestre em sociologia e bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Começou historiador e fez-se escritor. Foi autor de obras como "Mauá, empresário do Império", "O Banqueiro do Sertão" e "História da Riqueza no Brasil".


No seu "História do Brasil com Empreendedores", Caldeira desmistifica o estereótipo retratado por Caio Prado Jr. e Celso Furtado do Brasil de um Brasil colonial baseado nos latifúndios escravagistas exportadores que dominou por muito tempo o imaginário social brasileiro. Ao contrário, ele demonstra a partir de dados da época o tamanho da economia local, mesmo com escassez de moeda corrente. A exploração de oportunidades no sertão sempre foi um espaço ocupado por pioneiros, empreendedores e um formidável fator de mobilidade social.


Para mim há ainda um vazio fundamental a ser preenchido em Paraíso Restaurável. Embora toque no tema desmatamento, a nova obra de Caldeira foca excessivamente na questão energética, deixando de lado a questão histórica de uso da terra no Brasil, hoje mais relevante para a descarbonização de nossa economia do que a geração de energia. Resta a esperança de que esta lacuna seja objeto, quiçá, de um volume II da obra.


No último 03 de junho, Fernando Schüler, curador do Fronteiras do Pensamento, conduziu um debate formidável com o escritor, acessível no canal do YouTube e que deveria acender um grande alerta para o agronegócio. Considerando a relevância do tema para o setor, que precisa urgentemente tomar decisões estratégicas em relação ao seu futuro, e por que não, ao do país, o timing do debate não poderia ser mais adequado. Caldeira compara este momento ao que foi a abolição da escravidão no Brasil do fim do Império. Uma nova ordem econômica e social se impunha, enquanto uma parcela reacionária recusava-se a abandonar um modelo imoral e falido de produção.


Na série de artigos Arrabalde, escritos para a revista Piauí, João Moreira Salles revisita todo um histórico de ocupação da Amazônia, e pinta um retrato social e ambiental devastador desse norte brasileiro hoje, explicitado em indicadores sociais pífios. A Amazonia hoje é um dos piores lugares para se viver no Brasil.


O modelo de ocupação e "desenvolvimento" fomentado pelo governo brasileiro hoje é o mesmo de décadas atrás, e que se provou ineficaz. Hoje ele não só é ineficaz, como nos joga para escanteio na geopolítica global e nessa nova ordem econômica.


Fernando Gabeira escreve: "Bolsonaro é um adepto da retropia. Seu sonho é nos fazer voltar ao tempo da ditadura militar, com a derrubada das matas em nome da chegada da civilização. Algumas pessoas se conformam com essa marginalização do Brasil: afinal, o país é irrelevante, dizem. É um equívoco. A irrelevância é uma escolha."


A conclusão de Moreira Salles, Gabeira e Jorge Caldeira é a mesma. Para que insistir no atraso, quando estamos sentados em cima do futuro? Em cima da maior reserva de carbono e biodiversidade do planeta?

Para Caldeira, o Brasil não só se tornou irrelevante internacionalmente como nos perdemos aqui no debate estéril de esquerda e direita, uma situação que ele batiza de Cadillac de Havana. Estamos entre a esquerda que sonha com la vieja Havana e com uma direita que quer ser um Cadillac mas que acaba sendo ela também símbolo do atraso.


Ignacy Sachs já previa há décadas que o Brasil poderia ser uma potência baseada em biomassa, biodiversidade e biotecnologia. O Brasil desenvolveu a agricultura tropical de baixo carbono, e teve a coragem de adotar o Codigo Florestal fazendo de seus produtores grandes conservacionistas. Tornou-se importante player no mercado global. O setor do Agronegócio, como maior parte interessada, deveria liderar o Brasil nessa nova economia mundial. Para isso deveria enfrentar o debate sobre o desmatamento, sobre a proteção de povos indígenas, sobre a transição da Amazonia e outros biomas, a eficiência no uso da terra e a pobreza rural.


Por miopia ou vergonha, nossas lideranças assistem um futuro possível ser sequestrado por uma agenda que não só é prejudicial aos seus interesses, como flerta abertamente com o crime em alguns casos. É tempo de reagir.


Concordo com Gabeira quando ele diz: "Um país dessa grandeza não pode se deixar sepultar pelo atraso, não tem o direito de se tornar apenas aquele que poderia ter sido."



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