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Mochilas Andinas (Drepo F70)

15/04/2016 - Por eduardo pires castanho filho
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Saindo de Buenos Aires embarcaram para Mendoza em uma viagem de 18 horas de trem. De marcante ficou a viagem pela Cordilheira e a travessia dos Andes por Puente de Incas. Impressionou a aridez da região. Em Mendoza fizeram amizade com um casal argentino de Buenos Aires, Guillermo e esposa, que anos mais tarde visitariam Florianópolis e São Paulo, a bordo de um Citroen 2 CV, que soltava uma fumaça negra impressionante. Passaram por Potrerillos onde dormiram numa varanda abandonada, por sugestão dos novos amigos, que lhes ensinaram rudimentos de espanhol e de cozinha ao ar livre. 

Viram a Terma de Cachueta e, de caminhão, passaram por Uspallatta e depois, em outro “camión” chegaram a Las Cuevas. Passando por Puente del Inca foram até a fronteira que foi cruzada de trem até Portillo para a posterior descida rumo a Santiago pelos recém construídos Caracoles. Estiveram nos pés do majestoso Aconcágua onde frio e falta de ar eram intensos. Essas cruzadas de fronteira eram interessantes porque por alguns momentos havia um ajuntamento de mochileiros de quase o mundo inteiro, esperando o instante do embarque. Trocavam- se experiências e depois tudo se dissolvia rapidamente. Já no Chile, seguiram em caminhões, primeiro até Lujan e depois para Los Andes, onde conseguiram carona num ônibus da JOC, com dois padres, até Santiago. Em Santiago ficaram hospedados no Hogar de Universitarios da Universidade de Chile, onde discutiram filosofia, política, América Latina, solidariedade, jogaram muito futebol e depois tomaram muito vinho branco com banana, um coquetel da casa. Foram almoçar com os padres do JOC onde tiveram outra série de conversas de alto nível. Era uma sensação diferente estar num País cuja democracia funcionava e pensar no Brasil já sob o AI-5. Estando no Chile procuraram se informar sobre a reforma agrária então em curso no País, tema proibido no Brasil. No entanto não obtiveram esclarecimentos que pudessem ser trazidos para cá. 

Visitaram e dormiram no estádio Sausalito, onde o Brasil jogara em 62, em Viña del Mar, a cidade mais bonita da viagem, com mais dois mochileros argentinos. Alcançado o objetivo da viagem e ainda com tempo e alguns dólares resolveram esticar até a Bolívia, apesar da documentação precária: Drepo tinha apenas um “permisso” de turismo emitido pelo consulado brasileiro em Santiago, e a “severidade” boliviana exigia passaporte e vistos. De Viña seguiram de trem até La Callera e de lá, num caminhão de tubos até a entrada de Ovalle. Dormida na carroceria de outro caminhão, com mais três “moch” chilenos. De lá seguiram para La Serena e depois Copiapo (o buraco) com outros dois chilenos e pernoitaram no quartel do Ejercito local.

Conseguiram carona num caminhão às 8 horas da noite, quando já achavam que a viagem estava irremediavelmente prejudicada e já pensavam em voltar para Santiago. Dormiram no caminhão e depois em Obispito, local que nem consta nos mapas, em pleno deserto, e chegaram a Antofagasta perto do meio dia. Corre- corre na cidade para pegar o trem que saia para a Bolívia, quando cruzariam o magnífico Atacama. Subiram as cordilheiras de litorina, passando por minas de cobre- Chuquicamata. Chegaram à divisa com a Bolívia- Ollaque às 11 horas e chegariam a La Paz no dia seguinte, passando pelo salar de Uyuni e por Oruro, onde quarenta depois vários corintianos ficariam presos, após incidentes numa partida da Libertadores. Dentro dessa litorina Drepo teve uma baita crise renal e quase foram descobertos pela imigração. Foram alimentados pela solidariedade dos passageiros, já que esqueceram- se de comprar mantimentos para a viagem.

Passaram maus momentos em La Paz, com falta de ar, muito frio, e a estadia no talvez pior hotel do mundo (Residencial Liberty) e, mais ainda, com o dinheiro acabando. Passando por um hotel de La Paz, o Copacabana, encontraram dois caras que falavam português e um deles havia estudado na ESALQ em 1964. Ele deu algumas dicas e os levou à Universidade, onde a burocracia para comer no restaurante era desesperadora. La Paz foi a cidade mais diferente visitada até então. Afora o clima inóspito, a população era muito particular. As “cholitas” com seus vários vestidos, colete, chapéu coco e a falta de dentes foram uma curiosidade à parte e geraram um desenho do Drepo.

Drepo2.png

Tentaram arrumar carona e acabaram indo parar na YMCA onde lhes deram 25 pesos como auxílio. (A aparência da dupla estava péssima depois de um mês de viagem).

Pegaram carona para Cochabamba num caminhão de garrafas de cervejas, de um comerciante turco. Saíram ao meio dia e após várias atoladas chegaram às cinco da matina, depois do maior frio que passaram na viagem. Após conhecer o mercado cocaleiro da cidade, rumaram para Santa Cruz de La Sierra, na companhia nada confortável do capitão que havia comandado a caçada ao Che, junto com seu pastor alemão. Chegaram de novo às 5 da manhã e se alojaram no Residencial Paulista. Já ansiavam muito pela volta. Havia mochileiros de toda a América em Sta. Cruz: três chilenas, um ianque (go home!), dois argentinos agronomandos, dois peruanos e três bolivianos esperando o trem de “la muerte”, que partiria para Corumbá dali dois dias. Ainda chegaram mais dois brasileiros de Porto Alegre (agronomandos), três uruguaios, um japonês e um canadense. Foi a confraternização nipo americana que se instalou onde ficaram alojados: na Escuela de Veterinaria, onde esperaram o trem no qual encontrariam ainda dois piracicabanos, um dos quais também faria a ESALQ, o Flávio Leão (Urubu). A viagem foi uma aventura a parte. Tudo que se possa imaginar ocorria no trem. A comida, como o “choclo” (um tipo e milho de grãos enormes e coloridos), era oferecida pela população da beira da linha, não havia vagão comedouro. Houve paradas que duraram horas sem justificativa aparente e o entra e sai de pessoas, cachorros, galinhas, sacos de milho era incessante e cansativo. Lugar para dormir nem pensar e a fadiga foi tomando conta dos valentes. Perto da divisa a policia de fronteira entrou no trem, pegou todos os passaportes e só queria devolve- los mediante o pagamento de uma propina. Absurdo! Alguns pagaram, mas quando chegaram na fronteira com o Brasil eles acabaram devolvendo os documentos.

Chegando a terras brasileiras comemoraram com muita Brahma e dormiram na estação velha de Corumbá. Seguiram com o mesmo trem até Campo Grande e depois Araçatuba, quase mais dois dias de viagem.

Hoje em dia essa viagem não é mais possível, o trem foi desativado.

Eduardo Pires Castanho Filho (Drepo F70) Engenheiro Agrônomo, Ex morador da Republica do Pau Doce 

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