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Mercado de trabalho: onde colocar tanta gente? (Vavá; F66)

07/01/2021 - Por evaristo marzabal neves
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Recente levantamento (base 05/04/2020) do número de cursos de graduação em Agronomia e Engenharia Agronômica, nas modalidades presenciais e EaD (Ensino a Distância) em atividade no Brasil e com registro no MEC (Ministério de Educação e Cultura), realizado pelo Engenheiro Agrônomo José Adilson de Oliveira (Consultor Técnico CEAGRO/Crea/ES) traz preocupação e "chama a atenção de todos para a relevância do assunto 'Perspectivas da Qualidade de Ensino do Engenheiro Agrônomo', em especial com o aumento do número de Cursos/Vagas na modalidade de Ensino a Distância".

Neste levantamento há o registro de 509 cursos em atividade (387 em Agronomia, sendo 370 presenciais e 17 em EaD, e, 122 em Engenharia Agronômica, sendo 118 presenciais e 4 EaD). Sintetizando, 488 cursos presenciais e 21 EaD em atividade.

O que também chama a atenção e causa enorme preocupação é o número de vagas autorizadas que totaliza 100.840, sendo 45.460 presenciais (34.521 em Agronomia e 10.939 em Engenharia Agronômica) e 55.380 em EaD (54.400 em Agronomia e 980 em Engenharia Agronômica). Como registro adicional, segundo José Adilson de Oliveira, e com base no site do MEC, encontra-se que "o número de vagas presenciais foram estimadas a partir dos dados levantados em 03 de janeiro de 2020, com uma margem de erro de menos de 1,5%".

Diante dessas estatísticas do elevado número de cursos em atividade e de número de vagas autorizadas, para o Engenheiro Agrônomo José Adilson de Oliveira (e para muito de nós) chama à atenção a relevância do assunto "Perspectivas da Qualidade de Ensino do Engenheiro Agrônomo".

De minha parte, uma preocupação e acredito de muitos colegas, é se haverá mercado para este grande contingente de egressos dos cursos de Agronomia e Engenharia Agronômica. Não há dúvida que deverá haver trancamento de matricula e desistência (evasão) no tempo, mesmo assim o número de egressos deverá ser significativo. Uma pergunta que não quer calar: num futuro próximo (pós-pandemia), será que haverá espaço no mercado para tantos oriundos dos cursos presenciais e de EaD em Agronomia e Engenharia Agronômica?

Sandro Magaldi e José Salibi Neto, na obra "Gestão do Amanhã" (03/2018), discutindo sobre o futuro do trabalho, onde o mundo quase que diariamente passa por mudanças em todas as áreas, registram que: mais de 1/3 das competências requeridas para a maioria das profissões que serão relevantes até 2025 não são consideradas fundamentais hoje; 80% das tarefas executadas por seres humanos hoje serão automatizadas até 2050; 85% das profissões que existirão até 2030 ainda não foram inventadas e, o que nos preocupa é que 50% do conteúdo adquirido no 1º ano de um curso regular em uma universidade torna-se obsoleto no 4º ano. Se estas previsões se efetivarem, surge uma questão: os docentes e pesquisadores dos cursos de Agronomia e Engenharia Agronômica estão em sintonia com a ciência, tecnologia, pesquisa, desenvolvimento, inovação e a realidade externa à Universidade em suas áreas de conhecimento e lembrando, ainda, que nossa formação é inter e multidisciplinar, com considerável transversalidade e conectividade, apoiada nas ciências biológicas, tecnológicas, exatas e sociais aplicadas? Formar o especialista generalista (visão sistêmica) em nossa profissão com boa fundamentação em Economia Verde é de suma importância no mundo contemporâneo. Estamos preparados para tal?

Nesta direção, e com base no Linkedin Notícias, pode ser transcrito o seguinte: "Acelerada pela crise da Covid-19, a automação deve eliminar pelo menos 85 milhões de empregos até 2025. A previsão é de um novo relatório do Fórum Econômico Mundial que estudou a demanda em grandes e médias empresas de setores industriais em 26 países, inclusive o Brasil. Por outro lado, o estudo prevê que 97 milhões de vagas serão criadas em áreas como cuidados de saúde, economia verde e computação em nuvem. Até 2025, a estimativa é que os empregos serão divididos igualmente entre humanos e máquinas".

Se essas previsões do Fórum Econômico Mundial se confirmarem, há mais uma abertura no mercado de trabalho com a ciência e aplicação do conhecimento na área de economia verde, principalmente. O que é economia verde?

O conceito de Economia Verde foi desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em 2008. Na literatura, segundo o Pnuma e corroborado pelo  Banco Mundial e Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), encontra-se:  "Na economia verde, o conjunto de processos produtivos e as transações que decorrem deles devem contribuir para o desenvolvimento, seja social quanto ambientalmente, falando. Busca-se a melhoria de qualidade de vida, diminuição das desigualdades, conservação da biodiversidade e preservação do meio ambiente". Continuando, pode-se definir como o "conjunto de processos produtivos (industriais, comerciais, agrícolas e serviços) que ao ser aplicado em um determinado local (país, cidade, empresa, comunidade, etc.) possa gerar nele um desenvolvimento sustentável nos aspectos ambiental e social". "O principal objetivo da Economia Verde é possibilitar o desenvolvimento econômico compatibilizando-o com igualdade social, erradicação da pobreza e melhoria do bem estar dos seres humanos, reduzindo os impactos ambientais negativos e a escassez ecológica". Entre seus benefícios "a aplicação da Economia Verde em países desenvolvidos e em desenvolvimento aumentaria a geração de empregos e o progresso econômico. Ao mesmo tempo, combateria as causas do aquecimento global (emissão de CO2, do consumo irracional de agua potável e dos fatores que geram a deterioração dos ecossistemas)".

Se pela previsão do Fórum Econômico Mundial a área de Economia Verde já é a "bola da vez", e em nossa profissão será com maior intensidade dentro em pouco no mercado de trabalho, como dar inicio, desenvolver e fortalecer esta área de conhecimento com nossos alunos ingressantes?

Em nossa disciplina Vida Universitária e Cidadania (responsabilidade compartilhada com o Prof. Roberto A. de Souza Lima, criador da mesma), obrigatória, oferecida no 1º semestre aos ingressantes em Engenharia Agronômica (no meu julgamento, inédita no país), temos tido uma enorme preocupação com respeito à administração do tempo e à saúde mental, diante de uma significativa e diversificada carga horária semanal. De saída, desenvolvemos o esquema "Administração RACIONAL do tempo" tendo como meta a otimização (redução ao máximo) dos custos da informação e comunicação. Neste sentido, a obrigatoriedade de agenda, aplicação semanal da matriz de Eisenhower/Matriz de Gerenciamento do Tempo (urgente, importante; importante, não urgente; urgente, não importante, e, não urgente, não importante, como entendimento e compreensão dos possíveis fatores estressores), pratica de uma ação social e aplicação do planejamento pessoal, prática SWOT (Oportunidades e Ameaças no macroambiente, e,  Pontos Fortes e Fracos no microambiente individual), esta com entrega no fim do semestre.

Na disciplina, a temática introdutória sobre Economia Verde será desenvolvida ao longo do semestre com a leitura, reflexão, motivação, curiosidade, estudo de caso, envolvimento, comprometimento e ciência da importância da mesma em sua vida acadêmica e na pós-colação de grau. Tem como meta provocar, conscientizar, alimentar a curiosidade e motivar o ingressante à pesquisa e conhecimento das características predominantes da economia verde como baixo carbono, eficiência nos recursos naturais e inclusão social, aliados ao consumo consciente, reciclagem, reutilização de bens, uso de energia limpa e valorização da biodiversidade, parte já coberta na disciplina pela participação do USP Recicla em duas aulas. Incluir ainda, conceitos de bioeconomia, economia circular, agricultura urbana e periurbana, e, IDH Verde. Convém registrar que esta temática é discutida em outras disciplinas, semestres à frente. Nossa intenção é oferecer e provocar no ingressante, de saída, a motivação, curiosidade e conscientização da importância do conceito, características e aplicações concretas da Economia Verde, instrumentos facilitadores ao entendimento futuro sobre esta temática.

No meu entendimento esta é uma missão importante da Universidade Publica , que é educar e formar pessoas capacitadas, bem treinadas social e ambientalmente e diferenciadas, ajustadas e cientes dos problemas socioambientais e necessidades do mundo real, que justifiquem os altos custos sociais para sua formação e, ainda, de fácil empregabilidade, contrariando o título deste artigo: Mercado de trabalho: Onde colocar tanta gente?

Finalizando, numa universidade pública temos a obrigação de formar bons profissionais capacitados e diferenciados que justifiquem a gratuidade de todas as oportunidades, facilidades e proteções oferecidas pela sociedade. É fazer valer: "Pessoas vencedoras são as que se diferenciam da multidão. Tem características próprias e são a prova de lugar comum, não sendo descartáveis" (F. Steimberg). É isso ai!

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