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Mauricio Candido de Souza Dias - CABEÇÃO, In Memorian, 1947 - 1970 (Barraca F70)

16/09/2015 - Por ossir gorenstein
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TURMA DA AGRONOMIA DE 1970 – ESALQ/USP

MAURICIO CANDIDO DE SOUZA DIAS - CABEÇÃO, In Memorian, 1947 – 1970

Uma saudosa recordação, por Ossir Gorenstein – Barraca

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Conheci-o durante o trote de integração e “ralação” dos bichos nas republicas, juntamente com Marcos Trapé, o Marcão. Encontramo-nos algumas vezes nessas ocasiões e devemos ter identificado algumas afinidades, pois, terminado o trote, convidaram-me para fazer parte de uma nova republica que estavam montando, a Republica do Pau-Doce.

Seu pai era Medico, mas tinha dois tios Agrônomos e dois primos que cursavam a Escola.** 

Eu sempre tive grande admiração e respeito pelo Mauricio. Achava-o possuidor de um integro caráter, elevada formação intelectual, espírito alegre e brincalhão, senso critico da sociedade e arguta inteligência, razão pela qual o chamávamos Cabeção. 

Creio que todos os que com ele conviveram, ou com ele se relacionaram, o estimavam.

Logo enveredou pela política estudantil, tanto no Centro Acadêmico, no qual participou de varias diretorias, quanto no movimento estudantil estadual e nacional, tendo sido preso no famoso congresso da União Nacional dos Estudantes de Ibiúna, em outubro de 1968.

Naquele mesmo ano, no dia do AI- 5, estavam ele, Zé Ricardo, Vitavena, Drepão, Marcão e Lina (que acabou voltando dali) se preparando para uma viagem inusitada: ir de Ubatuba à Parati de barco e a pé, já que da Rio – Santos existia apenas o projeto. O barco do padre saia de Ubatuba de manhã cedinho e aportava na Vila de Picinguaba. Mar agitado, muita gente enjoada e o Cabeção dormindo tranquilamente na proa, se recuperando dos excessos da noite anterior. Levaram dois dias de viagem, andando pelas trilhas caiçaras, dormiram no Patrimônio, fincado no alto de Serra e chegaram esbagaçados à Parati de carona com um caminhãozinho de transporte de mantimentos.*

Mesmo naquela época de agitação, o rótulo de “desligado” lhe caía direitinho. Ficava, muitas vezes, absorto em seus pensamentos, cofiando a barbicha incipiente e esquecia- se de cumprimentar os colegas e conhecidos lhe valendo, às vezes, injustamente a pecha de esnobe. Se pudéssemos adentrar em seus pensamentos, certamente, ele estaria a filosofar.*

Considero-o responsável pela conscientização e mudança de visão política de muitos colegas que com ele conviveram, ou participaram dos embates estudantis da época, nas lutas contra o regime militar.

Convivemos fraternalmente por todo o tempo, até que um surpreendente e trágico acidente ceifou-lhe a vida e prematuramente retirou-o do nosso convívio.

Na noite de 02 de junho de 1970, voltávamos de Rio Claro: eu na direção do veiculo, Mauricio, sua namorada Maura e uma colega da Faculdade de Serviço Social. Eram cerca de 20h30, um caminhão de cana apontou na ribanceira descendo a banguela em nossa direção, no meio da pista, com os faróis em luz alta.

Com a visão ofuscada, busquei sair para o acostamento para não sermos abalroados. Quando julguei que o caminhão já havia passado, voltei o veiculo para a pista e, desgraçadamente, colidi com sua roda traseira, deixando o veiculo desgovernado e provocando capotamento. Mauricio e Maura foram arremessados pelo vidro do pára-brisa dianteiro. Mauricio foi encontrado sobre uma caixa de drenagem com traumatismo craniano. As evidências posteriores mostraram que a roda traseira do veiculo bateu sobre sua cabeça.

A morte de Mauricio foi uma inestimável perda para todos que tiveram o grato privilegio de usufruir do seu convívio. Consternação e tristeza imensas.

Esporadicamente, quando estou nas proximidades, sempre que posso, faço-lhe uma visita no Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros, onde ele foi sepultado, no tumulo da família de sua mãe, Ribeiro da Silva, na Quadra 53, terreno 63.

Em sua memória, dei o nome de Mauricio ao meu primeiro filho.

Quinta-feira, 20.08.2015, estava em São Paulo, próximo ao Cemitério São Paulo, e fui fazer-lhe uma visita.

Fazia tempo que não nos encontrávamos e, entre nós, travou-se o seguinte dialogo:

“Cabeção, vim devolver-lhe alguns manuscritos e provas que ainda estavam comigo. Só sinto não poder restituir-lhe a vida... sinto muitíssimo por isso”.

“Barracalhão, não precisava preocupar-se, estou em sono profundo, e... o que aconteceu conosco, principalmente comigo, é próprio da condição humana. E, como estão os estudos... Barracalhão? Deixou de ser vagabundão?”

“Cabeção, não consigo ficar muito tempo na frente de um caderno. Como diria minha avó, em bom e velho iídiche: tenho agulhas na bunda. E você... já venceu o medo pra tomar banho?”

Rimos os dois, longamente.

Finalmente, despedimo-nos, e eu fui embora mais reconfortado.

Cabeção, na comemoração do 45º aniversário daquela que seria a sua turma, receba as Saudações Agronômicas de todos os seus saudosos colegas.

* Reminiscências evocadas pelo Drepão.

** Na Agronomia, Henrique de Souza Dias e na Economia Domestica, Anita de Souza Dias (posteriormente também concluiu Agronomia).

Piracicaba, 14.09.2015.

 

usher.g@gmail.com

Ossir Gorenstein (Barraca F70) Ex Morador da Republica do Pau Doce

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