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Mas você não é agrônomo?

11/05/2019 - Por joão henrique mantellatto rosa
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Ano que vem eu faço 10 anos de formado. Um número que assusta alguns "bixos", mas que arranca risos e piadas dos "doutores", afinal, diante de toda história, eu realmente sou um Engenheiro Agrônomo fresco (pra você que é de fora, a ESALQ é de 1901). Mas, independentemente de suas marcas de formatura, se é recém-formado, se está no seu primeiro quinquênio ou já atingiu os jubileus de prata (25 anos) ou ouro (50 anos), uma pergunta é certa na sua vida: mas você não é agrônomo? Evidente que ela surge diante de um contexto, tipo uma sabatina de fundo de quintal acompanhada da "vem dar uma olhadinha nesse meu pé de alguma coisa", ou então "que árvore/planta é aquela?", ao caminhar com quem seja. Pois bem, para ajudar esses "clientes desconfiados de final de semana" e mostrar que a coisa não é bem assim, decidi escrever este artigo.

Vamos começar com o trinômio da produção vegetal: planta - ambiente - manejo. O desenvolvimento do primeiro elemento, planta, se dá, como todo ser vivo, em função de suas características morfológicas, fisiológicas, fenológicas, nutricionais e todas as outras "lógicas ou ais" definidas pela genética. E, como aprendemos nas aulas de genética, a expressão de um indivíduo depende do contexto que está inserido, resultando no conceito do fenótipo. Neste aspecto, são incorporadas aspectos relacionados à clima, temperatura, condições fisio-químicas do solo e todo e qualquer fator de "meio" em que a planta se desenvolve. Claro, se existem condições para o desenvolvimento, o mesmo não se dá de forma exclusiva, afinal, estamos na natureza. É aqui que entra a questão da sobrevivência, existindo competição pelo "espaço" com outras plantas (as daninhas) e resistência à outros indivíduos da cadeia alimentar, como pragas e doenças, que por sua vez também precisam se alimentar. Pois bem, todas essas interações determinam o último elemento do trinômio, o manejo, que é a interferência técnica no sistema produtivo. Para cada uma das "áreas de interferência" existe um nicho à se explorar e, consequentemente, uma oportunidade ao agrônomo.

Achou muito? Agora eleve o trinômio da produção à potência do número de cultivos. Cana, soja, milho, café, algodão, arroz, feijão, mandioca, abobrinha, tomate, flores, pimentão, cenoura, batata, trigo, beterraba, alfafa, eucalipto... Enfim, adicione qualquer tipo de vegetal à lista anterior e tenha a ideia da dimensão de possibilidades. Ainda não esta convencido? Então substitua o termo "vegetal" por "animal" no trinômio. Um outro leque de possibilidades é aberto. Bovinocultura, suinocultura, avicultura, piscicultura, caprinocultura, apicultura e todo e qualquer animal que faça parte do cotidiano, seja ele para fins alimentares ou não.

Mas eu falei apenas de questões técnicas, sendo provável que tenha esquecido ou não saiba mesmo a maioria das áreas de atuação, tamanho seja a pluralidade da coisa. E os profissionais que trabalham com qualidade do produto final? Com o processamento de alimentos? O time voltado para questões econômicas, de mercado? Os que assessoram aspectos jurídicos? Aqueles que se dedicam à legislação? Ao desenvolvimento de novos produtos? A pesquisa? Ensino? Enfim, tem áreas de conhecimento para todos os gostos. Inclusive, minha recomendação para os indecisos no final do ensino médio quanto "o que fazer" é: vá cursar agronomia! O negócio é tão amplo, multidisciplinar, plural, que é provável que você encontre algo que goste de fazer.

Então é isso meus queridos "clientes desconfiados de final de semana". Uma casca do iceberg das atividades da engenharia agronômica. Evidente que não vou pedir pra vocês "da próxima vez que ver um Engenheiro Agrônomo, procure dizer obrigado!", pois acho isso um baita saco. Se for assim, temos que agradecer a maior parte dos indivíduos da sociedade, afinal, todos temos parcela de contribuição. Mas, da próxima vez que um agrônomo responder "não sei", é só mandar um "ah tah! essa não é sua área né! tem um monte de coisa na agronomia mesmo" em vez do clássico "mas você não é agrônomo". Aliás, uma reação acredito eu, que serve à diversas áreas, afinal, o advogado civil não manja do previdenciário, o otorrino não manja da urologia e por aí vai. Se fosse assim, não existiam especializações.

João Rosa (Botão, F10)

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