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LEXIT: Motivações e Consequências (K-lafrio, F14)

05/08/2019 - Por pedro tremacoldi rossi
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Nesse texto, direciono-me primariamente aos alunos de graduação e pós-graduação no LES, pois a consequência do LEXIT aos alunos dos demais departamentos da ESALQ é simples: vocês irão perder (ou não irão ganhar nada) com a criação da EEASLQ.

Espero poder contribuir com elementos adicionais à grande exposição de ideias que tem ocorrido nos espaços ADEALQ. Portanto, não comentarei aspectos já apresentados, com os quais concordo. Quando me refiro à proposta, estou usando como base a Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade no Campus USP em Piracicaba.

Benefícios líquidos?

Se eu aparecer em uma reunião com planejadores de política pública e propor um experimento de mobilidade social em Chicago, ou com um projeto de desenvolvimento de produto em frente à board de qualquer empresa grande, minha ideia só será levada a sério se eu oferecer estimativas firmes de benefícios líquidos – e não apenas custos. O benefício esperado de engajamento, descontando-se custos fiduciários e intangíveis, incluindo o de oportunidade, faz parte de qualquer análise econômica. Análise essa imprescíndivel à tomada de decisão de problemas de natureza econômica, como a cisão entre LES e ESALQ.

A proposta coloca enfoque exclusivamente na ideia de que o LEXIT não trará custos adicionais ao contribuente paulista. Argumenta que, do ponto de vista orçamentário, muito pouco mudaria. Surpreendemente, apenas oferece o não crescimento de despesas como razão para embasar a cisão. É completamente silente com relação ao mais importante objeto de qualquer projeto dessa natureza: benefícios líquidos. Francamente, foi uma decepção sentir que a proposta mais pareça um trabalho de graduação feito apressadamente, genérico e sem profundidade com relação a um tema com consequências tão importantes.

Demanda por educação

Uma universidade pública como a USP tem dois objetivos: maximizar uma combinação de qualidade de estudantes e receitas e uma função social, muitas vezes desconhecida e pouco debatida no Brasil. Irei deter-me apenas no ponto de qualidade e receita. A USP, assim como a Universidade de Illinois ou Yale, quer atrair os melhores alunos possíveis. Como a USP oferece o privilégio de não cobrar de seus alunos, minimiza seu custo de produção de educação, uma vez que seu orçamento é essencialmente fixo no curto-prazo e receitas não-extraordinárias são determinadas exogenamente pela arrecadação de tributos no estado, pressão política etc. Ao contrário de Yale ou Illinois, a USP e suas unidades não precisam enfrentar o problema de oferecer bolsas de estudo a alunos brilhantes de baixa renda e, ao mesmo tempo, balancear o orçamento ao cobrar de candidatos de maior renda. Simplesmente precisa maximizar a qualidade de seus alunos de graduação (discutirei pós-graduação mais adiante). 

Alunos de graduação querem estudar nas melhores escolas – especialmente se forem “de graça”. Com relação aos cursos de agrárias, a ESALQ situa-se em posição única no país: é provavelmente a única escola em uma área que possui prestígio muito maior que outras faculdades boas. Como bem sabemos, alunos de graduação em agronomia, para citar o examplo mais conhecido, vem de todo o país para estudar na escola de maior prestígio na área. Seu curso de economia (e, mais recentemente, administração) possui história diferente.

É importante reconhecer que os cursos de economia e relacionados na USP, sobretudoos do LES, possuem forte grau de localização: isto é, a demanda de alunos de graduação é altamente localà universidade. Um dos motivos é o alto grau de substituição entre um curso de economia na ESALQ, FEA e FEA-RP. A justificativa mais frequente que ouvia de alunos de graduação em economia e administração é que escolheram a ESALQ porque: (1) oferecia produto semelhante à FEA-SP, mas era mais fácil de entrar; (2) Era mais próxima de casa; (3) interesse pelo “diferencial agro”. Como custos pecuniários e não pecuniários são menores para esses alunos, é claro que a escolha pela ESALQ é mais atraente.

Ao passo que (2) é dado, a proposta de cisão da ESALQ afeta diretamente a percepçãode qualidade do ensino no LES (1) e do “diferencial agro” (3). Eu passei boa parte dos últimos anos da minha vida acadêmica produzindo modelos e provando teoremas, mas eu gostaria de dizer isso da forma mais direta possível. A ESALQ é uma marca centenária de excelência e dissociar-se a ela vai afetar a demanda potencial e a qualidade de alunos do LES. Isso porque alunos prestando vestibular emprestam o renome da ESALQ aos cursos do LES. Eu tenho muita dificuldade em digerir o argumento que o LES precisa se tornar unidade própria para poder “alcançar sua capacidade real” de qualidade. Grandes departamentos fazem grandes universidades, e o prestígio da instituição é um importante fator atrativo de grandes mentes a esses departamentos. Seria inconcebível imaginar a comunidade do Saieh Hall (departamento de economia da Universidade de Chicago) declarando independência à universidade, ainda que boa parte do renome da instituição venha de sua escola de economia. Obviamente, não ser uma escola independente não parece ter prejudicado Chicago Economics.

Uma das dimensões de prestígio e de identidade que a ESALQ empresta ao LES é o “diferencial agro”. Uma vez fora da ESALQ, como a Escola de Economia argumentará que mantém tal diferencial? Como se tornar independente poderia aumentar as externalidades de ensino, compartilhamento de fatores de produção e sinergias com relação à situação atual, onde há quase que integração plena? Se a ideia ventilada na proposta fosse a de “queremos que o LES rompa com o rótulo agro”, algo talvez impossível enquanto permanecer departamento, eu estaria aberto às perspectivas de tal discussão. Mas a própria proposta diz que “O foco da pesquisa da nova unidade deverá ser de cunho inovador, voltado […] mormente (mas não exclusivamente) para aqueles que guardam relevantes vínculos à produção de alimentos, à biotecnologia, à bioenergia, à indústria agroalimentar, à dinâmica da agricultura nos processos sociais e educacionais.” Ou seja, o benefício na proposta é oferecer exatamente o que o departamento já faz. 

Outro fator é a perda de alunos com correntes familiares. Muitos alunos de economia e do jovem curso de administração possuem familiares com conexões com a ESALQ. Essa é uma fatia importante de demanda potencial, não somente com benefícios sociais óbvios, mas porque esses alunos não necessariamente fariam economia ou administração em Piracicaba sem esse vínculo. Falo por experiência própria. Apesar de ser de Piracicaba, voltei à cidade para fazer ESALQ exclusivamente porque minha mãe, pesquisadora da Embrapa, passara sua vida acadêmica toda na instituição. Nunca tive afinidade com o agronegócio ou temas relacionados à agricultura por si, e mesmo hoje minha pesquisa intersecta o agro apenas em commodities enquanto investimentos financeiros (apesar de, com muito orgulho, ter vivido mergulhado nos problemas do agro brasileiro enquanto na Escola). Eu certamente não teria feito economia em Piracicaba em uma Escola dissociada à ESALQ que tanto sonhava em ser parte.

Por fim, gostaria de falar sobre o elefante na sala. Verdade seja dita, sempre houve uma certa tensão entre parcelas do LES moderno e a ESALQ. Muitos dos alunos hoje cursando graduação no LES e também muitos de pós-graduação que escolheram a parte “aplicada” do Mestrado e Doutorado, e não necessariamente a parte “agrícola”, sentem que o pertencimento à ESALQ impõe oportunidades “indesejáveis” à vida acadêmica e professional. Muitos desses alunos, fazendo LES exatamente pelo renome da ESALQ e pela ideia do oferecimento de cursos comparáveis aos das FEAs, sentem-se frustrados com o direcionamento agro no LES. Sentem-se decepcionados que estágios durante a graduação ou centros de pesquisa durante a pós sejam muitas vezes ligados ao agro. Por fim, sentem que sua única vantagem comparativa no mercado é enfim no setor agro, como se a graduação e as oportunidades dela vindas tenham quase que determinado o futuro profissional. Esses alunos sentem que, uma vez independente da ESALQ, a Escola de Economia poderá finalmente oferecer mais disciplinas em finanças, ou talvez de macroeconomia. Enfim, irá se parecer mais com a FGV, Insper etc.

Isso não vai acontecer com o LEXIT. Ao menos de acordo a própria proposta (“aqueles que guardam relevantes vínculos à produção de alimentos, à biotecnologia, à bioenergia, à indústria agroalimentar…”. Isso não deveria ser surpresa, uma vez que a quase totalidade de professores do LES é inexoravelmente ligada à economia agrícola, e que esse quadro não irá mudar com uma nova unidade, uma vez que per the proposal, não haverá contratação, nem qualquer mudança em formação/pesquisa de futuros quadros. Esse último ponto parece sim, surpreendente. Verdade seja dita mais uma vez, centros de pesquisa e ensino de professores ligados ao LES são grandes geradores de receita, e talvez o novo arranjo institucional poderia garantir maior parcela desses recursos ao LES, o que pode em parte motivar os proponentes da cisão. De fato, de maneira quase que acidental, a própria proposta ressalta que “os professores do LES captaram recursos extraorçamentários de R$ 42 milhões em 2017, o equivalente a cerca de metade do total arrecadado na ESALQ”. Certamente não é preciso profundo conhecimento em teoria econômica para imaginar que boa parte desses proventos capitalizam a associação de tais centros à imagem da ESALQ.

Demais argumentos

Se departamentos precisassem se tornar unidades independents para florescer, após séculos de Ensino superior, muito provavelmente essa seria a configuração de universidades ao redor do mundo. Departamentos já são locais onde a especialização do trabalho é avançada. Em outras palavras, dizer que o LEXIT seria uma relação “ganha-ganha” por se dizer, como se o LES fosse se tornar mais eficiente porque ao invés de “chefe de departamento” alguém seria chamado “diretor” (ou equivalente), certamente necessita ampla justificativa. É decepcionante que a proposta de cisão não traga os potenciais benefícios aos alunos e pesquisadores do LES e da ESALQ como um todo, como se a mudança fosse tão “natural” que justificativas são redundantes ou – o que me preocupa muito mais – como resultado da falta de discussão e de certeza dos proponentes da cisão de seus benefícios materiais àqueles afetados diretamente. 

 

Pedro Tremacoldi-Rossi (K-lafrio; F14 Economia) é aluno de PhD em Agricultural and Applied Economics na University of Illinois, Urbana-Champaign. 

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