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Informação traz mais segurança à Citricultura (Boca Larga F79)

17/10/2015 - Por mauricio lemos mendes da silva
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Inventário dos pomares do cinturão citrícola e mais Informações sobre o consumo ajudam o planejamento da cadeia citrícola

Toda a atividade econômica necessita de planejamento, principalmente aquelas que têm maturação lenta, de longo prazo. As decisões tomadas irão desencadear em resultados, felizes ou não, anos depois. Para um bom planejamento, é preciso munir-se de dados e de informações de toda a ordem. Dados macroeconômicos, principalmente para setores exportadores, dados microeconômicos e também informações que dizem respeito ao setor em si. Projeções de oferta e demanda, e também a vantagem competitiva do próprio empresário, deve ser analisada, bem como se o produto a ser ofertado está sendo desejado pelos consumidores.

O setor agrícola não é diferente: informação de qualidade vale muito. Para as culturas de ciclo rápido, como grãos, a decisão por se plantar milho ou soja, algodão ou feijão, tem muito a ver com estoque, área plantada, produtividade e rentabilidade esperada. Câmbio, oferta de países produtores, demanda dos principais países consumidores são relevantes para muitas das culturas. No caso das culturas perenes, adicione-se a tudo isso o fato de que a decisão tomada hoje terá reflexos a partir do terceiro e quarto anos, e por muitos anos seguintes. Assim, é preciso analisar com profundidade as informações existentes para que se possa diminuir os erros.

O setor citrícola é um desses setores cujos fatores a ser analisados são múltiplos e complexos. Transcendem os acontecimentos da própria atividade. Pelo fato de produzir uma commodity internacional, o suco de laranja, os fatores para analisar têm a ver com a oferta atual e projetada de laranjas, do estoque de suco em poder dos dealers e blenders de todo o mundo, da força do dólar em relação à moeda do país produtor e, claro, do interesse do consumidor em todo o mundo.

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Deve-se, ainda, levar em conta que a preferência do consumidor, já há bastante tempo, não é uma simples escolha entre sucos de diferentes frutas. Entram hoje no rol de produtos que competem com os sucos as águas saborizadas, os chás, as bebidas de soja e os energéticos. A escolha se dá entre produtos que ‘refrescam’, que estão na moda, que dão sensação de prazer que induzem "status" a quem o porta. É mais ou menos como o cinema, que se imaginava competir com fitas de vídeo alugadas, ou com o Netflix, mas que na verdade compete com o lazer, com o ‘se divertir’, ou seja, com o bar, com o restaurante, com o shopping, com a praia. Dá-se aí a dificuldade de se planejar em um setor como o da citricultura.

Ainda devem ser considerados os riscos inerentes ao negócio, como a incidência de pragas e doenças de difícil e onerosos controles, da dificuldade de se negociar preços em todos os elos da cadeia, entre outros.

Vê-se que na citricultura, mesmo com dados e informações disponíveis, não é simples de se planejar. Imagine sem eles. Entretanto, é o que temos feito há muito tempo. Para se ter uma ideia, o último inventário da citricultura foi realizado há quase 20 anos. As estimativas de safra realizadas anualmente por entidades de Governo não são bem aceitas por citricultores e indústrias. Um segmento que movimenta mais de US$ 4 bilhões e emprega cerca de 300 mil pessoas merece investimento em informação.

Para a felicidade dos atores do setor, incluindo nós consultores e analistas, a iniciativa privada está se organizando para produzir informações sobre o setor. É o caso dos dados que estão sendo trazidos pelo Projeto PES (Pesquisa de Estimativa de Safra) realizadas pelo Fundecitrus (Fundação de Defesa da Citricultura), e o Retrato da Citricultura viabilizado pela CitrusBR (Associação Brasileira de Exportadores de Sucos Cítricos) e produzido pela consultoria Markestrat, que traz importantes dados sobre toda a cadeia citrícola, da produção da laranja ao consumo de suco, passando por sua industrialização e distribuição.

O Projeto PES trouxe, em maio deste ano, um inventário sobre o chamado cinturão citrícola do Brasil, que engloba todo o Estado de São Paulo e a região do Triângulo Mineiro, em Minas Gerais. Nada havia sido produzido com tanta profundidade desde 1995, quando a própria Fundecitrus fez o Censo da Citricultura.

Muitas análises poderão ser feitas a partir desse trabalho e irão nortear e calibrar investimentos e decisões sobre novos plantios, variedades escolhidas, regiões eleitas etc. Um rápido olhar para os dados nos permite perceber muitas alterações. Há uma outra citricultura em relação ao que havia há 20 anos. Naquela época, a área ocupada pela citricultura no Estado de São Paulo (Minas Gerais não fora contemplada) era de cerca de 800 mil ha e havia 23 mil citricultores. Hoje são 430 mil ha, incluindo Triângulo Mineiro, e 11,5 mil propriedades com citros provavelmente entre oito a dez mil citricultores. Outro dado que chama atenção é a densidade de plantio, muito maior agora do que no passado. Hoje há uma média ponderada entre todas as variedades e idades de 459 plantas por hectare, mas nota-se claramente que a tendência é dessa média aumentar rapidamente, já que os plantios anteriores a 2008 tinham menos de 500 plantas por hectare e os de 2013 e 2014 superam 600 plantas. Há 20 anos, com espaçamentos ente plantas como 8 x 6 ou 7 x 5 m, a densidade era de 200 a 300 plantas. É muita diferença, e que irá resultar em produtividades maiores em pomares mais jovens.

Outro fato interessante que pode ser observado, com o qual já trabalhávamos em nossas análises, é a comprovação da mudança que houve na geografia da citricultura, o caminho para as fronteiras, ou seja, plantios na direção sudoeste e norte do Estado de São Paulo. Embora a tradicional região central do Estado, chamada no estudo como região centro, ainda seja importante, pois possui 27% dos pomares adultos, as regiões norte e sudoeste são a segunda e terceira regiões com maior número de plantas, com 22 e 20% respectivamente. Entretanto, é curioso notar que em quantidade de plantas novas, aquelas plantadas após 2012 – a região centro está aumentando sua relevância com 37% das plantas jovens, ficando em segundo a região norte, enquanto a região sudoeste tem sua importância diminuída, passando à quarta colocação, com apenas 11%. Isso indicaria que os citricultores estão menos receosos em relação ao HLB (ex-Greening). Vale acompanhar.

Também é importante notar que a região sudoeste é a que apresenta melhor produção em volume total e produtividade (produção por hectare). Segundo estimativa coordenada pela Fundecitrus para a próxima safra, 2015/2016, a região sudoeste será responsável por 25% da produção, a maior entre as cinco regiões (o total para o Estado de São Paulo e Triângulo Mineiro está estimada em 279 milhões de caixas). Nesta mesma região, encontra-se a melhor produtividade, 39,9 toneladas de laranjas por hectare, 2,3 vezes melhor do que a produtividade das outras quatro regiões, que deverão produzir em média 25 t/ha.

Vale ressaltar que, baseando-se no aumento de tecnologia verificado nesse trabalho – densidade maior, maior área irrigada, variedades mais produtivas, entre outras –, o plantel de cítricos existente tem potencial para voltar a patamares de produção acima de 350 milhões de caixas. Para se chegar a essa produção, que já se viu ser danosa para toda a cadeia produtiva, basta que a média de produção das plantas adultas chegue a 35,5 toneladas de laranja (870 caixas/ha).

Por outro lado, analisando pela demanda, a última edição da revista da Citrus BR traz uma série de artigos interessantes, focalizados principalmente no potencial de consumo de suco de laranja no Brasil. Os artigos mostram, por exemplo, que o brasileiro prefere o suco de uva (31%), vindo a laranja em segundo lugar (16%), um pouco à frente do pêssego (13%). Mas isso é para o suco industrializado, porque quando se trata do consumo da fruta in natura a laranja é a fruta preferida do consumidor brasileiro. Há um dado da antiga, e louvável iniciativa, Laranja Brasil que dizia que 90% da laranja direcionada para o mercado interno se transformava em suco nas casas, bares, hotéis, restaurantes e padarias. A vantagem de existirem dados críveis e disponibilizados é que também é possível contestá-los. Apesar de concordar que o Brasil tem um grande potencial para consumir muito mais suco de laranja do que consome, é preciso lembrar que já somos um grande país consumidor.

Justifico. Ficam no mercado interno brasileiro entre 80 e 100 milhões de caixas – esse dado é do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que, pasmem, é a única entidade que o compila –, o que indica que cerca de 320 mil toneladas de suco equivalente (65⁰ brix) são consumidos em forma de suco feito na hora, grande consumidor quando comparado à Alemanha, por exemplo, segundo maior consumidor mundial, com 167 mil toneladas. O volume de suco é de 9 litros por brasileiro, o que nos colocaria em boa posição no ranking dos países consumidores de suco. No entanto, o estudo que realizamos sobre o mercado de suco na cidade de São Paulo, que pode ser estendido para muitas cidades brasileiras, nos dá algumas indicações importantes. A primeira delas é a deque o consumidor se dispõe a mudar do suco feito na hora para o suco industrializado desde que o produto ofertado seja de muito boa qualidade, já que, ao contrário de grande parte dos apreciadores do suco, o brasileiro tem o privilégio de beber da ‘própria fruta’ praticamente o ano todo. Deslocar o consumidor de seu hábito demanda qualidade e planejamento de marketing. A segunda constatação é o preço pago. Quando feito em casa, 1 litro de suco custa em torno de R$ 2,70 – pagando-se R$ 1,20 o quilo de laranja no supermercado –, muito abaixo dos R$ 6,00 a R$ 7,00 do preço do litro de um bom suco industrializado (há bons NFCs nas gôndolas). É preciso ser competitivo com a fruta fresca, e para isso a campanha para a desoneração de impostos e taxas sobre a industrialização do suco, estimada em 27% pela Markestrat, poderia trazer competitividade e, consequentemente, um aumento real de consumo.

Enfim, boas novas para o setor. Temos mais informações que nos permitem planejar, estudar, projetar e tomar decisões mais claras. Temos um bom mercado interno, com espaço para grandes, médias e até empresas regionais explorarem. No entanto, é preciso debruçar-se sobre as informações existentes e pesquisar para obter as que faltam e, assim, aumentar as chances de êxito em um mundo consumidor que muda sem parar. 

Mauricio Mendas (Boca Larga F79), consultor do Gconci e diretor da Agrotools, Ex Presidente da ABMRA e ex Morador da Republica Mansão dos Draculas 

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