Blog Esalqueanos

Flamboyant

12/10/2016 - Por luiz fernando galli
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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No ponto final o bonde nem bem parava, os alunos e alguns professores desciam, o motorneiro deixava o seu posto na frente para assumir o da traseira, fazendo desta a frente, novos passageiros subiam e se acomodavam e o bonde novamente partia. Esta foi a imagem que ocupou a minha mente quando parei na sombra do florido flamboyant.

Cheguei cedo, caminhando, acompanhado do alvorecer e pleno de expectativas e recordações, na festa de comemoração dos meus quarenta anos de formatura na gloriosa Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Como nos sete lustros anteriores, os encontros e as comemorações começam pouco depois da aurora, mas não tem hora para terminar. A cada cinco anos a cena se repete e eu tenho o privilégio de reviver os momentos de alegria, sonhos e paixões dos tempos de criança e adolescente e, de forma mais intensa, dos anos vividos na Luiz de Queiroz.

Neste sábado de primavera a manhã ensolarada dá ao campus da escola mais cores, vida e imponência. No local do encontro, ao redor da farta mesa do café da manhã estrategicamente posta no gramado em frente ao pavilhão principal, uns e outros ex-alunos madrugadores como eu, aos poucos se encontram, se abraçam e revivem os tempos acadêmicos com contagiantes demonstrações de alegria, carinho, saudade e afeto.

Antes de encontrar os meus caros, parei sob o flamboyant onde por alguns  instantes cheguei a ver o bonde se aproximando do ponto final. Contemplei as palmeiras reais da alameda principal, as caesalpineas, os dois lagos onde criança eu alimentava as tilápias com pedaços de pão amanhecido e, emocionado, porque tudo me era muito familiar, fixei longamente os galhos e as flores daquele flamboyant que considero, juntamente com a jabuticabeira da casa da tia Rosa, as árvores da minha infância.  Há muito, muito tempo, essa Denolix emoldura a lateral do pavilhão principal e domina o recanto onde as únicas mudanças foram a remoção dos trilhos e do bonde, a pavimentação das alamedas e a retirada do banco de pés de ferro e madeira pintada de verde onde eu, com frequência, ainda criança sentava sob a frondosa sombra e pacientemente esperava o bonde.

Comecei muito cedo, muito antes de me tornar aluno, provavelmente ainda carregado pelos meus pais, a frequentar a Luiz de Queiroz, ou Escola Agrícola como a chamavam os nativos.

Mais de sessenta anos se passaram e ainda me pego admirando suas belezas, suas alamedas floridas, seus jerivás de coquinho doce, seus jequitibás com frutos de cachimbo, suas sapucaias com intrigantes e pesadas cabaças e seus enormes e bem cuidados parques com gramados emoldurados por frondosa e florida vegetação. Tudo com a mesma emoção e alegria das primeiras vezes, em que chegava de bonde com os meus pais para os passeios no parque nos finais de semana. Quantas e gratas recordações desses gramados, onde brinquei com os meus pais, joguei bola como os meus amigos na minha adolescência e circulei entre um pavilhão e outro, como orgulhoso e privilegiado aluno, entre uma aula e outra. Da Zoologia para a Genética, da Matemática para a Botânica, da Fitopatologia para a Entomologia, da Agricultura para a Engenharia e, porque não, destes para a minha casa em frente ao lago da Engenharia.

No início dos anos setenta, mudei para dentro da escola. Fui morar na paradisíaca casa do diretor, em frente ao lago, como aluno e como filho. Quem já teve esse privilégio de morar dentro da própria escola e, principalmente, numa escola especial como essa?

Quando em 1960 o meu pai comprou o seu primeiro automóvel, um Renault Dauphine verde claro, com certa frequência, depois do almoço, eu ia com ele para a Escola Agrícola só para andar na maravilhosa máquina, recém adquirida. Aquele cheiro de carro novo, nunca esqueci. Tampouco esqueci o orgulho que sentia quando sentava ao seu lado, como passageiro, e o via compenetrado dirigindo o carro novo, mudando as marchas, buzinando em algum cruzamento e acenando para um amigo. O velho Ferdinando o estacionava em frente ao pavilhão da Fitopatologia, me dava um beijo, subia para o laboratório e eu me dirigia até o ponto do bonde, onde ficava sob a sombra do flamboyant, não sei por quanto tempo, aguardando o bonde que me levaria de volta para casa. Tinha, tão somente, onze anos.

Apesar da tenra idade, as esperas do bonde naquele ambiente que me parecia especial, por conta da admirável natureza e do amor que o meu pai demonstrava pela sua profissão de professor e pesquisador, sempre liberavam a minha imaginação e me colocavam no futuro, que ainda parecia distante, como aluno, como colega e como amigo.

Nesta manhã especial, outra vez sob o flamboyant, as recordações e os mesmos pensamentos e sonhos, hoje realidades, eternizam o meu tempo. O bonde, o meu pai, a minha mãe com seu farnel para o piquenique de domingo ensolarado e o Dauphine verde claro,  estão aqui ao meu lado.

 

Piracicaba, outubro de 2013

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