Blog Esalqueanos

Feliz Páscoa (Alma; F97)

31/03/2021 - Por fernando de mesquita sampaio
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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A História conta que durante as epidemias de peste nas cidades da Idade Média, em algumas casas as pessoas dedicavam-se à oração e recolhimento esperando o mal passar. Em outras entregavam-se à bebida e orgias considerando que como aquele seria o fim, então era melhor aproveitar.


Durante nossa peste moderna da Covid 19, eu vi muitas pessoas que dedicaram a si mesmas um olhar ao interior, aproveitando o recolhimento que a situação exigia. Acho que nunca se consultaram tantos terapeutas, psicólogos e gurus, além de religiões. Outras estão indo em festas e aglomerações clandestinas, pisando na assombrosa marca de mais de 3 mil cadáveres diários.


O Brasil e o mundo têm inacreditáveis desafios pela frente. Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida, fala que a humanidade passa por um interregno. As soluções que tínhamos, ideologias, partidos, sistemas políticos e econômicos e outras pensadas no século passado não servem mais para os tempos que vivemos. E novas soluções ainda estão engatinhando. Bauman já argumentava que o vácuo de lideranças destes novos tempos abriria espaço para o populismo.


Deu no que está dando. À direita e à esquerda caímos no conto de gente que oferece soluções simples a problemas complexos.

Eu era uma vez jovem e cheio de certezas. Já fui chefe do meu próprio gabinete do ódio. Já discursei de dedo em riste, dono da razão. Graças a Deus, as experiências da minha vida pessoal e profissional me colocaram em frente a um sem número de realidades e pontos de vista diferentes. Uma das vantagens de amadurecer exposto a diferentes perspectivas é a de ter cada vez menos certezas.

Mas, paradoxalmente, algumas certezas emergem deste mundo líquido.

A primeira destas é sobre liderança. Ouvi certa vez de Madeleine Albright que o mundo estava uma bagunça. E que faltavam líderes. Ouvi isso muitas vezes depois, em muitos lugares. E não podemos esperar salvadores da pátria ou figuras como caudilhos do passado incarnando a vontade popular. Diante de tanta informação e complexidade, é impossível que a liderança seja exercida por pessoas ordinárias. Antes, acredito que apenas coletivos ou redes de pessoas dedicadas a temas em comum e baseadas em conhecimento científico possam ter esse papel. Uma das razões para o sucesso de Angela Merkel como política é o uso que ela faz da própria formação científica, apoiando-se em informações de equipes técnicas, colocando na mesa a cada decisão todas as possibilidades, checando o que já foi experimentado e assim definindo o melhor caminho a seguir.


A segunda certeza é que não é possível progredir sem cooperação. Yuval Harari fala da cooperação como antídoto à pandemia, e não a segregação ou isolamento. O mesmo vale para outros desafios modernos. Maximo Torero, economista chefe da FAO fala sobre como a cooperação entre países pode prevenir uma crise global nas cadeias de alimento por causa da Covid 19. Clima, biodiversidade, economia, alimentação, segurança, saúde, não há nenhum desafio contemporâneo que não exija a cooperação entre o público e o privado, entre diferentes setores econômicos, entre países, organizações, pessoas.


A terceira é que não é possível cooperar sem escuta e sem diálogo. Em um artigo escrito na virada do ano, Ilona Szabó nos lembra de que "não existe monopólio de valores, causas e ideais. Dividimos com pessoas que às vezes consideramos oponentes muito mais do que imaginamos, e precisamos cada vez mais deixar os lados de lado e unir esforços em nossas agendas comuns." Como ela diz, sem diálogo não há democracia.


No Otimista Racional, de Matt Ridley, o autor fala que só conseguimos evoluir como humanidade, e para melhor, pela troca de ideias entre pessoas e civilizações.


Precisamos da troca de ideias, e eu digo, só há uma coisa impossível de ser tolerada, e é a intolerância ela mesma.


A Campanha da Fraternidade de 2021 teve por tema Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor. Segundo a mensagem do Papa Francisco, a campanha nos convida a "sentar-se a escutar o outro" e, assim, superar os obstáculos de um mundo que é muitas vezes "um mundo surdo".


Já há quem chame a ideia de comunista.


Estamos próximos à Páscoa, data maior do Cristianismo em que renovamos nossos votos de fé e ensaiamos nosso próprio renascimento. Temos esse estranho Deus que não dá explicações ao sofrimento humano e nem oferece soluções prontas, mas que nos incita ao diálogo e amor ao próximo como forma de superação das dificuldades e até da morte.


Em a Orgia e a Peste, o italiano Giuliano da Empoli traz o Brasil como um espelho do mundo. A Orgia onde todos parecem desenfreadamente em busca do prazer momentâneo como um Carnaval, e a peste onde somos ao mesmo tempo diariamente colocados face a face com a pobreza, a desigualdade e a morte. E isso foi escrito antes da pandemia...


Mas ele também fala que essa força carnavalesca, e de amor pela vida pode e deve ser usada de forma positiva, contra todos os integrismos que tentam nos impor.  


A vida precisa da felicidade e a felicidade precisa da vida, escreveu Nizan Guanaes também na virada do ano.


Eu desejo nesta Páscoa que sejamos gratos pela vida. E que possamos tirar dessa tragédia toda e dessa Páscoa uma vida de mais diálogo e colaboração.


PS1: A ESALQ já era polarizada avant-la-lettre. Vermelhos e Azuis dominavam a cena política esalqueana antes de lulistas e bolsonaristas tomarem as praças. Mesmo assim não acredito ter testemunhado a política alguma vez interferindo na ciência. Se há alguma coisa que unia ou deveria unir nossa comunidade era a confiança no conhecimento científico na formação dos alunos. Até a ciência no cenário político brasileiro atual entrou na dança. Temos que explicar, em plena era da informação, porque vacinas são importantes. Aparentemente o Brasil virou um grande Boi Bumbá com o gado azul opondo o gado vermelho em escala nacional. Checar dados, confirmar a veracidade de informações, comparar resultados são métodos que aparentemente caíram em desuso, inclusive entre esalqueanos. Como diz uma charge que circula por aí mostrando um tiozão sentado no computador: "como pode ser fake news se diz exatamente o que eu penso?!". A formação universitária deveria obrigatoriamente nos credenciar para ser um pouco melhores do que isso.


PS2: Fiz uma série de entrevistas intituladas Diálogos Impossíveis, conversando com gente que normalmente agricolões amam odiar: uma vegana, uma comunista, uma ambientalista, uma indígena, uma ativista do clima, uma de humanas e outras. Minha intenção era poder demonstrar que podemos encontrar em nossa humanidade em comum, muito mais do que nossas diferenças. Não tenho coragem de publicar. Isso diz muito sobre nosso tempo.

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