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Fantesão: libere sua fantasia!

24/08/2026 - Por luiz carlos beduschi filho
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Em 1995, a Fantesão era a maior festa universitária de Piracicaba e região. O que tinha começado em 1977 como uma festa à fantasia relativamente pequena, organizada por uma república emergente no cenário esalqueano, tinha se transformado em uma verdadeira efeméride regional.

Até 1993, a festa foi realizada na sede da Kpixama. Chegamos a colocar mais de 1.000 pessoas na casa da rua do Vergueiro, com todos os desafios que isso implicava: organizar a casa, fechar o acesso dos convidados ao andar superior (onde estavam os quartos e o famoso terracinho), avisar aos vizinhos que haveria bagunça e oferecer uma noite de hotel paga por nós (o que eles nunca aceitavam, mas agradeciam a oferta), contratar equipamento de som, equipe de segurança e preparar centenas de litros de batida (de coco, chocolate e maracujá, segundo receitas que iam variando conforme a quantidade tomada durante a preparação), que eram armazenadas em baldes de plástico de 50 litros com torneirinhas habilmente instaladas pelo Tá Limpo (Guilherme Menezes Verona Guiducci) e estrategicamente distribuídas em diferentes pontos da casa, ao lado de baldes de gelo e copos de plástico. Aliás, sobre essas batidas corria uma lenda que se espalhava nas semanas que precediam a festa. Para muita gente, só podia ser verdade que “os caras da Kpixama colocam éter nas batidas”, especialmente quando viam o estado alcoólico de alguns participantes. A única forma de convencer alguém de que isso não passava de lenda era convidá-lo a ajudar a preparar as bebidas nos dias anteriores, o que era uma verdadeira festa para os amigos/as mais íntimos da Kpixama.

Eram semanas de preparação que começavam sempre no início do ano com um acordo entre a Kpixama e a Covil pela data das respectivas festas. Em uma época em que o clima era algo mais previsível do que agora, a opção era sempre pelo início do segundo semestre, quando a probabilidade de chuva era menor, e por finais de semana do começo do mês, quando a turma ainda tinha algo de dinheiro.

Definida a data, o planejamento da Fantesão era uma empresa que deveria valer créditos em alguma disciplina de Administração. Sem nada mais do que a “marca Fantesão” como garantia, assumíamos riscos financeiros com instrumentos tão precários que hoje seriam impensáveis.

A conta era relativamente simples: o custo total estimado da festa, dividido pelo número de convites que a gente sabia que venderia com certeza, indicava o valor do convite individual. Todos os convites vendidos além daquele número fatal (algo como 500 convites nesta época) eram “lucro”. Nesta conta havia que colocar também os convites para trocar com as outras repúblicas que tinham suas festas (Festa dos Anos 60 da Covil, Última Barca da Fazendinha, Xapando no Havaí da Xapadão, entre outras) e os nossos convidados particulares (amigos da Esalq, de Pira, de nossas cidades, vizinhos etc.).

Nós nos revezávamos vendendo convites na Escola, na UNIMEP, na Unicamp e em casa. Eram muitas tardes recebendo gente que vinha comprar convites e ficava de papo com quem estava à toa e não tinha nada mais importante a fazer do que se dedicar de corpo e alma à Fantesão.

Reuniões quase todas as noites para fazer o balanço das vendas, compartilhando a preocupação de que alguém viesse nos assaltar sabendo que havia dinheiro vivo em casa, ou de que viesse a polícia alegando alguma contravenção para nos extorquir, o alívio e a alegria quando a festa se pagava e então era só seguir cuidando dos detalhes e desfrutar o fato de ser a República que fazia a melhor festa de Piracicaba e região.

Em 1994, uma chuva torrencial das que Piracicaba costuma receber derrubou um dos muros laterais da casa. Entre o medo de que o cachorro rottweiller do vizinho viesse nos visitar e a tentação de pular na piscina que sempre víamos do terracinho, a queda do muro foi o sinal que faltava para a gente tomar a decisão, várias vezes postergada, de mudar o local da Fantesão.

Foram horas de reuniões para chegar a essa decisão, e dias buscando um local apropriado para seguir fazendo a Fantesão. Dando um rolê pelos bairros rurais de Pira, eu, Tá Branco (Edson Guiducci Filho) e Galo Cego (Luis Felipe Ribeiro Ricca) encontramos um lugar que atendia às nossas expectativas e, mais do que isso, lançaria a Fantesão em um caminho de crescimento sem volta na segunda metade da década de 1990.

De 1.000 pessoas que colocávamos na casa da Rua do Vergueiro, planejamos uma festa para 2.000 pessoas. Os convites, que antes imprimíamos em uma gráfica (e que eram muito fáceis de falsificar), passaram a ser feitos na mesma empresa, com sede em Santos, que fazia os cartões de crédito do banco Itaú. Tudo teve que se modernizar, atualizar, profissionalizar. Desde mandar ofício para a prefeitura municipal até contratar serviço de ambulância, com médico e enfermeira, para eventuais emergências, foram providências que tivemos que tomar.

Com tantas mudanças, o que não mudou foi o espírito com que organizamos aquela festa em 1994. Nas minhas lembranças, foi uma das melhores que fizemos (empatada com a de 1991 e a de 2002 no meu ranking pessoal). Muitas repúblicas se organizaram para vir com fantasias grupais: smurfs, ovos fritos, tiazinhas, freirinhas, diabinhas são algumas das que me lembro. Soube de um trenzinho que fazia o percurso de ida e volta do centro de Piracicaba levando a turma. Tenho memórias desta festa (algumas muito boas, outras algo borrosas, alguns flashes) que não são passíveis de colocar em um texto como este. Em resumo, esta festa foi sensacional e marcou o início de uma nova fase da Fantesão, com todas as alegrias e desafios que viriam nos anos seguintes.

Junto com o êxito, vieram também as críticas na comunidade esalqueana: “a Fantesão já não é mais a mesma”; “não conheço mais ninguém na Fantesão”; “a Kpixama só pensa no lucro”; “os caras pagam a república com o lucro da festa”; “a Fantesão perdeu o espírito esalqueano”.

Eram críticas que nós sabíamos que não tinham fundamento. O dinheiro que sobrava da festa, à diferença do que pensava muita gente (que dividíamos e cada um levava a sua parte), só podia ser utilizado para fins coletivos. Era com esse dinheiro que fazíamos os famosos “mutirões kpixamanos”, empreitadas que começavam na sexta-feira à tarde e iam até a noite do domingo, com todo mundo em casa batendo massa de cimento, tirando escombros, pintando paredes e tomando cerveja; foi com esse dinheiro que compramos o primeiro fogão industrial para as clássicas feijoadas que o Xikré (Luis Pereira Vinholis Filho) preparava com a ajuda da Dona Neia, nossa ajudante, para um batalhão de esalqueanos que passava todo o final de semana comendo e enchendo a lata na Kpi. Também foi com as doações da Kpixama, viabilizadas pelo lucro da Fantesão, que a Dona Neia reformou sua casa.

Mas tudo isso que nós sabíamos e fazíamos, e que o Pulero (Murilo Parada) me lembrou quando eu estava escrevendo este texto, não diminuía o “zumzumzum” na Escola sobre os rumos da Fantesão.

Para enfrentar este dilema entre o crescimento da festa e a manutenção da identidade esalqueana, em alguma madrugada na sala de visitas da Rua do Vergueiro, tomamos uma decisão que, até hoje, me dá muito orgulho dos kpixamanos com quem tive o privilégio de conviver.

Eu e Galo Cego (Luiz Felipe Ribeiro Ricca) éramos membros da diretoria do Centro Acadêmico “Luiz de Queiroz” (CALQ). Quando assumimos a gestão, no início do segundo semestre de 1995, o CALQ estava com as contas “no vermelho”. Os sócios não pagavam sua anuidade, e os ingressos eram bastante escassos. Em uma dessas ideias que surgem aleatoriamente a partir das conversas entre amigos, incluindo aqui o Contxa (Pablo Molloy, ex-morador da Strunzo e tesoureiro do CALQ naquela gestão), ocorreu-nos desenhar um esquema em que, ao mesmo tempo, daríamos uma resposta às críticas que seguiam existindo à Fantesão e ajudaríamos a equilibrar as finanças do centro acadêmico.

Funcionou assim: o valor do convite para a Fantesão foi estabelecido em X reais. Os sócios do CALQ que estivessem em dia com o pagamento de sua anuidade teriam um desconto de Y reais no convite individual. O custo da anuidade do CALQ era de Y reais. Em resumo, a república Kpixama estava subsidiando o CALQ por meio do desconto dado ao convite para a Fantesão.

Quando a ideia foi exposta em reunião, todos, sem exceção, foram a favor.

Imediatamente montamos uma operação de recadastramento do quadro associativo do CALQ. Com a participação de toda a diretoria do CALQ, nos instalamos nos intervalos do Rucas, com quatro máquinas de escrever, para recadastrar os sócios, cobrar a anuidade e entregar a nova “carteirinha” com o carimbo de quitação da anuidade. Com essa carteirinha renovada, os sócios pagavam o convite com desconto e nós, com muito orgulho e algo de prepotência, tiramos da boca de vários colegas a crítica de que havíamos perdido as nossas raízes.

Possivelmente existiram outras iniciativas com este mesmo espírito ao longo dos 125 anos da ESALQ, mas ainda hoje, ao escrever estas linhas, me emociona reconhecer na atitude dos meus amigos o desprendimento e o profundo sentido de pertencimento a uma comunidade. Para um grupo de jovens de 20 e poucos anos, nos loucos anos 1990, não é algo menor e diz muito dos seres humanos que a Kpixama forjou ao longo dos seus 50 anos de existência, que serao comemorados em Pira neste final de semana de 29 de agosto de 2026.

Se você tem alguma lembrança, história ou foto das suas aventuras na Fantesao, compartilhe com a gente.

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