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Esalquenos por aclamação

23/08/2023 - Por adealq
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Assim que a porta do apartamento se abre, chama a atenção a felicidade de alguém que está um pouco mais distante da entrada. É Roque Messias de Oliveira, exibindo orgulhosamente a camiseta branca do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz, o CALQ. Muitos esalqueanos diriam que se há outra pessoa igualmente merecedora de vestir essa "camisa" é Judith Concessa Ribeiro de Oliveira, a Dona Judith, esposa de Seu Roque. Em abril deste ano, o casal completou 54 anos de casados, dos quais quase 40 foram dedicados a cuidar do CALQ e, por consequência, também dos frequentadores. Mantiveram um envolvimento com a rotina da ESALQ que só seria possível para estudantes e professores.


Seu Roque tem 86 anos, mas, a julgar pelo bom humor, a idade parece outra. Ele tem uma jovialidade peculiar que se revela a cada recordação de suas divertidas histórias. Em alguns casos, a graça está exatamente no fato de Dona Judith levar a questão a sério. "Quando começamos a namorar, ele foi falar primeiro com meu irmão para só depois encarar meu pai, que era muito bravo. O prazo do namoro ao casamento era de três meses, mas ele enrolou ao meu pai e a mim por três anos", reclama a esposa, hoje com 77 anos. Talvez aqueles três anos tenham sido uma preparação para os demais que viriam pela frente e que exigiriam muita dedicação de um para o outro e de ambos para as suas causas.


Pais de cinco filhos - Francisco, Sandra, Roque, Judite e Geraldo -, o casal natural de Piracicaba (SP) precisou de muta energia para cuidar da família e tomar conta do CALQ. "Ele não estava acompanhando e curtindo o crescimento dos filhos", conta Dona Judith. Seu Roque entrou no CALQ em março de 1969, a princípio, para ficar apenas seis meses - prazo definido em contrato -, mas as circunstâncias acabaram fazendo com que permanecesse por mais tempo. Só não tinha ideia do quanto seria esse "mais".


A chegada ao Centro Acadêmico foi facilitada pelo relacionamento que mantinha com os frequentadores do período em que teve um estabelecimento comercial, uma espécie de bar e quitanda, que ficava na Rua Tiradentes com a Rua Treze de Maio, no centro de Piracicaba. "O comércio durou nove anos. Conheci muitos dos engenheiros agrônomos que moravam na região", comenta Seu Roque. "Levava mercadorias para as repúblicas e para os clientes", acrescenta.


Dedicação em dobro. A jornada de trabalho de Seu Roque no CALQ começava à tarde e invadia a noite. Com os filhos ainda pequenos, o casal precisava se desdobrar. Dona Judith trabalhava como diarista durante o dia e, para complementar a renda da família, preparava bolos ou pizzas para vender na cantina do CALQ. Também era uma maneira de estar perto do marido. Com o tempo, acabava levando os filhos consigo. "Os vizinhos chegavam a comentar sobre como seria o futuro dascrianças", diz Dona Judith. Em 1975, ela acabou sendo contratada para trabalhar no Centro Acadêmico.


A situação melhorou quando veio a oportunidade de morarem no próprio CALQ. A praticidade era uma das vantagens, pois Seu Roque já não precisava se preocupar em como ir para casa. "Muitos eventos iam até de madrugada. Quando terminavam, eu ficava procurando umacarona para chegar até o Jardim Primavera, onde morava", comenta. Era o caso do "Botecalq", que acontecia às quintas-feiras, das 20h às 2h, apenas para alunos. Também havia a "Boatinha", uma espécie de ponto de encontro para os eventos.


A carona não era a única preocupação de Seu Roque em relação aos eventos sociais do CALQ. Muitas vezes, quando alguém passava da conta na empolgação etílica, o "zelador" do Centro Acadêmico tentava ajudar. Nem sempre a resposta era amistosa. "Você ia dar um auxílio e ainda tinha quem te xingasse. Aí eu já largava mão", desabafa. Era comum o prédio de três andares, no centro da cidade, ser alvo de reclamações dos vizinhos por conta do barulho. "O pessoal ia à polícia dar queixa. Eu apenas dizia para falarem com a diretoria, pois estava ali apenas cuidando do local, não era o responsável", afirma.


Mas nem só de festas vivia o CALQ no período em que Dona Judith e Seu Roque estavam por lá. No local havia um teatro com 340 lugares que abrigou importantes eventos e personalidades, como palestras, encontros e até debates políticos, a exemplo dos presidentes Ernesto Geisel e Emílio Garrastazu Médici. "Pessoas importantes de nossa história passaram pelo CALQ", comenta Antony Sewell, presidente da Associação dos Ex-Alunos da ESALQ (ADEALQ), que desfrutou da companhia do casal. "Eles cuidavam muito da gente", lembra o dirigente, que acompanhou a reportagem da Revista da ADEALQ na entrevista com os dois.


Relação de família. Assim como o presidente da ADEALQ, muitos ex-alunos da ESALQ contaram com o apoio de Dona Judith e Seu Roque para resolver inúmeras questões, sobre os mais diversos assuntos. "Eles vinham contar os problemas como se fosse uma terapia", recorda com carinho Dona Judith, que também acompanhou a formação de muitos casais durante a convivência no CALQ. "Houve até casal que ia namorar na nossa casa, pois o pai da garota era muito bravo e não podia saber do relacionamento entre eles", revela. Por conta dessa proximidade, também ficavam sentidos quando viam o fim dos romances que tinham início na escola.


Outra situação comum para o casal era receber convites para casamentos. Na verdade, até hoje continuam a ser lembrados para as cerimônias de ex-alunos. As fotos tiradas nesses eventos são mostradas com imenso carinho. Tamanha aproximação com os estudantes foi algo muito positivo para ambos. Dona Judith ressalta que a convivência ajudou a amenizar sua timidez: "Para mim, foi muito bom trabalhar lá, pois eu era muito fechada, pouco conversava". Por outro lado, deixa escapar uma pontinha de ciúmes pela forma como os alunos tratavam Seu Roque. "Eles vinham de diversas regiões, ficavam longe das famílias e então eram carentes. Aí apareciam no CALQ dizendo que só foram lá para dar um abraço no Roque. Poxa, mas era só ele que havia lá?".


É claro que a lembrança vem em tom de brincadeira, mas de fato Seu Roque tinha um envolvimento muito grande com os alunos. Essa relação começou bem cedo. Em algumas situações, ele chegou a viajar com equipes de pesquisa dos estudantes para Mato Grosso, Pará e Brasília, por exemplo. Não por acaso, quando deixaram o CALQ, em 2006, sobraram saudade e boas lembranças. Questionado sobre do que mais sente falta naquele período, Seu Roque é simples e direto: "Sinto falta de tudo!". E complementa: "Às vezes me pego feito bobo lembrando de cada momento".


Matéria publicada na Revista da ADEALQ - Edição nº 2 - 2015

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Seu Roque faleceu esta madrugada e o velório será hoje, 23/agosto/2023, no Cemitério da Saudade em Piracicaba a partir das 8h, com sepultamento previsto para as 17h.

Nossos sinceros sentimentos aos familiares e amigos.

A Diretoria.


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