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Entrevistei um boi!

02/12/2020 - Por sérgio raposo de medeiros
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Uma das maiores dúvidas de quem tem uma experiência exotérica é se a divulga para outras pessoas ou não, afinal há grandes chances de ser considerado doido. Provavelmente, eu deveria fazer isso, mas...bem, segue o texto e deixo o leitor fazer seu próprio julgamento se poderia ter deixado passar.

Tudo ocorreu, pois acordei cedo demais no hotel-fazenda em que passava férias. Só me restava, então, dar uma volta de reconhecimento no local em que chegara à véspera. Acabei, então, sem querer, por encontrar com o trabalho, ao me aproximar de um cercado onde serenamente pastejava um belo bovino.

Apoiei-me na cerca e contemplava a cena quando minha mente foi subitamente invadida pela lembrança de como há tanta desinformação a respeito desse animal. Num ato natural de desabafo, falei em voz alta: “Boi, você não imagina o quanto falam mal de você!”, obviamente, na expectativa que esse seria o ponto final da nossa conversa. Para minha surpresa ele me respondeu: “Eu sei!”.

Para me certificar que não era uma alucinação, segui conversando com meu improvável interlocutor. Fiz a pergunta se ele sempre falava com humanos. Ele disse que havia aprendido a falar fazia tempo, mas nunca tivera vontade de conversar, afinal, as únicas coisas que ele costumava ouvir de humanos que se aproximavam eram sobre aparência (“Como é gordo!”, “Como é magro!”, “Não parece com a Tia Lúcia?” etc.), sexo (“É uma vaca ou boi?”), raça (com quase 100% de erro) e, o que ele mais gostava, os “especialistas” em carne (“Carne boa é de boi cinza...”, “Esse boi só fica bom para colheita daqui uns 5 anos”, “Para ficar com a carne macia, não pode pegar vento na canela!” etc.). Comentou também que sempre percebeu uma estranha superstição humana: era comum alguns humanos, ao atravessarem seu piquete, tirarem a camisa de determinada tonalidade e ficarem olhando para ele, aparentemente assustados com algo.

Agora, que surgia uma oportunidade para colocar a versão bovina dos fatos, ele decidira arriscar. Começou dizendo seu nome: era La Fontaine, mas que eu poderia chamá-lo de Lafa. Explicou-me, ainda, que tinha uma boa dose de informações sobre o mundo dos humanos de ouvir conversas e de gostar de dormir ao som da TV da casa do administrador.

Impressionado com as respostas que recebi, comentei como estava surpreso dele saber tanto, para o que ele me respondeu: “Você é pesquisador, portanto deve saber que a maior parte do tempo o boi passa em ócio e ruminando. Então...a gente usa muito mais tempo para pensar do que vocês!”. Não tenho certeza, mas quase posso jurar que ele falou isso com um discreto sorriso sarcástico, misturado com um olhar condescendente. O resultado dessa interação é a entrevista, cujo conteúdo, sem cortes, segue abaixo.

Eu: De tudo o que você tem ouvido a seu respeito de desabonador, o que mais o incomoda?

Boi: Que sou o grande vilão causador do aquecimento global.

Eu: Você acredita em aquecimento global antropogênico (AGA), isto é, causado pela ação humana?

Boi: Quem sou eu para acreditar ou não? O que percebo é que as evidências são cada vez mais difíceis de contestar. Por exemplo, quando vi que quase todos os países do mundo concordaram em assinar o “Acordo de Paris”, mesmo os grandes poluidores como a China e os EUA, vi que não tem como ser teoria da conspiração. Também acompanho que a maioria das previsões feitas pelos estudiosos no assunto tem se confirmado como a diminuição recorrente de chuva na Califórnia, os incêndios recordes na Austrália e a severa seca no sul do Brasil. Os discursos dos negacionistas, por outro lado, além de estarem sendo contestados pelos fatos, têm sido refutados com dados científicos. O fato do carbono de queima de combustíveis fósseis ter sua assinatura é o “batom na cueca”, como vocês falam, do dedo humano na raiz do problema. Outro ponto frequente dos negacionistas é tratar de pontos isolados e fora do contexto geral, como “a terra já foi mais quente” ou “o clima sempre variou”,  evitando a discussão da coordenação lógica das consequências no seu todo, ou seja, a temperatura está subindo como se mede nos termômetros, o que está em linha com o aumento do degelo, a elevação do nível dos oceanos, a ampliação da zona de ocorrência dos vetores de doenças tipicamente tropicais e por aí vai.

Eu: Você não tem nada a ver com o AGA?

Boi: Olha, eu até poderia colocar a culpa em quem realmente produz o metano, que são os microrganismos que habitam meu rúmen e fazem o trabalho duro de tirar energia do capim, pois o metano que emito é parte do “lixo” que eles deixam para trás, mas seria muito injusto, pois só consigo sobreviver na pastagem por conta desses meus bem-vindos inquilinos. Enfim, tenho minha participação e não nego. O que me irrita são os exageros.

Eu: Quais exageros?

Boi: Alguns pontos precisarem ser revistos como o fato de não ser considerado o carbono incorporado às pastagens pelas raízes das forrageiras e o uso do CO2-equivalente, que pode superestimar a participação do metano no aquecimento global em até 60%. Porém, o grande  problema, mesmo, é de eu estar no Brasil. Gritam que somos responsáveis por 70% e lá vai pedrada da emissão de gases de efeito estufa (GEE) da agropecuária e que bem mais do que 20% das emissões brasileiras e, daí, todo mundo me dá aquele olhar torto! O que esquecem é que o Brasil emite apenas cerca de 3% das emissões globais e que o setor agropecuário, onde meu metano entra, não chega nem a 1%!!! Insisto: não estou tirando o corpo fora, não. Eu sei que a grande maioria dos países tem uma porcentagem de emissão dessa para menor, portanto, é preciso que todos contribuam, sem exceção. Se tiver jeito de eu produzir menos metano, tô dentro, mas, por favor, coloquem os holofotes onde realmente estão os grandes poluidores!

Eu: O que você está querendo dizer é que a emissão dos bovinos no Brasil se destaca porque temos uma matriz energética muito mais limpa que os grandes poluidores?

Boi: Exatamente! O setor de energia, nos países muito dependentes de combustíveis fósseis, são os grandes vilões. China, os EUA e os países que formam a Comunidade Europeia emitem 45% dos GEE no Mundo. 

Eu: E o seu envolvimento com o desmatamento?

Boi: Então, também não vou tirar o corpo fora aqui, pois acaba sendo o boi, mesmo, que ocupa as áreas de desmatamento, mas, mais uma vez digo: o foco está no culpado errado! Sou mera ferramenta de ocupação. O fato é que, se 1 hectare de floresta no Pará vale R$ 1,5 mil, depois de aberto esse mesmo hectare vai a R$ 6 mil!!! Você acha que, se proibissem de colocar boi na área, mudaria alguma coisa? Não é à toa que tem tanto desmatamento ilegal!

Eu: Você é realmente bem informado! O termo “desacoplamento pecuária e desmatamento”, você já ouviu falar?

Boi: Sim! Não deixo passar nenhuma notícia bovina. Foram pesquisadores europeus e brasileiros que criaram esse termo ao notarem que, ao mesmo tempo que houve um grande aumento no rebanho bovino, entre 2004 e 2012, ocorreu uma grande redução no desmatamento da Amazônia legal, ou seja, houve uma dissociação entre boi e desmatamento. Isso mostra que, com intensificação sustentável, é possível produzir mais carne sem precisar aumentar o desmatamento. Como os humanos não param de dar cria, e vocês não deverão ser uma nação majoritariamente vegana...melhor tratar de nos tratar melhor!

Eu: Você preferiria que os brasileiros fossem todos veganos...por uma questão de autopreservação?

Boi: Muita gente pode estranhar o pragmatismo da resposta, mas eu tenho consciência que só estou aqui porque tem gente que gosta de carne. Se todos forem veganos, acaba a necessidade de eu existir. Minha sina é essa: ser primordialmente fonte de alimento para os humanos que me criam.

Eu: Muita gente adota o veganismo ou vegetarianismo exatamente pela pecuária envolver a morte de um animal?

 

Boi: Não tenho grandes problemas com isso, também, porque entendo que, para eu viver, acabo com outras formas de vida, sejam as plantas que eu pastejo, sejam os próprios microrganismos que me habitam e, ao saírem do rúmen, são minha principal fonte de proteína. No fim das contas, estamos todos juntos na teia alimentar. Em todo caso, essa preocupação com o sofrimento de um animal que não seja da sua espécie é um gesto nobre que aprecio nos humanos. Da minha parte, até pela forma que me posicionei, me satisfaço se o produtor adotar o manejo racional, respeitando nossos limites por conhecer nosso comportamento. Isso evita sofrimento e repercute em melhor produção. Todo mundo ganha!

Eu: E o fato de quererem substituir você por carne feita em laboratório?

Boi: Vocês humanos são muito esquisitos! O que eu posso fazer de forma totalmente natural, comendo capim, subprodutos e resíduos, vocês decidiram fazer de forma artificial e complicadíssima. A escolha é de vocês e eu respeito. Na pior das hipóteses, é mais uma opção de alimento. Agora, eu raspo meu casco de raiva pela forma como esses produtos se promovem, sempre usando visões viesadas e bastante distorcidas da pecuária. Por exemplo, eu já cansei de ouvir a ladainha que a produção de bovinos emite mais do que o setor de transportes, que é uma comparação absurda, visto que, no caso da pecuária, são incluídas emissões diretas e indiretas - como as para produção de alimento, logística etc. – e para os transportes, apenas da emissão da queima dos combustíveis. Outra coisa que tenho minhas dúvidas, é se o processo da carne de laboratório vai ser tão mais eficiente assim, pois é uma operação melindrosa e que usa bastante recursos, inclusive energia. No final das contas...tenho sérias dúvidas se será um alimento realmente comparável ao que eu produzo.

Eu: O que faltaria para a carne de laboratório ser equivalente a natural?

Boi:  Então, em termos nutricionais, com relação aos componentes principais, talvez possa ser feita carne de laboratório semelhante à carne feita por mim, mas e a enorme riqueza de nutrientes que dependem do que acontece dentro do meu rúmen e dos meus tecidos? Por exemplo, temos um grupo de ácidos graxos chamados CLA, que cada quilograma de carne deve ter uns 100 a 200mg, o qual teria vários efeitos interessantes para a saúde. Do mesmo modo que o CLA, há vários outros compostos que pouco se conhece e, igualmente, podem ter papeis relevantes para a saúde. Tem, também, as questões de forma, textura, aroma e sabor. Daqui há alguns anos podemos ter no mercado um simulacro de hambúrguer, mas quero ver quem consegue fazer uma picanha ou costela em laboratório que se passem pelas originais. Prevejo que esse dia esteja longe...se é que um dia vocês consigam.

Eu: Uma crítica mais sofisticada é que você é uma commodity e, portanto, é um item na nossa pauta de exportação indesejável?

Boi: Concordo plenamente que vocês devem aumentar itens na pauta de exportação que tenham maior valor agregado, mas entendo que isso independe de ter o boi fazendo parte dela. Além disso, se isso decorre da competitividade do setor, obtida com investimento em pesquisa e pela adoção de tecnologia pelos produtores, acho que deve ser grato por isso. Fazer mais de 7 bilhões de dólares em exportações de carne quase só a base de capim? Isso não é para qualquer um! 

Eu: Mudando de assunto, você é bombeiro?

Boi:  Olha, sei que esse termo foi cunhado, pois, comendo a forragem seca, sou um agente de redução de biomassa, ou seja, tiro o combustível do eventual fogo. Isso faz sentido, mas achei um tanto fora de contexto lembrar disso no caso dos folgáreis do Pantanal. Hummmm...de repente, deu um sono...

Eu: Ops...calma...tenho muito que conversar com você ainda. O que você acha de quem defende que cuidar do ambiente nos atrasa o desenvolvimento? De que leite de vaca deve ser tomado só pelos bezerros? Dos humanos que querem consumir seu sal mineral por ser melhor que o sal de cozinha?...

Boi:  ZZZZZzzzzzzzzz....

Queria estender nossa conversa, mas, do que reclamar se ele não deixou nenhuma pergunta sem resposta?

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