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Empacado

23/11/2016 - Por luiz fernando galli
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Empacado

O texto fluía bem, leve e solto, em que pese as descrições técnicas, os gráficos, as tabelas e a aridez do tema. De repente empaca, como um muar com seus arreios carregados diante da ponte estreita. Puxa daqui, empurra dali e nada. Não anda. Retorno ao texto depois de algumas horas de intervalo, revejo os parágrafos que podem ser aprimorados, tento retomar o cronograma abandonado pela manhã mas, como o muar, o trabalho permanece estático. Há três dias tento, sem muita vontade, e também convicção, terminar o relatório ambiental de uma conhecida e alemã cidade gaúcha que tem, nesta quinta-feira, o prazo limite para a sua entrega.

Prazenteiro como tantos outros trabalhos que já realizei, este certamente não é. Tampouco é o primeiro a empacar pouco antes do final, como o teimoso muar.

Não anda porque não consigo organizar a minha mente, invadida por pensamentos das mais variadas índoles: não devo me preocupar porque a qualquer momento chega a inspiração que falta para a conclusão dos últimos parágrafos; falta muito pouco e felizmente ainda tem mais um dia de prazo; amanhã cedo, com a mente mais descansada eu termino; vou parar de bater cabeça e começar a fazer o que me dá mais prazer; vou sair para dar uma volta em busca do ócio da inspiração; em vez de escrever sobre este enfadonho assunto, que nem sei se alguém vai ler, vou escrever mais uma crônica ou terminar alguma das inúmeras que já comecei; e tantos outros. Aborrecido e preocupado percebo que, paralisado, perco o meu tempo e, consequentemente, momentos da minha vida. De maneira rompente fecho o meu MacBook Air e decido sair para uma caminhada na agitada Avenida Paulista de final de expediente.

Passa um pouco das dezessete mas o sol ainda se mostra ativo nesta longa tarde de primavera no horário e temperatura de verão. Os termômetros apontam trinta e cinco graus. Sigo em direção ao Paraíso e no caminho ligo para o António convidando-o para uma Oak IPA num dos  food trucks estacionados na praça em frente ao Shopping Paulista. Não aceitou o convite mas insistiu para que eu, depois da cerveja, passasse em seu apartamento para um bate-papo e uns palpites na reforma que vem realizando para dividir em dois o seu amplo apartamento de mais de duzentos metros quadrados.

Ao passar em frente à Escola Estadual Rodrigues Alves, já chegando ao Paraíso, quando me prendia à sua arquitetura imponente me veio à mente recordações dos meus tempos de colégio. Lembrei-me dos meus professores de matemática, história, física, química e, principalmente, do professor Cotrin, de português, um dos meus queridos mestres. Talvez por conta do meu trabalho não terminado por falta de alguns parágrafos que não consigo escrever ou expressar com ordem e método pensamentos com informações técnicas.

Das minhas aulas de português eu me lembro muito bem. O professor Cotrin, verdadeiro mestre e amigo de todos, era muito exigente mas ao mesmo tempo carinhoso, orientador, guia e companheiro que caminhava passo a passo com seus alunos. Para mim sempre foi um exemplo de dedicação, participação, dignidade e afeto. A alegria que demonstrava quando um aluno apresentava uma boa redação ou superava alguma dificuldade, corroborava essas suas  virtudes.

Toda semana pedia uma redação aos seus alunos, sobre temas dos mais variados mas por ele escolhidos a dedo para que pudéssemos superar dificuldades. Foram com essas redações que eu comecei efetivamente a escrever, a dar expressão às minhas observações e aos meus pensamentos e sentimentos.

Embora fossem tarefas semanais, as minhas redações eram quase sempre concluídas na noite anterior ao dia da entrega, ou da leitura, uma vez que o velho mestre sempre sorteava três alunos para ler suas redações para os demais. Não raras vezes, para a minha aflição e quase desespero, como hoje ocorre com o meu trabalho, algumas redações também emperravam à poucas horas da entrega.

-----------  Boa tarde. Estou vendo que hoje a chopeira tem três torneiras. Você está servindo  outra Oak além da Pinsen e da IPA?

Perguntei ao rapaz do beer truck, que demonstrou me conhecer ao me perguntar se eu estava retornando a pé da Saúde, como havia feito há dois sábados e lá parado para repor as energias.

-----------  Caminhando outra vez?

-----------  Sim, um pouco. Vou tomar uma cerveja e seguir até a casa de um amigo que mora aqui perto.

-----------  Hoje nós temos três cervejas de barril, Pinsen, IPA e witbeer. O problema é que só tenho copos de meio litro, os de 300ml terminaram há pouco.

-----------   Dê-me, então, uma IPA de meio litro. Farei um esforço para não deixar 200ml sobrando no copo.

Foram quase trinta minutos saboreando aquela iguaria observando as árvores, as pessoas  nos bancos descansando sob suas copas, alguns pássaros, muitas pombas e incontáveis escriturários, executivos, contínuos, secretárias e, porque não, desocupados como eu, que passavam ao meu lado, uns apressados, outros desatentos e alguns alienados na tela do smartphone.

Ninguém parecia se dar conta food trucks e tampouco das frondosas árvores da praça. Caminhavam de um lado para o outro como se atravessassem um extenso túnel com o único objetivo de chegar ao mesmo pré-estabelecido, repetido e monótono destino de todos os dias.

Pelo menos, não empacam.

Estão voltando do trabalho e talvez por isso também tenham me chamado a atenção. Estou formalmente aposentado há dezoito anos mas ainda me apego ao trabalho. Também gosto de observar e me relacionar com os que trabalham e estão sempre dispostos a enfrentar problemas, tem atividades construtivas, aptidões e conhecimentos para estarem sempre avançando e dando uma nova amplitude à vida. Alguns me convidam para compartilhar o seu trabalho, outros me inspiram.

Ao longo do caminho até o Paraíso e durante a pausa saboreando a Oak, o exercício físico, a lembrança de amigos, a recordação de outras prazenteiras caminhadas, a observação do ambiente por onde já passei nem sei quantas vezes, a Escola Estadual Rodrigues Alves, a consciência dos momentos que estavam sendo vividos, em que pesem alguns reincidentes pensamentos sobre o paralisado relatório que havia ficado no meu computador, relaxaram o meu físico, alegraram a minha alma e reconfortaram o meu espírito.

Depois do breve intervalo e o copo vazio, deixei a praça rumo ao apartamento do António, não mais que oitocentos metros dali.

Reforma grande. Depois de concluída, e pelo jeito vai demorar um pouco visto que é conduzida por um único mestre de obra que cumpre as funções de pedreiro, encanador, eletricista e pintor, ficará muito boa. Os dois novos apartamentos terão espaços bem definidos, distribuídos,  de bom gosto e, certamente, oferecerão conforto aos moradores. Espero que a obra não empaque no final.

Depois de alguma conversa sobre as paredes da cozinha, os equipamentos dos banheiros, os armários dos quartos e um saboroso cafezinho, acabei agraciado com uma carona até a minha  casa. No caminho conversamos um pouco sobre os meus trabalhos e as viagens necessárias para desenvolve-los. Combinamos que em alguma dessas viagens, de preferência ao Sul, o António poderá me acompanhar. Quem sabe para Porto Alegre, onde devo ir no final de novembro. Poderá ser divertido. Uma forma de melhor aproveitar a capital gaúcha, não apenas trabalhando mas, também, passeando e desfrutando da arquitetura, gastronomia e amizade.

A tarde que parecia perdida e aborrecida, acabou se tornando prazenteira e me propiciando momentos de recordação e amizade. O tempo afinal foi bem aproveitado, embora o meu trabalho continue parado. Quem sabe amanhã o consiga terminar.

Confesso, entretanto, que estou um pouco preocupado com a possibilidade de ter sido convencido pelo mal, ao abandonar o meu trabalho. Forte e competente, o mal muitas vezes se disfarça de bem. Apresentou-me a oportunidade de sair, recordar momentos, reviver amizade e escrever esta crônica, mas não me deixou terminar o meu trabalho.

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