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Eiruzu (PinducaF68)

04/05/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Eiruzu, na língua dos guaranis, quer dizer abelha. O Administrador, em seus períodos de vida na fronteira Brasil/Paraguai, teve a oportunidade de acompanhar a rotina de trabalho de muitos grupos de paraguaios, e assim conhecê-los melhor. O que lhe permitia afirmar que o povo paraguaio era obreiro e trabalhador como uma "eiruzu", ao contrario das muitas insinuações que recebeu ao chegar à região de fronteira, onde foi trabalhar em meados da década de 70.

 

Uma rotina, em especial, o impressionou muito : a dos trabalhadores na floresta, cuja tarefa era pesquisar palmo a palmo os setores da mata. Iam marcando quais as espécies que estavam em condições de corte, sua quantidade e volume aproximado em metros cúbicos de toras, abrindo o caminho para equipes que os seguiam, com outras funções e mais recursos, já com veículos e equipamentos.

 

Os "descubiertadores", como eram chamados, iam à frente do processo. Moravam em tendas de lona armadas no meio da mata, e sua rotina se iniciava com o dia ainda escuro, longe do sol nascer. Nessa hora eles tomavam seu "desayuno" e preparavam o farnel para o dia. O farnel era o "reviro", feito com farinha de mandioca e o resto do "puchero" comido na tarde anterior, ficava um tipo de farofa ou paçoca, muito gordurosa e energética. Ela seria consumida durante o dia de trabalho, aos punhados, acompanhada do tereré, tipo de chimarrão frio. O café da manhã era de "galletitas" de semolina, duras como pedra e por isso mesmo fáceis de armazenar e transportar, mas difíceis de consumir, só mesmo ficando de molho no "cocido", mistura de erva mate e leite em pó, preparados com água quente.

 

Antes de sair para o trabalho, deixavam em preparo para o jantar do dia o indefectível puchero. Sobre uma trempe de pedras onde queimava um bom tronco de madeira ficava a panela, com água e o puchero salgado (pedaços do osso do espinhaço ou da costela de gado, com restos de carne, gordura e o tutano). Aquilo ficava cozinhando até o meio da tarde, quando o pessoal voltava do trabalho na mata e lhe dava um acabamento, colocando temperos, cebola, batata ou o que estivesse disponível. Ficava uma sopa saborosa e muito nutritiva, mas quem não estivesse acostumado corria o risco de se impressionar, pois durante o dia acabavam caindo muitos insetos dentro da panela : borboletas, abelhas, grilos, moscas, até escorpiões. Mesmo retirados, a sensação de tê-los visto ali não era boa.

 

O Administrador volta e meia ia acompanhar o trabalho dos descubiertadores, o que o obrigava a longas caminhadas pelas picadas na mata. Uma nova ferramenta veio ajudá-lo nessa tarefa : era uma pequena motocicleta, uma Kawasaki 100 cc, com a qual ele podia andar pela floresta como se estivesse a pé, mas com maior rendimento.

 

Naquele dia ele foi até onde estava a equipe, no meio da mata, no fim do trilheiro. Parou, mas antes de descer da moto, sentiu-se rodeado de abelhas, que não paravam de chegar. Cabelos, braços, pernas, pescoço, rosto, tudo foi se cobrindo de insetos, atraídos pelo suor. Ele ficou literalmente coberto de abelhas, da cabeça aos pés, elas lhe entravam pelas narinas, pelos ouvidos, pela boca entreaberta para respirar. Pânico. Mas uma única lembrança das aulas de apicultura dominou seu pensamento : não ter movimentos bruscos que pudessem ferir ou matar um único inseto, pois isso desencadearia uma reação violenta de defesa por parte dos demais, o que poderia matá-lo com as picadas. Pouco a pouco, com movimentos para a frente e para trás, ele conseguiu virar a moto, colocando-a no rumo de sair, começando a deslocar-se lentamente pela trilha. As abelhas o seguiam zumbindo, alvoroçadas. À medida que o caminho ficava melhor e a velocidade ia aumentando, elas começavam a se soltar, mas o seguiam pela mata. Ao chegar à estrada principal a velocidade foi ficando maior e elas se soltavam, umas após as outras, procurando outro destino. Ao atingir os trinta quilômetros por hora ele já estava livre, podia até sorrir, apesar de estar suando frio. Mas só parou bem longe, já chegando à serraria, onde teria como se esconder.

 

Mas a lição ficou : seja com abelhas, seja com paraguaios, seja com quem for, movimentos e decisões bruscas podem precipitar reações mais violentas ainda, há que se cuidar sempre.


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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