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Dois Agrônomos (Estampilha F68)

16/11/2015 - Por paulo antonio petraquini greco
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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DOIS AGRÔNOMOS

Foram moleques na mesma época.

Na época em que ser moleque, não era pejorativo.

Jogavam, entre outras coisas, o jogo de bolinhas de vidro.

Disputavam as batalhas, palmo a palmo.

E discutiam ferrenhamente.

Sempre:

─ Ticou!

─ Não ticou!

E brigavam. Também, quase sempre.

Desta forma, adquiriram o salutar hábito da discussão.

Discussão cartesiana. Porém, discussão eterna.

Um dia se tornaram Engenheiros Agrônomos.

Um deles enveredou pelo intricado da adubação química.

O outro tratou de estudar e praticar a conservação de fertilidade e da fertilização natural da santa terra.

E continuaram a discutir.

Agora já não eram tão cartesianos.

A ciência, a tecnologia e o tempo haviam se encarregado de fazê-los pensar a discutir em perspectivas mais abertas.

Mas havia sempre alguma coisa a despistar.

E quando não chegavam a um acordo, voltavam às rígidas ordenadas cartesianas.

─ Ticou!

─ Não ticou! 

Certa noite tomaram o trem noturno para irem a Campinas.

Cada um à sua repartição.

Sentaram-se no vagão restaurante.

Pediram uma cerveja.

Como já não eram tão cartesianos, pediram, a seguir, muitas cervejas. 

Não foram dormir.

E continuaram a discutir:

─ O solo é um cocho, onde nós colocamos comida forte e rápida para a planta comer e poder crescer, dizia o fertilizador químico.

─ Santa heresia! Será que ainda tem gente que não vê que a mãe terra, quando bem conservada e bem estercada, nos dá tudo o que queremos? Ela não é um cocho. É um complexo vivo.

Vociferava assim o conservacionista.

─ Pois é. Se eu for adubar a terra com titica de galinha, cada um de nós terá que comer cinco ovos por dia. Só quero saber quem é que vai comer nove ovos num dia, porque eu, por exemplo, só consigo comer um. 

Digo isto só para se ver quanta galinha tem que titicar para contentar os conservacionistas.

Mas o conservacionista também era bom em projeções:

─ E até quando vamos ter petróleo e outros minerais para substituir titica de galinha?

─ E a que preço?

─ Sem falar na qualidade.

Além do mais, poço de petróleo é estéril - só tem mineral.

Falta-lhe vida e além de ser caro, está distante de nós.

A discussão era realmente interminável.

A noite não.

O garçom anunciou melancolicamente que as cervejas e a viagem haviam terminado.

Lamentava.

Trouxe a conta.

Recebeu e foi cuidar de outros afazeres, com a cabeça cheia de fórmulas de adubação, de incertezas e de titicas. 

Hoje, a discussão daqueles agrônomos continua atualíssima.

Porém, em geometria aberta.

Mas, naquele dia, sentados em bondes com destinos diferentes, os dois agrônomos gritaram, de longe, um para o outro:

─ Ticou!

─ Não ticou!

O tempo passou.

Os dois agrônomos tiveram filhos.

Por sinal dois (um de cada) que também se tornaram agrônomos. 

E por obra e graça do destino, aconteceu o inesperado:

─ O filho daquele que trabalhava com isso, foi trabalhar com aquilo.

─ E o filho daquele que trabalhava com aquilo foi trabalhar com isso.

Um dia os dois filhos-agrônomos se encontraram.

(Há que dizer que acompanhavam de há muito a contenda entre os dois moleques-pais-agrônomos)

Disse o primeiro:

─ Não ticou!

O segundo respondeu:

─ Pô. Vê se não chateia, porque eu já conheço esta história.

E foram ao bar. 

Esvaziar cervejas. 

Sem titicas e sem radicais.

E não cartesianas. É lógico.

 

 Paulo Greco (Estampilha F68) Engenheiro Agrônomo ex Morador da Republica Mosteiro 

 

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