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Dicotomias, Democracia e Tirania (ditadura). O possível caso brasileiro (Jeep; F84)

20/02/2018 - Por alberto nagib vasconcelos miguel
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Se você, por curiosidade, leu A República de Platão, deve lembrar-se que ele, em sua busca por um estado perfeito, acreditava ser a Aristocracia o ideal. Ele, porém, mostrava como o estado ideal, controlado desta forma, lentamente se degenerava a outras formas de controle. À degeneração da Aristocracia sobrevinha a Timocracia. À ela se sobrepunha a Oligarquia, que por sua vez dava lugar à Democracia e, finalmente, à Tirania.

Esta aparente sequência de controle estatal parece estar ligada, em muitos momentos, à busca incessante em que todos nós nos envolvemos, que é por bem materiais. Para maiores esclarecimentos, convém ler o referido autor e seu livro.

Aceleramos nossa leitura aos tempos de Krishnamurti e discutimos algo imprescindível para se conhecer a natureza humana: a vontade de pertencer. Desde tempos imemoriais, por razões biológicas-evolucionárias, sentimos a necessidade de pertencer a um grupo. Mal comparando, uma vaca só se sente confortável em meio a seu rebanho, uma galinha sabe seu lugar em um galinheiro, e o ser humano sente a necessidade de pertencer a algo maior.

Esta vontade de pertencer perdeu seu caráter biológico na medida em que o ser humano foi se afastando de seus primórdios, quando perambulava em bandos, e passou a se estabelecer em sociedades mais ou menos organizadas, dentro de comunidades imóveis. Esta transição também aconteceu sob a perspectiva do "pertenimento", agora chamada de "condicionamento". Uma perspectiva sócio genética evolucionária.

Somos condicionados, desde o nascimento, a pertencer à religião de nossa família, às suas crenças, à uma nacionalidade, um grupo étnico, um partido ou uma ideologia. Mas porque precisamos hoje, em pleno século XXI, pertencer a um grupo? O que este grupo trás, a nós, de benefício? Porque não podemos simplesmente sermos indivíduos, tendo a humanidade como um todo como sendo nosso grupo?

Sob o ponto de vista evolucionário, é bom que pertençamos a grupos, já que estes grupos nos trazem proteção e segurança, algo que indivíduos autônomos deixam de ter. Assim, nos mantemos atrelados aos grupos aos quais estamos condicionados, com raras exceções.

Qual é o lado negativo disto? O que esta segregação entre os grupos trás de desvantagem para a humanidade. Peguemos o caso de Barack Obama, como ilustração. Ele é considerado por todos como o primeiro homem negro a governar o mais poderoso país do mundo, os EUA. Mas quantos de nós nos lembramos que sua mãe era branca? Ele é igualmente negro ou branco, mas A SOCIEDADE decidiu quem ele era. A nossa sociedade nos condiciona e nos diz quem somos. E esse condicionamento é muito difícil de ser suprimido.

Outra situação típica dessa vontade de "pertencer a um grupo" vem em dias como o Dia de São Patrício, patrono da Irlanda. Enormes massas vão às ruas comemorar tal dia, em todos os quadrantes do mundo, mas quantos deles são, de fato, irlandeses? Somente os nascidos lá. Mas isso não impede que cada uma das pessoas do mundo, nascidas nos mais diversos países, se reconheçam como "irlandeses", mesmo que com um-sessenta-e-quatro-avos de sangue desta nacionalidade.

Vem, então, o orgulho e a estima de que você faz parte deste grupo ou daquele, especialmente se for um grupo de prestígio. Sua necessidade de autoestima é encontrada ao pertencer aquele grupo, que o (a) faz sentir orgulhoso (a) por pertencer. Além disso, precisamos ter conhecimento e entendimento de como as coisas funcionam e identificando se com uma religião ou ideologia nos faz ter um senso de identidade.

Krishnamurti fala:

                "Enquanto houver qualquer forma de identificação com a família, com uma nacionalidade, com um dogma, uma crença, obviamente teremos separação. Se eu me identifico com a Índia, com seu passado, com suas religiões, com seus dogmas, com sua nacionalidade, eu estou obviamente construindo um muro em volta de mim mesmo através da identificação com algo que, eu acho, é maior do que mim mesmo". Ele continua:

                "Certamente a questão não é se a família ou grupo são separatistas, mas por que a mente se identifica com algo e, por este motive, cria a divisão? Porque eu me identifico com a Índia? Porque se eu não me identificar com a Índia, com a América, com o Ocidente ou Oriente, seja qual for sua vontade, eu estarei perdido, eu me sentirei sozinho, abandonado. Esse medo de se sentir sozinho, abandonado, me força a me identificar com minha família, com minha propriedade, com uma casa, com uma crença. É isso que está criando separação, e não a família. Se eu não me identifico com algo, quem sou eu?

Eu sou ninguém".

Certos condicionamentos podem gerar violência. Em especial os condicionamentos adquiridos através das chamadas identidades verticais, ligadas às nossas raízes (religião, dogma, classe social etc.). As identidades horizontais raramente começam situações violentas, mas podem acelerar estas situações dependendo do grau de fanatismo que temos por elas (exemplo, uma pessoa gosta de jazz e outra de samba).

Quando a identidade de um grupo se torna dominante, uma série de processos começa: o primeiro processo é o "Nós contra Eles". Não é possível existir um "Nós" sem um "Eles". A identidade de um grupo precisa de algumas fronteiras e, por causa disso, não existiria um grupo se não existissem as pessoas fora dele. Os indivíduos fora do grupo dominante são considerados inferiores, diferente e, pior ainda, uma ameaça. Aí começam os conflitos.

Narrativas, criadas para manter a coesão destes grupos, são extremamente perigosas quando entendidas e percebidas como verdades. Narrativas não são fatos. Narrativas não são história. Narrativas são estórias e devem ser somente percebidas como tal.

"Nós sabemos as causas de uma Guerra e mesmo uma criança em idade escolar pode percebê-las: ganância, nacionalismo exacerbado, a busca pelo poder supremo, fronteiras geográficas, conflitos econômicos, patriotismo, uma ideologia tentando se sobrepor a outra, seja ela de direita ou de esquerda, e outros.  Essas causas da Guerra são criadas por mim e por vocês. Guerra é uma expressão espetacular de nosso dia a dia, não é verdade? Nós nos identificamos com um grupo em particular, seja ele nacional, religioso, ou étnico por que nos dá um senso de poder. E poder, inevitavelmente, traz catástrofe. Vocês e eu somos responsáveis pela Guerra, e não Hitler ou Stalin ou algum outro super líder. É uma expressão conveniente dizer que capitalistas ou líderes insanos são responsáveis pela Guerra. No fundo, cada um de nós quer ser rico, cada um de nós quer ser poderoso. Essas são as causas da guerra pela qual eu e você somos responsáveis. Eu acho que é muito claro que a guerra é o resultado de nossa existência diária, somente mais espetacular e mais sanguinária" - diz Krishnamurti.

A dicotomia encontrada hoje em todos os níveis de nossa sociedade provém exatamente da narrativa de duas ideologias diferentes, aliadas ao nosso condicionamento sobre qual é o nosso "grupo" nessa mesma sociedade. Esquecemos que somos, em verdade, uma só sociedade, cuja divisão vem sendo causada pela ideologia de grupos e pela busca incessante por poder e riqueza.

O resultado esperado, depois da guerra que se conflagrou em nosso país, pode ser um pouco preocupante. É alarmante o fato de que um dos candidatos mais cotados para vencer as eleições majoritárias e ocupar o cargo mais importante do Poder Executivo seja alguém que apregoa sem tréguas o radicalismo de idéias e o comportamento ideológico unilateral, como se em uma sociedade não coubessem diferenças de opiniões. É mais alarmante ainda observar que a porção mais esclarecida desta mesma sociedade está se posicionando abertamente a favor desta candidatura, numa reação típica de um grupo mal informado, cujos fatos estão baseados em narrativas e não na história. Com esse grupo, milhões de pessoas com pouco esclarecimento e educação são levados a acreditar que, com eles está a solução para o nosso Estado.

Em tempo: depois da Democracia vem a Tirania. Que eu esteja errado quanto a isso. Que Deus (e todas as outras deidades) tenha piedade de todos nós.

Alberto Miguel - Jeep F84

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