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CORDÃO DE FRADE (Pinduca F68)

04/06/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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 CORDÃO DE FRADE

 

O Pesquisador soubera que haveria mudança no direcionamento do trabalho na empresa. Diretoria e Gerências novas haviam detectado forte necessidade de treinamento das equipes de vendas e mesmo de desenvolvimento de produtos. Mas não seriam simples treinamentos inconseqüentes, ouvia-se falar : quem não se saísse bem nos testes, teria sua posição questionada, haveriam demissões.

 

Num mercado que evolui rapidamente, o treinamento das equipes é fundamental, e o Pesquisador, chamado a colaborar, dedicou-se com afinco a preparar os materiais : transparências, slides, tabelas, e tudo o mais que fosse necessário. Na data marcada lá estava a equipe da regional, mais de vinte técnicos reunidos numa sala de hotel do interior do estado de São Paulo, um certo nervosismo no ar, pois toda mudança traz insegurança. Abertura formal, panos quentes para acalmar os ânimos e logo a seguir a primeira pancada : pré-teste, para avaliar o nível geral e melhor orientar o andamento do treinamento, o que tomou o resto da tarde. À noite os preletores foram chamados a colaborar na correção dos testes, que só foi terminar lá pelas duas da madrugada, com um resultado preocupante : menos de 30% de acertos na média geral, o trabalho nos próximos dias seria árduo.

 

Dia seguinte, relação de notas nas mãos, o Gerente abriu a jornada com uma admoestação :

 

- Colegas, a empresa espera muito deste treinamento. Peço a vocês, de coração, que acreditem que esta semana será fundamental para o sucesso de nossas carreiras e para a empresa. Apliquem-se a ele profundamente, não podemos nos dar ao luxo de sair daqui com dúvidas e incertezas. A média de acertos no pré-teste foi péssima, há muito a melhorar. Por exemplo, é essencial saber identificar as plantas daninhas corretamente. Se nosso trabalho é vender e aplicar produtos que controlam as plantas daninhas, o mínimo que nossos clientes esperam de nós é que saibamos reconhecer e identificar as plantas daninhas que são problema em suas propriedades. Houve uma questão no teste, que quase ninguém respondeu : qual o nome científico da erva conhecida como "cordão de frade"? Quem se anima a responder ?

 

-                                                                     (Silêncio na sala).

 

- Será que ninguém sabe o nome científico do cordão de frade?

 

-                                                                     (Silêncio mortal na sala).

 

- Alguém do time de desenvolvimento de produto, por favor!

 

-                                                                     (Silêncio e mal estar).

 

- Meu Deus do céu! Pesquisador, você sabe, eu tenho certeza, por favor responda.

 

Após longa pausa :

- Cordonis franciscanus.

 

A gargalhada foi geral, não pela graça da resposta, mas pelo inusitado e pela tensão, longamente reprimida. Ao que o Gerente respondeu, alterado, desfechando um soco na mesa à sua frente, rachando-a ao meio :

 

- Puta que o pariu, Pesquisador, até você?. Não esperava isto de sua pessoa!

 

- Perdão, meu Chefe. Não tive intenção de ofender. É que eu acho que um vendedor de herbicida precisa conhecer a erva daninha, saber seu nome comum, identificá-la desde a germinação até a senescência, mas não necessariamente saber seu nome em latim. A nossa equipe, que faz pesquisa e desenvolvimento de produto, deve saber isso, e tenho certeza que todos sabem que o nome científico do cordão de frade é Leonotis nepetaefolia. Nós vamos a congressos, apresentamos trabalhos, elaboramos relatórios para nossa matriz, estamos envolvidos diariamente com isso, temos que saber. Os vendedores não, isso pode até ajudar numa venda, mas é supérfluo.

 

- Vocês todos concordam com o Pesquisador ?

 

- SIM. (Em uníssono, sem ter sido combinado).

 

- Ótimo então, pularemos esta parte do treinamento, vai sobrar mais tempo para o que é importante.

 

O Pesquisador poderia ter perdido o emprego com a resposta que deu, mas a grandeza e a coerência do Gerente foram maiores do que a emoção de ter sido desafiado em público. 


Marcio João Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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