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Como será o amanhã?

27/05/2020 - Por antonio carlos rodrigues da silva
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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                                                            COMO SERÁ O AMANHÃ?

                                                             Antonio Carlos R. da Silva

                  Engº Agrônomo F-67, Mestre em Administração Pública, APG-Amana

 

Não é de hoje a inquietação do ser humano em saber o futuro que o espera. Atualmente, no entanto, essa questão virou unanimidade diante das consequências da presença do Covid-19 praticamente no mundo todo. Há quem diga que o mundo parou, até quem lembre do filme "O feitiço do tempo com Bill Murray (Phill) em que há uma simulação sobre todos os dias serem iguais, nesses tempos de quarentena.

Oscar Motomura, Ceo da Amana-Key, neste final de abril, analisou a atual conjuntura num webinar Quais os cenários do "novo normal" no período pós crise? Várias perguntas foram encaminhadas dias antes pelos "apegeanos", como são chamados os que participaram ou ainda participam dos eventos da Amana. Tomando como referência esse evento, compartilho aqui alguns pontos que me pareceram mais relevantes pois podem nos proporcionar um necessário aumento do nível de consciência para esse momento tão difícil para todos. Predomina a incerteza, mas não existe volta. Será?

Inicialmente Oscar faz referência a inevitável reinvenção da democracia na era da Internet diante da falência da democracia representativa no mundo todo. As eleições continuarão sendo entre os que contam com mais recursos financeiros ou entre pessoas comprometidas pelo bem comum? Seria possível utilizar a Internet para dar um necessário salto de qualidade no processo eleitoral? Essa discussão não está começando do zero, mas o momento pede urgência em se pensar numa nova democracia para o século XXI que estabeleça critérios que permitam a escolha dos mais sábios para a ocupação de cargos, principalmente públicos. Alguns países já sinalizam avanços. A Educação deve contemplar a formação de seres humanos melhores, capazes de fazer diferença em prol do bem comum. Bons exemplos no mundo não faltam. A Estônia é lembrada hoje na otimização do uso da Internet na vida do país. 99% dos serviços são online e a população confia no sistema. O cidadão inclusive sabe quem acessou informações a seu respeito.

Quanto a questão da economia, é sugerida a transcendência do "econômico tradicional" com inevitáveis fusões de ramos e até a reinvenção de ramos inteiros. Se isso já está ocorrendo no mundo todo, pós pandemia deve experimentar uma velocidade extraordinária dada a presença irreversível da Internet. Com possível emergência de empreendedores do bem comum, é previsível a fusão também do público com o privado na busca da superação do PIB pelo FIB (Felicidade Interna Bruta). Para Oscar essa superação implica na mudança da régua de medir a prosperidade. Mudando a régua, muda tudo! O que quero com o meu negócio? Ele está direcionado ao bem comum? São perguntas que cada um vai ter que fazer para sobreviver como empreendedor. Com a recessão, alguns economistas americanos estão discutindo, quem sabe, um novo "ismo": a alternativa da prosperidade sem crescimento, posicionando a Vida em primeiro lugar na busca da evolução do todo, sem exclusões. Lembrou Oscar do analista ambiental Lester Brown ao mencionar a postura obsessiva nesse modelo de produção em buscar um crescimento infinito com recursos naturais finitos. A conta não fecha!

Há uma tendência, conforme o Ceo da Amana-Key, na direção de uma reavaliação do essencial e um declínio do supérfluo. A ênfase deve ser dada na evolução da Educação, Saúde e Segurança contando com parcerias entre governos, empresas e sociedade civil organizada, gerando produtos e serviços que resgatem valores e a ética. Essa tendência aponta, certamente, para um empreendedorismo que promova a Vida, a Paz, a Justiça Social e Econômica e que assegurem Integridade Ecológica. Recentemente Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza chamou a atenção para o fato de as abordagens eficazes sobre os cuidados com os recursos naturais junto a crianças e adolescentes tem se mostrado imprescindível para garantir a formação de cidadãos conscientes e evitar que no futuro aconteçam crises sanitárias como a que o mundo atravessa hoje. Segundo Malu, além do surgimento de vírus e outros organismos trazidos por animais que se vêm obrigados a sair de seus habitats naturais por conta da deterioração da biodiversidade provocada pelo homem, outros temas envolvendo a biodiversidade ganharam holofotes nos últimos meses. Dentre eles ela aponta as recentes queimadas na floresta amazônica e o avanço rápido do aquecimento global. (FL, 02 e 03 de maio de 2020, p.6).

Essa crise evidencia a encruzilhada em que o mundo está. Ninguém hoje é capaz de dizer como será daqui para frente. A atual crise sanitária deve passar como já parece estar ocorrendo em alguns países. O que virá depois? Teremos outras, quem sabe, até piores? Três alternativas excludentes foram rapidamente consideradas no webinar: retorno ao normal, o meio termo ou, a cura de todos os "sistemas doentes" que geram crises cada vez maiores. Muitas forças tentarão a volta ao que está doente.  Seria querer voltar num mundo que já não mais existe. É fantasia. Seria como insistir em aplicar o mesmo remédio que mostrou ineficaz, para a mesma doença.  O "meio termo" é aquela coisa morna que fica no meio do caminho. O caminho do meio, diz o CEO, é o da mediocridade.

Vejamos os caminhos possíveis e desejáveis para a cura dos "sistemas doentes" que prevalecem no mundo, alguns com ponderações e estudos recentes de Fritjol Capra e Hazel Henderson.

Fritjof Capra, austríaco, é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. e tem dado palestras e escrito extensamente sobre as aplicações filosóficas da nova ciência. Entre os vários livros escritos destaca "O ponto de mutação".

 Hazel Henderson, inglesa, é uma iconoclasta futurista e economista. É autora de vários livros, incluindo "Construindo um mundo em que todos saem ganhando".

Alguns pontos que foram lembrados no webinar:

  • Transição do mega/global para o pequeno/local. Valorizando talentos.
  • Resgate do senso de comunidades; vilas urbanas autossuficientes
  • Comunidades com produção local do essencial de forma circular
  • Produção local de energia (somente renovável)
  • Zero utilização de combustíveis fósseis (em poucos anos)
  • Multiplicação de cooperativas atendendo necessidades básicas
  • Resgate de parceria ser humano-Natureza (integridade ecológica vivenciando o pertencimento)

Somos parte da Natureza, lembra Oscar e completa: "arrogantemente, achamos que o que construímos é melhor do que a Natureza sem ainda entendê-la"

  • Reversão do desmatamento; reconstrução da Natureza
  • Recuperação dos mananciais de água (consumidos por monoculturas e agroindústrias tradicionais)
  • Produção de alimentos baseados em plantas e não em animais
  • Produção de agricultura em água salgada (plantas halófitas)
  • Quebra do monopólio das redes sociais ( redes de utilidade pública)
  • Resgate do escambo, serviços voluntários, moedas locais
  • Reinvenção dos serviços financeiros através de cooperativas e bancos sociais
  • Emergência de empreendedores (MPEs) focados no bem comum
  • Reinvenção do governo em sociedades que tomam conta de si
  • Ampliação da Justiça Social e Econômica

(Zero exclusão/desigualdade)

  • Equilíbrio masculino-feminino na sociedade como um todo
  • Cultura da Paz/Não Violência, valorização da Vida
  • Reinvenção da saúde pública com ênfase na prevenção
  • Emergência de novas forma de democracia no mundo todo
  • Resgate da ética e valores na sociedade como um todo

E quanto à liderança pós crise? Que liderança é esperada para atuar nesse ambiente "doente" não pela pandemia, mas pelo que já é obsoleto? Oscar inicialmente destaca o Autoconhecimento como uma característica fundamental e a eliminação de "condicionamentos", os antolhos que limitam enxergar a realidade.

Outo ponto fundamental lembrado são os doze papéis do líder que vem sendo analisados nos APGs Amana-Key, programa de gestão avançada que acontece desde 1993. São os papéis que o líder deve procurar desempenhar simultaneamente na busca incessante da excelência. São eles:

O líder como Estadista, olhando o todo e atento aos demais como o Estrategista, o Agente de Transformação, o Catalizador de Resultados, o Arquiteto de Processos e Atuando em Rede, o Técnico, o Diplomata, o Negociador, o Educador, o Líder de Líderes, o  Exemplo e o líder como o Cultivador de Valores.

Outro ponto lembrado trata da relevância das novas lideranças "entenderem de gente" o que exige competência humana. Senso de julgamento/sabedoria nota 12, isso mesmo, nota 12! com conhecimentos gerais dos setores público, privado e de toda a sociedade civil. Também são lembrados além da capacidade de aprender e se atualizar principalmente o mundo digital e novas carreiras.

Uma das perguntas feitas era: a liderança hoje: deve motivar ou ser realista? Realismo e transparência que anima e motiva, devolve Oscar. Enfrentando novos desafios, "equações impossíveis" e uma efetiva participação política de todos numa nova democracia. Que envolva todos os pontos levantados (tendências) por Capra e Hanzel citados anteriormente.

Nesse sentido, oportuno se torna lembrar do atual movimento do grupo C-40 de não retorno a "normalidade" denominado Futuro Mais Sustentável que já envolve 40 das principais cidades do mundo (no Brasil participam São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba) contemplando uma população de 750 milhões de pessoas.

No seu romance Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago torna transparente uma realidade. Ele atesta que uma pandemia pode mudar tudo, pode mudar o mundo e, portanto, pode mudar as pessoas. Mas nem tanto. Ela revela aquilo que o ser humano é. Ao comentar essa obra, o jornalista londrinense Marcos Losnak (FL, 29 de abril de 2010, p.31) lembra que o escritor português via na epidemia, mormente durante o necessário isolamento social, um momento de exceção. Nele o homem (e, no caso, principalmente a mulher) explicita ética, amor e solidariedade. Nesse momento, no entanto, o autor revela também que a normalidade das coisas é alterada e os homens podem ser acometidos por uma peculiar cegueira: a falta de visão humanitária. Um tipo de cegueira em que tudo que interessa é salvar a própria pele, defender os próprios interesses, preservar o próprio patrimônio, ganhar o jogo político, defender determinada ideologia, enfim, promover o pandemônio em vez de apaziguar a pandemia. No livro, é bom lembrar, o cenário é desolador onde o Estado nada mais faz, simplesmente deixa de existir. As soluções são criadas pela sociedade.

É uma metáfora que permite ver as ambiguidades do ser humano e aponta essa desejada liderança que o CEO da Amana sugere como tendência e que a obra de Saramago destaca na mulher do médico: a única que não foi contaminada e, portanto, a única que consegue enxergar e atuar com as característica aqui discutidas para enfrentar a crise.  Vale ler/reler o romance.

No filme Feitiço do Tempo, as coisas só mudam, quando Phill muda.

Procurando responder a questão inicial, como será o amanhã, lembramos da música O Amanhã com a cantora Simone: ....responda quem puder... Oscar sugere um exercício para todos: que respondam o que falariam para vocês mesmos a 25 anos atrás, mas acha ele que o melhor talvez esteja na música consagrada por Doris Day há tempos: ...que será, será, ...  aquilo que for será....

                                                                                                   Londrina, maio de 2020

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