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Comercio de Fronteira (Pinduca F68)

14/02/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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COMÉRCIO DE FRONTEIRA

 

A tranqüila tarde na Fazenda Itamarati foi agitada quando encostou defronte ao escritório uma Mercedes reluzente, placas do Paraguai, ladeada por duas caminhonetes cheias de uns homens mal encarados. Sêo Zé Guarda veio trêmulo avisar da visita :

 

- Dr.Nomura, o "Homem" está aí e quer lhe falar!

 

Ele se referia a poderoso negociante da fronteira Ponta Porã/Pedro Juan Caballero, dono de empresas, fazendas e do casino local, havia boatos de que era contrabandista...

 

O Administrador já ia saindo da sala quando o chefe, preocupado com os motivos da visita, o mandou ficar.

 

Redondezas checadas pelos seguranças, o "Homem" apeou da Mercedes e entrou, educadíssimo e extremamente elegante, botas de cano alto reluzentes como a Mercedes. Cumprimentos formais, tomando assento, ele disse a que vinha :

 

- Doutor Nomura, peço perdão pela visita de surpresa, mas eu precisava lhe pedir um favor. Como é de seu conhecimento, possuo uma criação de suínos e também um haras, que consomem muito milho, que está escasso na região. E me foi informado que a Fazenda dispõe de um grande estoque de milho. Não seria possível me fornecer alguns caminhões? Pago bem e à vista. Para a Fazenda é uma gota d´água, mas para mim é muito importante, será um grande favor...

 

- É coisa de muita urgência?

 

- Não, ainda tenho milho para algumas semanas, estou só me adiantando, antes que vocês resolvam vender todo o estoque.

 

- Então está bem, assim é melhor. Temos que consultar a diretoria em São Paulo, mas acho que não haverá problema. Até a próxima semana daremos uma resposta.

 

Quando se consultou a diretoria a resposta foi clara :

 

- Podem vender o milho. Mas se o pagamento for em cheque e ele não tiver fundos, vocês pagam...

 

A situação era difícil : deixar de vender seria uma ofensa. Vender e receber em cheque seria arriscado. Mas vender e exigir pagamento em dinheiro vivo poderia também ser interpretado como desconfiança e ofensa. Passaram-se três semanas sem resposta, até que um mensageiro trouxe um recado : o milho estava acabando. Dr.Nomura resolveu ir dar pessoalmente a resposta e convocou o Administrador para acompanhá-lo na missão.

 

Foram admitidos no escritório do negociante e revistados. Passaram por mais duas salas até chegar onde ele os esperava : ampla  sala, grande escrivaninha, cadeiras altas e atrás da cadeira dele um armário envidraçado cheio de armas! Ele se desculpou pelas formalidades e por não se erguer para os cumprimentar :

- Doutor Nomura, perdão pela inconveniência, mas é necessária. Semana passada nos descuidamos e uns senhores entraram armados aqui, só que não conseguiram me acertar direito (mostrando marcas de bala na parede e um grande curativo na perna). Nem posso erguer-me para cumprimentá-los. É um prazer recebê-los aqui. E o milho?

 

- Espero que entenda. A Fazenda pode lhe vender o milho. Mas como ele foi dado como garantia de empréstimo aos bancos, não poderemos emitir nota fiscal, então o pagamento terá que ser em dinheiro.

 

- Ótimo, não vejo problema. E quando posso mandar carregar?

 

-Amanhã mesmo.

 

Dia seguinte cedinho, três caminhões chegaram. Enquanto carregavam o milho, o dinheiro que haviam trazido numa sacola de viagem era contado. Dinheiro conferido, caminhões liberados, sensação de alívio.

 

Mas a gentileza nunca foi esquecida. Bastava uma visita ao casino para que o negociante demonstrasse sua gratidão, ano após ano : era só entrar, que garçons se aproximavam com as bandejas, tudo por conta da casa. Com os seus cumprimentos.


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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