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Chartreuse (Jairo Teixeira Mendes Abrahão F63)

03/03/2016 - Por jairo teixeira mendes abrahão
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Dr. Octávio Teixeira Mendes, Professor Catedrático de Mecânica e Máquinas Agrícolas da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” e sua mulher Dona Leonina Marques Mendes tiveram quatorze filhos, sendo a primogênita Maria Elisa, também conhecida por Sinhá, melhor ainda, Sinhazinha, em virtude da existência de uma tia, irmã de Octávio, que também era Sinhá. Sinhazinha, minha mãe. 

Dr. Octávio era uma figura misteriosa, às vezes assustadora, portador de inteligência invulgar, era um homem feio. Dizia-se em sua juventude que um grupo de piracicabanos, ilustres, que se reunia com certa frequência para conversar e tomar cerveja, decidiu instituir um prêmio para o homem mais feio de suas relações: um canivete! O laureado, ao encontrar alguém mais feio, em reunião solene que aprovasse a questão, receberia o troféu. Vovô morreu com o canivete! Talvez aí resida meu amor por canivetes! Mesmo misterioso, às vezes assustador e feio era uma pessoa encantadora, nas opiniões femininas! 

Muito preocupado com a quarta Necessidade Básica do Homem, a EDUCAÇÃO, Professor nato, criou um Curso para candidatos ao ingresso na ESALQ, sempre muito difícil. Para tanto construiu em sua casa, um “sobradão” da rua Rangel Pestana, um salão de quinze metros de comprimento e largura que não me lembro de ter ouvido citação. Mas, conhecendo seu espírito matemático não fica difícil saber: só podia ser aquela determinada pela Relação Áurea! Esta era a sala de Aulas! E os Alunos? A maioria era de estudantes pobres, que não podiam pagar! Não foi problema: estudariam de graça! E, 

ainda havia quem perguntasse por que não enriqueceu! Um desses alunos “bolsistas”, Abelardo Secarelli veio a ser meu Professor de Física no Sud. 

Esse homem magnífico tinha, evidentemente, repentes dignos de gênio ( hoje, certamente seria chamado de “gênio”! ). Um desses repentes foi a razão deste texto e de seu título. Vovô, com tantos predicados tinha que ter um “Diário”! Nele anotava os principais acontecimentos de cada dia. Um desses é digno de se conhecer. Apreciador de cerveja, Antarctica, é claro, era também um “connoisseur,” sabia muito de bebidas alcoólicas. Pois bem. Certa noite, tempestuosa, cheia de relâmpagos, acordou, repentina e intempestivamente, despertando, também, Leona, como tratava, carinhosamente, sua mulher, que o viu levantar-se, abruptamente, apoderar-se de seu “Diário” e dirigir-se ao seu escritório. Já pensaram em uma noite escura e tempestuosa, acordado como que em transe, o homem do Canivete como deveria ser, no mínimo, preocupante? Algum tempo depois, volta do escritório e dorme como se nada houvesse acontecido! No dia seguinte Dada, que era como tratávamos vovó Leonina, perguntou-lhe sobre a noite anterior. Tomando seu café e acendendo um “Castelões” ( dessa marca foi o meu primeiro cigarro! ), disse, pausadamente: Leona, sonhei com um abade, francês! Dada, grande conhecedora do marido, aguardou a continuação em silêncio. Esse abade, de cujo nome não consigo me lembrar, disse-me, em francês, é claro: Octávio, quero que você me faça um favor, anote a receita que vou lhe ditar, prove-a em seu laboratório e me informe o resultado! Era uma receita do Liqueur Chartreuse!!!! Vou montar um pequeno laboratório e ver o que dá! O que deu foi um laboratório que só cresceu com 

suas experiências. Já aposentado e doente, residia à esquina da rua São João com a Rangel Pestana, hoje rua Dr. Octávio Teixeira Mendes, casa maravilhosa que não mais existe. Tinha um porão que correspondia, exatamente, ao andar térreo ( o terreno era declivoso ). Ali havia quartos, banheiro e um salão de uns quarenta metros quadrados, com um balcão de laboratório químico onde ocorriam as experiências e as paredes, três, com prateleiras de alto abaixo, cheias de garrafinhas incolores, de quinhentos mililitros, cheias de um líquido dourado com rótulos brancos contendo informações, manuscritas, que só ele entendia. Sua letra era maravilhosa!! 

Quando de sua morte, o velório ocorreu na própria residência, como era costume naqueles anos quarentas. Fomos de Brazópolis a Piracicaba de taxi, conduzido habilmente pelo chauffer Peres em cerca de quinze horas! Chegamos por volta das vinte horas. Nós crianças fomos encaminhadas para o porão para repousar. Foi a primeira vez que vi o Laboratório! Que coisa maravilhosa! Aquele ambiente escuro, aquelas retortas e erlemeiers, as prateleiras ... e, lá em cima meu avô, morto!!! Será que alguma criança dormiria? 

Nessa mesma casa residimos alguns meses quando de nossa ida definitiva para Piracicaba, gentileza de Mariinha, Maria Celestina, irmã mais velha de minha mãe. Mais de uma década depois da morte de vovô. Os licores, envelhecidos, estavam muito melhores!!! 

Tudo isto me veio à memória por encontrar, em uma loja muito boa de bebidas, aqui de Porto Seguro duas garrafas de Liqueur Chartreuse: uma de quarenta e uma de cinquenta graus alcoólicos. Claro, comprei as duas! 

Jairo Teixeira Mendes Abrahão, Professor Titular da ESALQ-USP. 

De Porto Seguro, BA em 01/03/2016. 

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