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Canto ao Rio Grande (Otávio F68)

07/04/2016 - Por carlos otávio lourenço jorge
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Canto ao Rio Grande

(Um arremedo de Payada*...)

 

(Para declamação com pilcha* completa e violão dedilhado ao fundo, estilo Lúcio Yanel*...)


Do Rio Grande, confesso - não sou nativo.

Nasci longito lá nas lombas das Gerais,

Rincão vasto, de povo simples mas altivo,

Pago das serranias, peraus e minerais.

 

Bueno, a indiada de lá - vai me perdoar,

Mas nesta roda amiga de charla e matear,

Quero trovar com pecho aberto e emoção:

Mineiro de berço, pero gaúcho de coração!

 

A vida é que nem estrada, curta ou esticada,

Que nem soga, trançada com os tentos da sina

Que vai pealando os viventes nessa jornada,

Sem dó - o taura, a china ou o piá, tudo se fina...

 

Pois um dia tomei dela no de repente, bagual corcovelaço

E fui - sem trova e a cabresto - (por mando da chefia!)

Rumo sul em maio, com inverno aprochegante em galopaço

E aqui, de tranco, solito no Salgado apeei um dia.

 

Entonces, a laço e espora, e por ordem do patrão

Empecei lida com a peonada, vendendo ração, viajando,

Pois digo - sempre fui guasca, cuiudo mas fiel peão

E com meu petiço baio a motor no rincão peleando,

Varei do Alegrete a Torres, do Iraí ao Jaguarão.

 

Pechei gringo, alemão e índio de toda laia

Cada qual - mais escondendo os pilas

Mas todos, que nem munheca de samambaia

Fazendo de suas tripas coração

Se acoitando por entre as vilas

Pra se livrar de comprar ração...

 

Marcando a tiro e fogo as do sul - boas lembranças,

Fui certa vaza caçar capinchos e perdigões

Pros dias - como de hoje - de lembrar andanças

Pelos campos, banhados, sangas e espigões.

 

Assim amei a vasta querência, do Sul Rio Grande,

Do mate, do fogo de chão e de prendas lindaças,

Chinocas faceiras como queres que Deus mande,

Te tirando do sério se por elas descuidado passas...

 

 

Amei o arroz carreteiro - e o de Caxias, galeto

Com salada de rúcula e com vinho da Campanha!

E de norte ao sul o malpassado corrido espeto

De costela de ripa, do matambre e da picanha!

 

O espinhaço de ovelha nova ensopado no aipim...

Ah! minha doce ambrosia, papos de anjo celestiais

As cucas, chimias e as tortas dos cafés coloniais!

E de abusar e lambuzar, um cachaço virei assim!

 

Mas lembrando o vate mestre - o Braun, Jayme Caetano:

- "Faz parte do meu passado!" - já ele mui veramente dizia!

E hoje me carneia a soledade do frio bafejo do minuano,

 

Da bela Porto Alegre, do Bairro Floresta, de Canoas, de Vacaria,

De Nova Prata, de Canela e de mais quantas do altiplano,

Mas bah! - mateasse aqui por mais tempo, velho xiru me tornaria!

 

(Um dia qualquer de 1994).

 

  • Homenagem aos ex-colegas de Purina pelos saudosos tempos em que trabalhamos juntos no RS e SC.
  • Tributo a Jayme Caetano Braun, o Vate Campeiro da nação gaúcha...

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Explicações necessárias (para os mais pacientes...)

*Payada (em Espanhol - ou Pajada em Port.) é um estilo de poesia declamada, de forte tradição no RS, Argentina, Uruguai e Chile. De origem europeia antiga, vinda com os povoadores, foi adaptada à temática campeira com o típico linguajar gauchesco. Não se atribui um país específico de origem desse gênero artístico.

Geralmente as payadas são declamadas com acompanhamento de um músico de apoio, normalmente com violão ou acordeom (ou gaita ponto dos gaúchos), fazendo fundo.

O  Payador ou Pajador é o artista da payada, o declamador. O maior deles no Brasil é Jayme Caetano Braun (*São Luiz Gonzaga, RS, 30/1/1924   +Porto Alegre, 8/7/1999), também famoso nos países vizinhos. Deixou considerável obra literária, payadas em estilo regionalista clássico, que atribui ao gaúcho gloriosa aura de herói campeiro com histórica trajetória, nobre, valente, guerreiro, rei das coxilhas e fazedor de fronteiras, juntamente com suas chinas, seu querido cavalo crioulo e seus usos e costumes. A obra de Braun é idolatrada na cultura tradicionalista e indiscutivelmente referencial no gênero.

Tem até o Dia do Pajador, no RS. Festejado em 30 de Janeiro. Criado pela lei estadual 11.676/2001, prestando homenagem a Braun, eleito Patrono do Movimento Pajadoril, surgido a partir daí.

 

*Lúcio Yanel (*Corrientes, AR, 2/5/1946__), argentino radicado no RS desde 81. Violonista autodidata de fama internacional, é considerado um dos alicerces do violão solista na música regional sulina. Um mestre. Yanel foi o mais ilustre e tradicional acompanhador das payadas de Braun.

*O escrevinhador desses versos era gerente de vendas na empresa de rações Purina em Ribeirão Preto, SP, e foi transferido para a unidade de Canoas, RS, em maio/81, onde trabalhou na mesma função por quase 4 anos naquele Estado e em SC. O mencionado "petiço baio a motor" era um saudoso Chevette 80/81, Bege Sahara, chamado na família de "Herói" pois sobrevivia e desempenhava quase sem manutenção........

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*Glossário gauchesco por ordem de aparecimento no texto (para os mais pacientes ainda...)

 

Pilcha - conjunto das várias peças do traje típico do gaúcho tradicional - bota, bombacha, camisa manga longa, guaiaca, pala, lenço, chapéu ou boina etc.

Longito - meio longe.

Lomba - aclive, subida, morro.

Rincão - trecho de campo mais resguardado, onde se pode levar os animais a pastar em segurança, onde haja água e árvores de sombra. Usado também significando lugar, lugar remoto, região, local e também no mesmo sentido que pago e querência.

Pago - terra natal, de origem.

Perau - abismo, pirambeira, precipício na montanha.

Bueno - (Esp. = Do Espanhol - bem, bom).

Indiada - conjunto de índios. A palavra "índio" é usada como sinônimo de gaúcho campeiro, do pampa e tem conotação positiva. "Indiada" é usada no sentido de povo, gente, turma, peonada, gauchada, pessoal, galera, "gentarada"....

Charla - conversa, prosa, bate-papo.

Matear - tomar chimarrão.

Trovar - contar prosa, conversar.

Pecho - (Esp. - peito).

Pero - (Esp. - mas, porém).

Soga - corda grossa trançada com tiras de couro cru ou de crina.

Tentos - tiras finas de couro cru para amarração e cordame.

Pealar - laçar pelas pernas e derrubar.

Vivente - pessoa.

Taura - gaúcho valente, forte, respeitado, enérgico, que está sempre disposto a tudo.

China - termo abrangente e usado em vários sentidos. Mulher índia, ou mulher com traços físicos característicos das mulheres indígenas. Cabocla. Mulher morena. Mulher de vida fácil. Esposa. Mulher de modo geral....................

Piá - guri, garoto.

Bagual - cavalo alongado, asselvajado, que não aceita montaria (Sent. fig. - bruto, selvagem, "animal").

Corcovelaço - corcoveio forte, pinote do cavalo xucro para derrubar o cavaleiro.

Sem trova - ser obrigado, sem poder questionar nem discutir.

A cabresto - à força, compulsoriamente, na marra.

Aprochegar-se - chegar perto, aproximar-se.

Galopaço - galope, o passo mais rápido do cavalo.

De tranco - de repente, imediatamente.

Solito - sozinho.

Salgado - Aeroporto Salgado Filho, Porto Alegre.

Entonces - (Esp. - então).

A laço e espora - com muito esforço e dificuldade, a muito custo.

Empecei - (Esp. - comecei).

Peonada - turma de peões da fazenda, trabalhadores braçais de uma  obra (Sent. fig. - equipe).

Guasca - (Esp. - tira de couro), tira, corda de couro cru, tento. Homem destemido.

Cuiudo - ou colhudo - cavalo inteiro, não castrado, com os "colhões" intatos. (Sent. fig. - homem valente, atrevido, que não se intimida.

Petiço - cavalo de pequeno porte mas confiável, habituado à lida e que dá conta do recado.

Baio - cavalo de pelagem bege ou amarelada tendo a crina, meias e cauda mais escuras que o corpo.

Pelear - lutar, guerrear, disputar, (sent. fig. - trabalhar intensamente, labutar, esforçar-se, "ralar").

Varar - cruzar, atravessar.

Pechar - afrontar, confrontar, encarar, enfrentar, peitar.

Gringo - colonos italianos e seus descendentes. Não se incluem açorianos, portugueses e outras etnias nesse termo.

Alemão - colonos alemães e seus descendentes.

Pila - dinheiro, a "moeda dos gaúchos".

Acoitar-se  - esconder-se.

Vaza - vez, oportunidade, ocasião.

Capincho - ou carpincho - capivara.

Banhado - ou tremedal - pântano, brejo, área pantanosa.

Sanga - curso d"água pequeno, menor que um arroio (riacho).

Querência - (Esp. - "Querencia") Lugar onde se criou ou vive alguém. Tem mais sentido de "lar", o lugar para onde sempre se quer voltar. "Pago", "Rincão" e "Querência" às vezes são usados com a mesma acepção geral de "terra natal", embora haja diferenças sutis entre os termos.

Fogo de chão - antiga tradição de braseiro permanente no chão batido do galpão crioulo nas estâncias, para esquentar a água do chimarrão e para assar uma carne. Em torno dele a peonada se reunia para charlas, payadas, contar causos, cantorias e música. 

Prenda - nos bailes e eventos da tradição gaúcha, é a mulher que faz par com o peão, devidamente paramentada. Usa-se também com a acepção de mulher bonita e honesta.

Chinoca - outro termo abrangente e usado em vários sentidos. Derivado de "china". O sentido no texto é na acepção de mulher nova e bonita, garota, "mina". Mas também é usado para mulher idosa, "china" velha. E ainda como apelido carinhoso para "china" e até como sinônimo desta.

Campanha - região sudoeste do RS, ao longo da fronteira com o Uruguai, tendo como principais cidades Bagé, Dom Pedrito e Santana do Livramento. Topografia plana ou suave, originalmente voltada exclusivamente à criação de gado. Hoje mais diversificada, incluindo vitivinicultura. É o "pampa" gaúcho.

Matambre - corte de carne magra e pouco espessa entre o couro e a carne da rês. Originado do Espanhol "mata hambre", mata fome, porque é o primeiro corte que se tira.

Espinhaço de ovelha - corte do pescoço até o lombo com as vértebras, corresponde aproximadamente ao mais conhecido suã de porco.

Chimia - ou schmier - tipo de doce de frutas, semelhante a geleia, para passar no pão, bolo etc..

Café Colonial - tipo de refeição farta e tradicional nas regiões de colonização alemã, com pães, cucas, tortas, chimias, coalhada, queijos, embutidos, doces, chocolate, chás, leite, café etc.

Cachaço - macho suíno reprodutor. (Sent. fig. - homem muito gordo).

Carnear - abater, esfolar, retirar as vísceras e retalhar em peças o animal de corte para consumo ou para produzir charque (sent. fig. - retalhar, fatiar, cortar).

Soledade - solidão, saudade, nostalgia.

Minuano - vento frio do inverno, que vem do sudoeste.

Bah! -  forma abreviada de - Barbaridade! Expressão para demonstrar surpresa, espanto, admiração, incredulidade e outras. 

Xiru (ou Chiru) - velho gaúcho do campo, em geral descendente de índio, contador de causos, metido a sábio e a "filósofo de galpão"....

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