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Belém Brasília (Pinduca F68)

09/10/2015 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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A viagem estava programada há meses, mas o Universitário nem pensava em fazê-la, apesar de insistentemente convidado. Ela seria muito cara e ele não tinha dinheiro. Mas as férias de julho estavam chegando e o Amigo 7 não estava encontrando companheiros para a viagem tão esperada : São Paulo, Goiânia, Brasília, Belém, São Luiz, Teresina e todo o litoral do Nordeste até Salvador, voltando a São Paulo. Seria usada uma kombi nova, comprada exclusivamente para aquilo. Em parte pelo custo, em parte pela duração (quase um mês) e em parte pelo nível de aventura, até o finzinho de junho apenas um rapaz se comprometera a fazer a viagem com o Amigo 7. Na véspera da partida o Amigo 7 veio ao Universitário e lhe propôs :

 

- Preciso de pelo menos mais um parceiro nessa empreitada. A parte mais cara dessa viagem será o combustível do carro, pois o resto será barato : vamos dormir e cozinhar na kombi mesmo, então não se gastará com hotel e restaurante. Se você conseguir alguns mantimentos em casa, macarrão, latarias, café, açúcar, óleo, e se você tiver um dinheirinho para alguma despesa extra, eu garanto a tua parte no combustível e nós estamos prontos para sair amanhã cedinho. Você topa?

 

Novamente alguns cruzeiros ganhos no aniversário, somados às contribuições da mãe e das irmãs e a um desfalque na despensa da casa, permitiram ao Universitário partir na manhã seguinte para uma incrível viagem, acompanhando o Amigo 7 e outro colega, o Fábio.

 

Em Goiânia um quarto viajante juntou-se ao grupo, o Melão, recém conhecido estudante de agronomia, natural de Uberlândia. Conhecida Brasília, kombi revisada, tomou-se a Belém-Brasília rumo a Gurupi, onde a primeira parada do trecho foi feita na fazenda do recém admitido Melão, sem novidades, a não ser a visão do onipresente Cerrado. A partir daí a viagem endureceu : três noites em plena estrada, dormindo na kombi e cozinhando nas beiras de córregos, de água mais que cristalina. Foram mais de 2000 quilometros de estrada de terra, pura "costela de vaca", nome dado às pequenas ondulações transversais à pista, que faziam a kombi vibrar como um liquidificador.

 

A posição para dormir era em revezamento : o viajante dormia uma noite no chão da kombi, de onde havia sido retirado o banco do meio; no dia seguinte ele dormia no banco de trás; no terceiro dia o sono era de novo no chão, mas no quarto dia era um suplício tentar dormir no banco da frente, entre a direção, a alavanca do cambio e o freio de mão! Durante as noites havia o receio de que pessoas e mesmo animais se aproximassem e tentassem alguma ação, então sempre se escolhiam locais afastados da rodovia, em estradas de acesso a fazendas ou atrás de matas ou colinas, o que dava certa privacidade e tranqüilidade para o sono. O que era reforçado por algumas armas que o Amigo 7 trouxera. 

 

Foi incrível acordar certa manhã, em meio à mata amazônica, dia clareando, e quando começavam a fazer o café viram aparecer de dentro de uma picada na mata um homenzinho descalço, cigarrinho de palha no canto da boca, que parecia o próprio Jeca Tatu, acompanhado por seu cachorro. A tiracolo estava uma espingarda, daquelas de carregar pela boca, chamadas "rabo de cutia". Convidaram-no a se achegar, e enquanto se coava o café, se fazia o leite em pó e se fritavam algumas fatias de pão amanhecido, ele contou sua vida : era caçador de onças, contratado por fazendeiros da região para acuar e matar as pintadas que faziam estrago nos rebanhos de gado. E deviam ser eficientes, ele e o cachorro, pois ainda estavam ambos vivos, apesar das cicatrizes.

 

Vivos como os viajantes chegaram a Belém, apesar dos caminhões de gado que dominavam o trafego na Belém-Brasilia : nas longas descidas onde sempre havia uma pontezinha no fundo, daquelas de dar passagem a um só veiculo, se um caminhão de gado vindo em sentido contrario desse um sinal de luz, piscando o farol, podia-se sair da frente e esperar. Ele vinha com tudo e não respeitava nada. Quando ocorria de dois caminhões virem em direções opostas, eram comuns os acidentes, pois nem sempre dava para frear a tempo. E quem mais sofria eram os bois da carga, pois muitas vezes os motoristas pulavam da boléia antes da batida. Chegaram a ver algumas cabeças de gado, mortas em acidente, sendo carneadas e levadas a algum açougue nos vilarejos da estrada, para venda.

 

A chegada a Belém foi tranqüila, apesar da falta de combustível nos últimos quinhentos quilômetros, onde muito os ajudou se juntarem a uma caravana de prefeitos de todo o país, que iam a uma reunião em Manaus. Um cartaz do congresso de prefeitos pregado na kombi e a história inventada de que o Amigo 7 era filho do prefeito de uma cidade do interior de São Paulo,  acabaram facilitando a obtenção de gasolina para a viagem.

 

Difícil foi sair de Belém, pois naquele período de revolução, o exército retinha os documentos de qualquer veículo que chegasse à cidade, só autorizando a sua saída após comprovação de autenticidade, através de contatos com o Detran de origem, o que era demorado e confuso. Novamente ser "filho de prefeito" foi fundamental para agilizar os trâmites.


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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