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BALSAS (Pinduca F68)

23/05/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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BALSAS

 

Frustrada a tentativa de compra de terras na amazonia, o Pesquisador se viu diante de uma nova incumbência, que seria uma epopéia. Havia o interesse do grupo de que fazia parte, que decidira que a compra de terras seria um bom negócio. Havia os recursos disponíveis. Havia tempo, pois não gastara ainda nem quatro dos vinte dias de férias que pedira. Por que não avaliar outras possibilidades ali mesmo no Maranhão? E havia os rumores de um novo Eldorado, que começara a ser desbravado alguns anos antes, e que no momento enfrentava séria crise, devido aos baixos preços do arroz, principal cultura de abertura de terras novas. Esse Eldorado era a região de Balsas, no sul do Maranhão.

Contactos feitos, informações tomadas, nome e endereço de corretor anotados, lá foi o Pesquisador no ônibus de São Luiz a Balsas, viagem estimada em 24 horas, graças às chuvas, que obrigavam a fazer o trajeto por Teresina e Floriano, uma volta enorme. Desnecessário é dizer que uma viagem dessas é folclórica : pelos passageiros, pelas paradas, pelas paisagens, por tudo, enfim. Vinte e duas horas depois o ônibus encostou na "rodoviária" de São Raimundo das Mangabeiras, última parada antes de Balsas, cansaço extremo mas também alívio, a viagem estava perto do fim. Um movimento desusado dos passageiros chamou a atenção do Pesquisador, que também ergueu-se e foi saindo do ônibus, para dar uma esticadinha nas pernas. Mal acabou de sair (fora o último) viu o motorista desligar o motor, apagar as luzes e começar a fechar algumas janelas do ônibus, que estavam abertas. Curioso, perguntou :

 

- A que horas chegamos em Balsas?

- Saindo daqui pelas seis da manhã, lá pelas oito e meia estaremos lá.

- Amanhã????

- É! Aqui é ponto de dormida, amanhã a gente segue.

- Mas dormir aonde?

- No hotel ali, junto do bar.

O motorista se referia a um vasto alpendre, contíguo ao balcão do bar, onde os demais passageiros já armavam suas redes em providenciais esteios. A corrida para sair do ônibus era para pegar os melhores lugares, mais protegidos de eventuais chuvas de vento.

 

- Mas eu não tenho rede, prefiro dormir no último banco do ônibus.

- Negativo, o ônibus fica trancado, está cheio das coisas dos passageiros. O senhor arruma alguma rede emprestada.

- Então me dê minha mala, que se não conseguir rede, pelo menos arrumo algum jornal ou papelão, e uso a mala como travesseiro.

Aberto o compartimento, mala retirada, o Pesquisador incrédulo encostou-se ao portal do "hotel" e começava a maldizer a vida, a profissão, os "sócios", quando encostou um táxi ao lado do ônibus, cujo motorista perguntou :

 

- Vou de retorno pra Balsas, alguém quer ir? Faço baratinho, é só pra não ir sozinho.

 

Apresentaram-se três desesperados, entre eles o Pesquisador. Acertado o preço, bagagem alojada, a sensação de alívio foi grande, ao deixar para trás as "luzes" de São Raimundo das Mangabeiras.


Marcio João Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

 

 

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