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Balão (Pinduca F68)

06/01/2016 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Era dia 30 de Junho de 1961, aniversário de Rosa, irmã do Menino, que curiosamente estava na maternidade, onde nascera Beatriz, a mais nova integrante da família.

 

Naqueles dias era muito comum soltar balões nas festas juninas, apesar das proibições, que começavam. A maior parte não era como os balões que ainda hoje são vistos, eram menores e mais simples : a molecada se juntava, fazia uma "vaquinha", comprava o papel de seda e em algumas horas estava pronto o balão. Usava-se cola de farinha de trigo e havia balões dos mais diversos modelos : caixa, almofada, pião, mexerica, bola, careca de padre, conforme o corte e a coladura feita no papel. Um pedaço de arame era a boca, onde ia presa também com arame, a mecha, feita de saco de aniagem e encharcada com vela derretida, obtida a duras penas na igreja de São Geraldo.

 

Soltar o balão era um acontecimento na vizinhança : alguém subia num muro para segurar pela ponta de cima, enquanto outros abriam os gomos e abanavam pela boca em baixo, para o balão encher. Uma vez cheio e conferidos os gomos e as coladuras, a ver se não havia risco de abrir e deixar escapar o ar quente, colocava-se a mecha, ensopada em algo inflamável : álcool dava uma chama azulada, gasolina queimava quase vermelho, alaranjado. Posto o fogo na mecha, aguardava-se um tempo para começar a queimar bem forte, enchendo o balão com o ar quente. Como era mágico ver, em instantes, o balão "pedir" para subir : ia ficando leve, leve, e de repente forçava as mãos da garotada, querendo alçar-se ao céu. Um a um os meninos iam soltando os gomos, enquanto o "dono" do balão o equilibrava nas mãos, até que suavemente o deixava subir, mensageiro de sonhos infantis.

 

Mas muito melhor do que soltar balão era correr atrás deles. Seria uma forma de sentir o que o futuro reservava, representado pela mágica forma de um balão a cair do céu? Já ao levantar, uma olhada para o tempo permitia avaliar como seria o dia : conforme a direção do vento haveria mais ou menos possibilidade de caírem balões nas redondezas. Ventos soprando do Rio Tietê eram prenúncio de muitos balões caindo por perto, mas balões pequenos e mais simples, vindos de bairros pobres. Ventos soprando das Perdizes e Sumaré eram prenúncio de poucos balões, mas balões grandes, pois vindos daquele lado, só sendo muito bem feitos para alcançar a Barra Funda.

 

Naquela sexta feira 30 de Junho, o vento era para trazer balões grandes, de trinta folhas ou mais. Mas o clima tenso em casa, por causa da irmã na maternidade, não permitia ao Menino dedicar-se a acompanhar o vai e vem dos balões no céu. Mas isso não o estava preocupando muito, pois o grande movimento deveria ser no dia seguinte, sábado : fim do mês, últimas festas juninas, ninguém queria ficar com balões em casa, eles eram soltos em profusão.

 

De repente a gritaria na rua : "O balão vai cair aqui na "vila"." (pequena rua sem saída no numero 346 da Alameda Olga). O Menino correu para o fundo da casa, no quintal, mas não viu nada pois o balão estava vindo pela frente, ainda escondido pelos sobrados. Subiu no muro e se deparou : mecha apagada, inclinado, tipo pião, pelo menos 32 folhas, branco/acinzentado pela fuligem da queima da mecha, raspando os telhados, rumando para a casa 18 da vila. Avaliou : pulo dois muros e estou na casa 18, sozinho, este não me escapa, nunca tinha pego um balão tão grande. Chegou ao muro da casa 18 e o balão adernou para a outra casa, ao mesmo tempo em que começavam a chegar meninos, por todos os lados. Mais um muro e o balão caiu : o Menino e um outro garoto, ombro a ombro, ambos da mesma altura, a disputa ia ser difícil. Fração de segundo, a decisão : se pularmos juntos vamos rasgar o balão. Empurrão no amigo, que rolou no chão, mão na boca do balão e um sopro para apagar os últimos lampejos da mecha : o balão era dele, inteirinho dele.

 

Anos depois, ao mostrar o troféu ainda guardado, para filhos e netos, o sentimento seguia sendo misto, de satisfação e de vergonha, pois o episódio havia ensinado ao Menino duas coisas : há situações em que para ter sucesso somos tentados a empurrar ou pisar em alguém que esteja no nosso caminho. Mas a satisfação do sucesso assim obtido será sempre maculada pela vergonha de ter empurrado alguém para pegar o balão sozinho. Manter o balão inteiro não é justificativa.


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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