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As Repúblicas (Drepo F70)

08/12/2015 - Por eduardo pires castanho filho
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Na época em que estudamos em Piracicaba estava- se vivendo o término de uma "tipologia" de repúblicas, ou moradias coletivas de estudantes de agronomia.

Eram habitações de muitas pessoas que normalmente utilizavam casarões decadentes construídos no início do século XX, ou final do anterior.

A cidade que se tornaria um polo industrial no final dos "90, até os anos 70 era pacata e pouco industrializada. A verticalização recém começara e sofrera um baque com o desabamento parcial do COMURBA, cujo esqueleto assombrava a praça principal da cidade.

Nossa república era perto do CALQ, na Tiradentes e ao redor dela havia várias outras com características semelhantes; o Mosteiro, a Adega, o Vai Kem Ké, o Mau Xêro, a Poioca, a Soroca, o Casarão. Um pouco mais longe a Jacarepaguá, a Senzala, o Pito Aceso.

Algumas eram de uma escassez franciscana em suas instalações. Outras até que lembravam habitações humanas. Várias delas não tinham sequer fechaduras. Umas eram dedicadas às discussões filosóficas, outras ao carteado, algumas ao ativismo político, outras ao etilismo e às paqueras, porque sem exceções eram redutos masculinos. As repúblicas femininas começavam a aparecer, mas as mistas ainda não existiam.

De modo geral, o centro nevrálgico dessas casas era a gigantesca mesa que ocupava o centro da sala.

Era uma espécie de palco multiuso: refeições, discussões, reuniões, conversas, às vezes até rituais.

Seja como for foram locais de convívio e de formação de cidadania, de tolerância, de companheirismo e de resolução de conflitos.

Criavam uma atmosfera descontraída e de colaboração, mesmo com as inevitáveis rusgas derivadas das características pessoais. O uso comum de objetos e até de roupas contribuíram para reduzir bastante os egoísmos e individualismos inerentes às formações de cada um e a transformar seus moradores em cidadãos mais generosos.

Em 69 nossa república se deslocou para a esquina da Benjamim com a Voluntários, num casarão grande, mas mais moderno, que tinha um grande porão que foi ocupado pelo Catarina (era o reino dele). Morávamos ainda, eu, Zé Ricardo, Barraca, Flibus, Zanaga, Maurício, Odd, Cacau e Fico, os dois últimos estudantes de Economia. Depois chegaram o Pima e o Toni, da F 73.

No último ano o local era um dos mais movimentados da cidade. Além dos dez que morávamos lá, em frente havia um prédio onde havia a Três Porquinhos, com mais quatro colegas- Chicão, Boca Rica, Germano e Canarinho e outra república feminina, com a Olinda e a Angi. Visinha a nós havia mais uma república feminina, enfim era uma "comunidade".

Na esquina diagonal existia uma reminiscência de armazém piracicabano, daqueles que vendiam de tudo o nada, com três portas enormes, de duas folhas cada uma, abrindo para a rua. Dentro uma mesa de mini sinuca, um balcão de vidro e um monte de caixas de cerveja empilhadas de qualquer jeito. Mas, cerveja tinha e bem gelada.

Toda tarde havia um ritual. As escadas do armazém eram ocupadas pelos "habitantes locais" e a coisa se esticava até a hora da janta. Não raras vezes havia ajuntamentos maiores, com cantoria e tudo o mais.

Nunca houve intervenção policial no local.

Eduardo Pires Castanho Filho (Drepo F70) Engenheiro Agrônomo, Ex morador da Republica do Pau Doce

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