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Amanhã a gente brinca filho

05/11/2018 - Por joão henrique mantellatto rosa
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A palavra “sucessão” está relacionada à “sucesso”. É a continuidade de uma coisa que está dando certo. É diferente de “substituição”, onde há uma troca ou reposição de elementos. No âmbito da gestão empresarial, o termo “sucessão familiar” aparece com frequência, afinal, estima-se que 80% das empresas brasileiras são familiares (Pesquisa de Empresas Familiares do Brasil – 2016, PWC).

Na maioria das vezes, entretanto, a questão do “sucesso” acaba por ficar apenas na etimologia da palavra, já que boa parte das empresas “quebram” ao longo do processo sucessório. Sendo mais preciso, de acordo com a mesma pesquisa apenas 12% dos negócios sobrevivem a terceira geração familiar.

Como para tudo temos que encontrar um culpado, ainda que exista uma série de fatores no contexto da sobrevivência das empresas, a “corda tende a estourar para o lado mais fraco” e quem paga a conta pelo insucesso, em geral e com boa parcela de razão, são os mais novos. Acredito que você já tenha presenciado conversas sobre o legado de determinado negócio familiar, onde a dúvida que paira no ar é: “Quem vai tocar a empresa quando o véio(a) bater as botas”? Em geral ela é acompanhada pela resposta fuxiqueira e despretensiosa, que inclusive já sabe a resposta, mas que coloca para instigar: “Acredito que o filho/filha/neto/etc..., não?”. É neste momento que vem o “Ihhh, se depender deles, o veío(a)  lascado. Essa nova geração só quer saber de <adicione aqui o seu adjetivo com conotação negativa>”.

Mas e quando a nova geração está disposta a participar? Quando os mais novos querem colaborar trazendo algum tipo de inovação que pode contribuir com a empresa, será que há uma receptividade positiva da velha guarda? Será que eles estão dispostos à mudança? Ou será que pensamentos como: “O que esse moleque quer me ensinar? Faz 30 anos que faço dessa forma e está dando certo. Tem muito que aprender ainda. A vida ensina, etc...”.

É como se fosse a extensão da clássica cena da infância em que o pai cansado “enrola” o filho que quer brincar prometendo “o amanhã a gente vai”. Quantas vezes presenciei situações em que a nova geração propõe melhorias – como o desenvolvimento de simples planilhas em substituição ao habitual caderninho (isso quando ele existe) – e como resposta obtêm um “amanhã”, só que em um novo contexto.

Evidente que a experiência é importante, que o “sempre fiz assim e dá certo” conta. Mas, ser resistente a mudança e não dar nem chance para a “molecada” tentar não é o caminho, além de ser um contrassenso em muitas situações. Vamos a outro exemplo que convivo, o ambiente rural, cujo tema sucessão familiar, inclusive, é latente e rodeado de desafios, afinal, “como manter os jovens no campo hoje em dia”. O pai, produtor rural, que “comeu o pão que o diabo amaçou” e não finalizou os estudos, conseguiu, a muito custo, proporcionar a oportunidade para o filho cursar engenharia agronômica. Depois de formado, o “pía” volta para casa com a esperança de agregar e implementar práticas que aprendeu, e não consegue nem um 1 hectare para testar as tecnologias que julga interessante. É ou não uma contradição?

Não defendo “dar carta branca”, mas possibilitar um ambiente de contribuição e troca de experiências, explorando a sinergia entre as gerações, é fundamental para que o processo sucessório faça jus a palavra que à origina. Só assim conseguiremos melhorar as estatísticas e mitigar o ditado popular “pai rico, filho nobre, neto pobre”.

João Rosa (Botão, F2010)

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