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Almoço na República (Alma; F97)

16/05/2022 - Por fernando de mesquita sampaio
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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O faminto:

- Bora comer pelo amor de Deus, tô com fome.

O faminto tá sempre com fome, é o primeiro a chegar na mesa ainda vazia e berrar pra véia trazer as panelas.

A véia:

- Carma seus morto de fome.

Toda república tem a véia. A véia é aquela peça rara contratada quando dá match entre o standard de qualidade oferecido e o orçamento da república.  A Lesma Lerda teve véias formidáveis como a Teresão que virava os bifes com a unha na frigideira, a dona Cinira que pegava pão dormido de doação na padaria pro nosso café da manhã e a Dona Leonor que ia amassar nhoque depois de recolher com a mão o papel higiênico usado do lixo do banheiro.

O Dr. Supremo:

- Esperaí bixada escrota, que falta de respeito! No meu tempo não era assim.

O Dr. Supremo tem direito a pegar a coxinha do frango. Ou escolher o primeiro bife. Ou ele acha que tem, mas ele chega quando a bixada já está se acotovelando em volta das panelas em desespero...

O crítico gastronômico:

- Que bosta de caixinha!

O caixinha é o método de repartir semanalmente a dupla responsável pelas compras e pelo cardápio da semana. Dependendo da dupla o resultado é mais ou menos satisfatório, mas o crítico gastronômico sempre acha que ele faz melhor.

A Lesma Lerda tinha de vez em quando a Semana do Colesterol do Dr. Speto, cujo lema era "comida boa e que faz mal". Há os entusiastas da Feira das Nações como quando o Tropeço quis introduzir o Arroz de Braga no cardápio, ou o yakissoba dos japonês. Havia os regionalistas com a dupla nordestina Bilola e Jupará que trouxeram a buchada de bode para a mesa. Os inventivos que traziam pastel da feira por exemplo. Mas os clássicos de República nunca falharam, como o frango com polenta, macarronada, carne de panela, bife a cavalo e kibe assado. No início dos anos 90, antes do plano real, os preços no supermercado eram alterados toda semana com a inflação. O caixinha da Lesma era indexado em dólar. Saudades de FHC e do frango a 1 real...

O desesperado:

- Ó os outro, ó os outro!

O desesperado fica desesperado porque ele acha que os que estão se servindo vão acabar com toda a comida na mesa. Normalmente ele fica vigiando a quantidade que cada um põe de comida no prato.

- Olha lá, ó o tanto de comida, não pensa nos outro não?

O fominha:

- Nem peguei tanto caramba, tem pra todo mundo aê.

Na Lesma Lerda, enquanto dr. Do primeiro ano, eu fui forçado pelo Dr. Grelha a fazer um exame de fezes já que eu comia uma quantidade visivelmente desproporcional ao meu peso. Não era culpa minha, estava em fase de crescimento. O exame deu negativo e preguei o resultado na parede. Semanas depois, convidamos o saudoso Prof. Mariconi da zoologia para uma feijoada na república. Ao ver o exame na parede leu o laudo atentamente, e recomendou que eu o repetisse já que tênias solitárias poderiam não ser detectadas com um só exame.

O fato é que a dieta da Lesma garantiu-me alto desempenho zootécnico, elevando meu ganho de peso diário e me levando da posição de segundo centro à terceira linha do scrum do rugby em um espaço de três anos.

O Auditor

- quanto vocês gastaram?

O Auditor fiscaliza o caixinha. Controla gastos excessivos e o superfaturamento. Não que alguém tenha perguntado, mas ele tem prazer em informar que a massa de tomate que você comprou estava na promoção e 20% mais barata no outro supermercado.

O enjoado:

- Nossa, tem muita gordura aqui essa carne.

O enjoado é aquele para quem a mãe preparava o leite com nescau até ele entrar para a faculdade. E tirava as gordurinhas do bife antes de fazer o prato do filhinho. E ele só comia a carne branca do franguinho. A reeducação alimentar ainda é um benefício subestimado da vida em república.

O das bebidas:

- Tem suquinho?

Água é o complemento ideal do caixinha da república. Mas sempre tem o inventivo que acha de bom tom fazer um Tang pra acompanhar. Harmoniza com a carne de segunda na panela. Quis o destino que a casa da Lesma na Rua do Rosário nr. 6 tivesse em seu quintal uma pitangueira. Era uma pitangueira adubada organicamente a base de vômitos de bêbados. A verdade é que nunca vi uma pitangueira que produzisse tanto, e pitangas tão boas. Sucos de pitanga acompanharam várias das refeições na casa.

O visita:

- Opa, cabe mais um aí?

- FORA MALA!

- TROUXE COQUINHA?

O visita é alguma mala que sempre aparece sem aviso pra almoçar. Normalmente só é tolerado quando traz algum agrado como um litrão de coquinha gelada.

Ogro:

- Arrooout!

O ogro é um porco. Arrota, come fazendo barulho, limpa a boca na camisa, não lava a mão nunca, mas adora exibir suas porquices.

 Bixo 1 embaixo da mesa comendo com um saca rolha e uma xícara:

- desculpa dotor

Bixo 2 embaixo da mesa comendo com um amassador de alho e uma peneira

- puta nego porco

- QUE QUE CE FALOU BIXO!

- O que é isso companheiro?!

- BIXO VERMEIO DO CARAIO

Bixo 3 embaixo da mesa comendo com um garfo de um dente e um lava arroz

- Tem sobremesa?

-PQP BIXO!

- Tem bixo, vai lá na geladeira e pega o morango com leite moça, tá atrás do marron glacê...

-Onde?

- PROCURA MAIS BIXO

Em um certo ponto o bixo se toca que na geladeira só tem um pedaço de carvão, meia cebola cortada e um ovo. Leva uns 10 minutos.

O Mulamba:

- Olha esse arrozinho queimado aqui que delícia.

O mulamba é aquele que se alimenta de restos. Ele gosta de raspar o arroz queimado do fundo da panela. Gostar de roer os ossos que sobraram na forma. Escolhe a parte mais gordurosa da costela. O mulamba gosta de comidinhas do amor, aquelas que vão direto pro coração.

O Engraçadinho:

- Olha a goteira!

O Engraçadinho gosta de fazer gracinhas. Tem gracinhas como colocar café frio com sal e pimenta na garrafa de coca cola e deixar na geladeira pro pessoal que chega da balada de madrugada dar um gole. Tem a de raspar a gordura que sobrou na forma da costela e por num potinho e escrever doce de leite e deixar na geladeira. Mas a preferida é fazer uma canaleta com a borda da toalha plástica e virar o copo d'água na canaleta. A água escorre e vai parar no colo de um dos doutores. Geralmente aquele que não podia se molhar porque ia ter prova depois do almoço.

- FILHO DA PUTA!

- GUERRA DE ÁGUA!

Jarradas de água voam de um lado a outro da sala de jantar enquanto cada um procura abrigo onde dá. Exceto pelo mulamba que agora tentar descolar a pele do porco que ficou grudada na forma pra comer.

A véia:

- Eu não vou limpar esse piseiro aí!

O Atrasado:

- Sobrou alguma coisa aí? Putz, tava lá no estágio, não tinha carona.

O Atrasado chega sempre atrasado. E sempre conta uma história de porque ele está atrasado. Ele sempre perde a carona. Mas ele vai comer por último e vai perder a carona pra voltar pra Escola depois do almoço. E vai chegar atrasado na aula.

- véia, quer matar nóis de pressão alta? Olha o sal

- que bosta de caixinha

- faz melhor então

- eu gostei, dá esse osso aí que eu gosto de mascar essa cartilagem

- credo, é um animar mesmo

- ô seu draga, comeu mais que todo mundo, vai ter que pagar mais por semana

- to em fase de crescimento

- crescimento dos verme

- vai ter o que de janta?

- macarrão

- que bosta de caixinha

- semana que vem vou fazer cupim

- vai estourar o caixinha, já to vendo

- ceis gostam de fígado?

- ah não gente

- vai no Rucas seu fresco

- eu acho bom

- Tá achando bixo?

- to indo pra Escola quem vai?

- ah peraí, já to indo

- não dá pra esperar, vai a pé

- GUERRA DE ÁGUA!

- PUTAQUEPARIU JÁ ACABOU ESSA MERDA

- Tem sobremesa?

- que bosta de caixinha

Cai o pano.

 

 

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