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Agricultura: a Maior Invenção da Humanidade (Alfinet F09)

16/10/2015 - Por rodolfo tramontina de oliveira e castro
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Há 150 mil anos, surgia o Homo sapiens. Como o nome destaca, este se diferenciou da espécie anterior por ser mais inteligente e perspicaz, cuja vantagem cerebral possibilitou, entre outras coisas, a descoberta do fogo. O domínio desse poderoso elemento garantiu a defesa contra predadores e contra o frio.

Homo sapiens passou cerca de 130 mil anos nesse perigoso estilo de vida, e se dependesse dele ainda estaríamos nas cavernas. Foram as "mulheres sapiens" que, cansadas de tantas mudanças e riscos, quiseram se assentar.

Contudo, a escassez de alimentos não permitia. Até que Deus, ou sabe-se lá quem fosse o regente do universo, optou por acabar com a glaciação. As geleiras derreteram, a superfície terrestre inundou-se, a neve passou à chuva e a temperatura do solo subiu.

Nascia a agricultura!

Reza a lenda que foi um grupo de mulheres na Mesopotâmia, atual Oriente Médio, que iniciou a primeira forma de cultivo com trigo, há cerca de 12 mil anos. Selecionaram as melhores sementes, cavaram um buraco no chão, plantaram e observaram as sementes se desenvolverem em novos grãos. Voilà! Muito mais alimentos por área do que provinha a caça.

O fenômeno ocorreu de maneira "simultânea" na África, na China e na América do Norte (10 mil anos atrás), e posteriormente na Europa (7 mil atrás) e América do Sul (6 mil). E foi esse evento que favoreceu o arranjo do tripé que nos sustenta até hoje e é chave para um mundo livre e próspero: a propriedade privada, as trocas voluntárias e o livre mercado.

Até a agricultura surgir o mundo não tinha dono; era, literalmente, uma selva. Foi com o trabalho na terra e a colheita de seus frutos que surgiu a propriedade privada. Conforme conceitua o filósofo inglês John Locke:

O indivíduo que se move num território, que colhe um fruto, que ara a terra, está "misturando trabalho" (ou seja, uma propriedade sua, já que é realizado com o seu corpo) com uma propriedade sem dono. Fazendo assim ele se apropria daquela propriedade sem dono e a faz sua. A propriedade dos objetos ou dos imóveis nasce então do trabalho do indivíduo. Ao fazer isso ele não tira nada de nenhum outro indivíduo. Na verdade, ele se apropria de algo que não pertencia a ninguém, e que então não pode ser reivindicado por outros.*

Imagino que para aquele indivíduo, ter a opção entre correr atrás de um antílope e poder ser morto por um leão ou trabalhar o solo e construir um teto, deva ter sido uma descoberta impactante. O Homo sapiens optou pela segunda alternativa e evoluiu.

Cada grupo passou a ter seu pedaço de terra onde poderia cultivar seu melhor alimento, domesticar os animais para que auxiliassem nas tarefas, construir objetos para guardar alimentos em excesso e ferramentas para melhorar a produção agrícola, erguer barracos para que pudessem dormir próximos de sua fonte de sustento. Nasciam assim as vilas e com elas o segundo apoio do tripé: as trocas voluntárias.

Nestas comunidades "repletas" de possibilidades, cada indivíduo começou a perceber que era melhor em determinada atividades do que em outras. Um era hábil em preparar o solo, outro em manejar os animais, outro continuava um exímio caçador, outro, essencial durante a colheita. A especialização levou a capacidade de todo o sistema a aumentar e possibilitou o início do escambo.

Uma família ou grupo com excesso de grãos de trigo poderia trocar por uma perna de javali; outro que precisava de um cavalo para arar a terra o alugava por porções de batata. Um porco por uma ferramenta, um galo por cinco galinhas, um ovo por uma maçã. Os exemplos são tantos quanto a criatividade à época poderia alcançar.

As vilas mais próximas, onde a propriedade era respeitada e, por consequência, onde esse ciclo virtuoso se perpetuava, eram as que atraíam mais indivíduos. De vilas passaram a povoados. De povoados a cidades. De cidades a Estados. (Onde é certo que aquele grupo de mulheres na Mesopotâmia não queria chegar).

O problema dessas criaturas da mitologia, como o Leviatã, é que ninguém sabe onde começam e onde terminam, mas principalmente - desconhecem sua capacidade de fazer o mal. Thomas Hobbes, cientista político inglês, em sua obra mais famosa justifica as atrocidades de um poder central e autoritário por acreditar que o homem vivia em estado de guerra de todos contra todos (Bellum omnium contra omnes). 

Entretanto, é no livro de Jó que o Leviatã está descrito perfeitamente em sua principal característica - a maldade:

Ninguém é bastante ousado para provocá-lo; quem resistiria a ele face-a-face?
Quem pode afrontá-lo e sair com vida debaixo de toda a extensão do céu? [...]
Quem lhe abriu os batentes na goela, em que seus dentes fazem o reino tremer? [...]
Quando se levanta, tremem as ondas, as vagas do mar se afastam.
Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem azagaia, nem o dardo.
O ferro lhe é palha; o bronze, pau podre. [...]
Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada; afronta tudo o que é elevado, é o rei dos mais orgulhosos animais.*

Quando regido pela primeira definição (Hobbes), a agricultura padece, e com ela seu povo. Os exemplos são incontáveis. No Camboja, no fim século XX, o Khmer Vermelho, de Pol Pot decidiu triplicar a produção de arroz e, para fazê-lo, obrigou a população a trabalhar incansáveis horas por dia. Milhares de cambojanos morreram por fome e exaustão. A União Soviética viveu uma economia planificada, ou seja, era de responsabilidade de um pequeno grupo de planejadores considerar todas as aspirações dos indivíduos e dizer o que deveriam produzir, quem deveria produzir, em quais quantidades e quem iria consumir. O sistema implodiu*. Todos os que aceitaram as justificativas de Hobbes, de um governo central e autoritário, tiveram o mesmo destino.

Compreender a segunda descrição e lutar contra um Estado-Leviatã é o melhor (para não dizer único) caminho para prosperidade. Como na história de Jó, que possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas, perdeu tudo e depois recuperou em dobro, não é um caminho fácil, mas é justo, e depende em grande parte de esforço e capacidade. O que nos leva ao terceiro apoio do tripé: o livre mercado.

O livre mercado será tão mais eficiente quanto menor for o Leviatã. Sua força se dá basicamente pela soma e respeito dos outros dois pilares: a propriedade privada e as trocas voluntárias. E na agricultura é onde é mais visível enxergar os benefícios de sua "mão invisível". Adam Smith é quem explica.

O economista cunhou esse termo em 1776 com a publicação de A Riqueza das Nações. Para Smith, o livre mercado possibilita que as pessoas cooperem umas com as outras sem coerção nem comando central, e o fruto dessa colaboração e cooperação gera riqueza*. Vamos voltar ao futuro para compreender seus benefícios.

Somos 7,2 bilhões de pessoas vivendo num único planeta Terra. Em 2025 esse número deve saltar para 8,1 bilhões, e em 2050 para 9,5 bilhões. As taxas de urbanização também são crescentes. Atualmente, 54% da população mundial vive em cidades. Em 2025 a projeção é de 58%, e em 2050 de 66%. Ainda, grande parte desse crescimento e movimento migratório se dará nos países emergentes.

Em suma, do lado da demanda teremos mais bocas, mais consumidores, mais boizinhos e vaquinhas, mais franguinhos e porquinhos, mais grãos, mais hortaliças, mais frutas, mais vegetais. muito mais alimento. E do lado da oferta, um mísero e solitário planeta sendo cultivado por menos de um terço da população. (Earth, we have a problem!)

Existem duas soluções para essa equação. A primeira é selecionar as mentes mais brilhantes do mundo e trancafiá-las em uma sala até que retornem com um plano correto, socialmente justo e economicamente viável capaz de equilibrar a oferta e demanda seguindo a cláusula pétrea "de cada qual segundo sua capacidade, a cada qual segundo sua necessidade". Depois, combinar com os russos. (Se bem que. melhor deixar pra lá.)

A outra solução é deixar a mão invisível agir.

Suponha um proprietário de terra no Goiás, que tem um chinês de vizinho de cerca. Os dois, enquanto observam o gado pastar, se pegam a prosear. O chinês conta da sua viagem à terra natal e de como ficou maravilhado com o crescimento do país, e que seus familiares e amigos que ganhavam 500 dólares por ano estavam ganhando três a quatro vezes o valor. Ambos saem da conversa decididos a plantar soja.

O que nenhuma mente brilhante naquela sala sabia (e qualquer agricultor no Goiás sabe) é que quando o rendimento de uma família passa de 50.000 mil para 100.000 mil dólares por ano, seu consumo de alimentos praticamente não muda. No entanto, para qualquer salto nas faixas de renda inferiores a demanda por produtos agrícolas é enorme. E aquela informação dos familiares num país com bilhões era a confirmação de que precisavam.

Nesse sentido, dividiram o custo do calcário, do maquinário para preparar o solo, das sementes, do adubo, da mão-de-obra e plantio. Dividiram até a reza com suas famílias para a soja receber chuva e sol na medida. Passados 110 dias, dividiram os custos e o fruto (grãos) da colheita. Com parte do lucro, optaram por iniciar a construção de uma granja orgânica. A filha de um deles ouvira na tevê que a moda estava "estourando" nos grandes centros urbanos.

Iguais a estes dois, mais 7 bilhões de indivíduos tomam decisões a todo momento - do que produzir e consumir, de acordo com seus desejos, necessidades, possibilidades e aspirações. E cada um, procurando atender a seus próprios interesses (ou aos de suas famílias ou comunidades), respeitando a propriedade privada e as trocas voluntárias, faz surgir uma ordem natural e surpreendente chamada livre mercado. Como é a agricultura.

Portanto, toda vez que você tomar um cafezinho com pão com manteiga, fizer uma refeição, vestir uma roupa de algodão tirada do seu armário de madeira, beber um bom vinho ou aquela cervejinha, lembre-se de que não são frutos de um monstro centralizador e autoritário, mas de bilhões de consumidores imprimindo seus desejos e milhões de produtores trabalhando suas terras e realizando trocas voluntárias através de uma mão invisível. Saudemos a mandioca!

***

* "Estado? Não, Obrigado!", de Marcello Mazzilli | Bíblia - O Livro de Jó, capítulo 41 | "Livre para Escolher", de Milton Friedman e Rose Friedman

Rodolfo Castro (Alfinet - F09) é Eng. Agrônomo, Fundador da fmk agro e exmorador da República Kangaço

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