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A Volta (Pinduca F68)

08/10/2015 - Por marcio joão scaléa
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Curada a ressaca da noitada no Abaeté, os três viajantes pararam para programar a viagem de volta. Carona, como na vinda, estava fora de propósito. O ônibus também, pois o dinheiro não dava para comprar as três passagens. Até que alguém sugeriu que tentassem o CAN. CAN era a sigla do Correio Aéreo Nacional, que frequentemente tinha aviões saindo de Salvador para o sul, e eles resolveram arriscar.

 

Madrugadinha, tomaram o ônibus que levava até a Base Aérea, e lá chegando fizeram as inscrições. O atendente lhes disse que para aquele dia seria difícil viajar, mas para o dia seguinte era quase certo. Dia todo na Base, calor, fome, e só à tardinha pousou um avião DC-3 (sobra da segunda guerra), que só tinha lugar para quatro passageiros. Não viajaram, mas ficaram bem no começo da lista. Dia seguinte, nova madrugada, ônibus, Base Aérea o dia todo. Lá pelas tantas pousou outro DC-3 e feitas as contas, havia lugar para os três e ainda sobravam muitos assentos, o avião estava vazio. Alegria, vivas ao CAN, preenchidas as formalidades, fila formada, despedidas dos recrutas, já amigos. Ao pé da escada do avião, mandaram aguardar, tinha um probleminha. O probleminha era um ônibus do Colégio Militar de Salvador, que despejou exatos vinte e seis estudantes e respectivas mochilas, em viagem para o Rio, lotando o avião. Mas no dia seguinte era certeza, disse o atendente. Terceira madrugada, ônibus, Base Aérea. A expectativa era grande, pois passariam por Salvador dois aviões, vindos de Recife. Anoiteceu e eles não chegaram, graças ao mau tempo em todo o nordeste.

 

Voltando para o bairro do Canela, os três desesperados já não sabiam mais o que fazer, inclusive porque estava muito desagradável aquele entra e sai da casa do amigo baiano. Caminhavam pela Sete de Setembro quando ouviram um grito :

 

- Fulano. Ô Fulano, você também está perdido aqui em Salvador?

 

Eram três rapazes de São Paulo, num Aero Willys, conhecidos de um dos companheiros de viagem do Universitário. E que estavam, pasmem, procurando alguém para completar a lotação de quatro no Aero Willys, pagando parte da gasolina, para voltar para casa. Rápidas contas, tirando o dinheiro da gasolina do total que os três ainda tinham, sobravam quarenta e seis cruzeiros, o que era suficiente para as duas passagens para São Paulo, com dois cruzeiros para um maço de cigarros e os lanches durante as 38 horas de viagem. Foi assim que o Universitário e seu companheiro começaram a viagem de volta da Bahia.

 

Seis e meia da manhã o ônibus partiu, cheio. Hora do almoço, parada em Jequié, onde o Universitário e o amigo compraram um guaranazinho para ajudar a engolir um pão doce comprado em Salvador e esturricado pelo calor e o vento no ônibus. Meio da tarde, a mãe que viajava com duas crianças, no banco ao lado, compadeceu-se e lhes ofereceu meio pacote de bolachas maisena, imediatamente aceitas (a outra metade seria surrupiada na calada da noite, tanta era a fome). Hora da janta, parada em um restaurante, onde os dois viajantes nem desceram do ônibus, e se contentaram com alguns coquinhos, oferecidos por uma senhora do banco de trás. Meio da noite, nova parada, posto de gasolina na beira da estrada. Enquanto iam descendo, ouviram um dedilhar numa viola e viram um ceguinho que cantava uns versos, para cada passageiro que descia. O primeiro foi o motorista, muito elogiado e enaltecido pelo ceguinho. Depois veio a velha do banco de trás, que depositou umas moedas no chapéu de um rapaz, que cochichou algo para o violeiro. E o violeiro agradeceu a mulher da blusa preta e óculos no nariz. E assim, um a um os passageiros desciam, davam sua contribuição e eram cantados pelo ceguinho, que agradecia e elogiava. Até que os dois viajantes desceram e não tinham moeda para dar! Ao que o ajudante cochichou para o ceguinho, que cantou :

            " E prus dois paulista que é pão duro,

              O onibus vai capotá,

   Todo mundo se sarvá

               Mais eles lá vai ficá

               Por debaixo das ferrage,

               Inté o ônibus queimá ."

 

O ônibus não capotou, mas os dois chegaram a São Paulo com alguns quilos a menos pelo jejum forçado, tendo ainda que caminhar pela Duque de Caxias até a Av.São João para, com as últimas moedinhas, conseguir tomar novo ônibus para ir para casa. O difícil foi subir num coletivo lotado segurando, cada um, o seu berimbau, lembrança comprada na Bahia.


Marcio Joao Scaléa (Pinduca F68) é Engenheiro Agrônomo ex morador da Republica Mosteiro

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