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A história de Seo João e Joaninha... e dos outros 150 milhões de eleitores (Alfinete; F08)

26/09/2018 - Por rodolfo tramontina de oliveira e castro
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Depois de muito pelejar nas últimas duas eleições, optei por tirar meu time de campo. Fui mais irresponsável, mas foi menos doloroso. Faltando 10 dias para o pleito inicial, todavia, me deu uma coceira... que virou ferida, que precisou respirar para cicatrizar.

Ao que tudo indica caminhamos a passos largos para uma leve guerra civil – espero que se limite às ideias. De um lado uma pessoa inescrupulosamente ambiciosa, de outro uma inabalavelmente egocêntrica. Nenhum projeto de nação, nem plano para tirar o país da crise; somente um embate entre duas antagônicas narrativas.

Estamos distantes de sermos seres racionais. A figura do homo economicus, capaz de tomar a melhor das decisões a partir de ilimitadas informações, só existe na teoria. Na prática somos engolidos por um emaranhado de histórias que captam nosso emocional. Eleição é ilógica; é puramente emoção.

O Seo João é morador de Baianópolis, no oeste baiano. Dividia um casebre com esposa e duas filhas. Neto e filho de produtores rurais, Seo João trabalhava de sol a sol para garantir que suas filhas seguissem um caminho diferente. Em uma madrugada de sábado, seu sonho virou pesadelo. Uns baderneiros de "movimento social" invadiram a fazenda; e Seo João ao tentar se defender piorou a situação. As filhas foram assassinadas. Atearam fogo na plantação. No povoado todo mundo sabe quem foi, mas a justiça não pode prender porque são amigos de um político tradicional. Seo João é eleitor do Bolsonaro.

A 1.500 quilômetros dali, em Campinas, interior de São Paulo, vive Joana. Carinhosamente apelidada de Joaninha, cursa o 3º ano de Comunicação Social na Unicamp. Joana é de uma família conservadora de gaúchos. Seus pais foram contra sua opção profissional. Seu pai, no calor do momento, disse que ‘mulher é pra fazer faculdade séria pra arrumar emprego ou marido, não adianta ficar inventando’. Joaninha só não saiu fugida (ou expulsa) de casa porque o irmão mais novo implorou por paz. Mesmo assim, Joana raramente os visita. Joaninha vota no Haddad.

O Brasil possui 200 milhões de habitantes, 150 milhões de eleitores e infinitas histórias como a do Seo João e da Joaninha. Não existe régua moral, ética ou juízo de valor capaz de encapsular todas estas em uma dicotomia. “Se você vota no Bolsonaro nosso problema é moral”. Explica lá sua moral pro Seo João. “Se você vota no PT nosso problema é de ética”. Convence a Joaninha que EleNão é machista. Metade dos lares do Brasil não tem esgoto, que dirá filosofia.

O processo eleitoral ocupa 4 de 1.460 dias. Os outros 1.456 são para você de verdade fazer alguma coisa para mudar esse país. Escolha uma bandeira, arregace as mangas e vá lutar. Não deixe as eleições te transformarem em Sísifo.

É a educação do país que te tira o sono? Existem centenas de iniciativas que necessitam da sua ajuda. É a falta de oportunidades para pessoas de baixa renda? Uma ONG ensina inglês via voluntários para melhorar a empregabilidade. Seria a diferente salarial entre homem e mulheres? Comece com um grupo de discussão na sua empresa. Falta de moradia? ONG Teto. Fomento a pequenos agricultores? Kiva. Se não tiver dinheiro, doe tempo; se não tiver tempo, não use o pouco que lhe resta reclamando da vida.

O Brasil é macunaímico. Somos – talvez para todo o sempre - o país de pouca saúde e muita formiga; que dá preguiça só de pensar. Infelizmente serve para o bem, ou já teríamos resolvido todos os problemas da nação nós mesmos. E felizmente serve para o mal: capitão, caroné ou capiau.

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