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À comunidade Esalqueana, muito obrigada! (AP; F90)

16/01/2024 - Por marta marcos bradley
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Início de 1986. Esperando a lista de aprovação para os novos alunos da Esalq. Sem eu saber papai havia pedido ao amigo João Barbosa da Sessão de Alunos se lhe avisaria quando chegasse a lista dos aprovados. O telefone toca em casa, alguém me chama "Marta, seu pai quer falar com você!" Quando atendo, uns segundos de silêncio.e então papai começa a cantar "A água o sol e a terra, existem com própria beleza." Eu comecei a chorar...Após um ano de cursinho, que fui muito grata pois me colocou no mesmo grupo de quinquênio com o papai (ele F55, eu F90), entrei no único curso que prestei vestibular. Só podia ser Esalq! Como pensar em estudar em outro lugar?

 

E assim começaram 5 anos de idas e vindas diárias à Esalq com Zilmar Ziller Marcos, meu pai. Algumas vezes fomos até de Garelli, eu na garupa dele, subindo a Av. Carlos Botelho sabe-se lá como, só de folia mesmo. Papai foi meu professor logo no primeiro ano, experiencia única. Vários dos professores eu chamava de tio, pois assim eram desde que nasci. Demorou uns dias pra eu perceber que podia respirar e olhar pros lados durante a aula do papai, não levaria bronca na hora do almoço. Numa ocasião, véspera de prova dele, algumas amigas e eu estávamos estudando na mesa de jantar de casa. Papai passou umas cinco vezes por nós, observando. Na próxima vez ele parou e disse: "Vocês não têm pergunta nenhuma?" Nos olhamos uma para outra, estávamos pensando a mesma coisa: "mas.poderíamos? Não seria errado??" Eu disse "mas, podemos pai?". Ele respondeu "Filha, antes de ser seu professor eu sou seu pai, e não tem como separar os dois. Não vou te falar o que está na prova, não vou te dar dicas. Mas se algum aluno for à minha sala, ou me telefonar agora pedindo para esclarecer uma dúvida, o farei com prazer. Não posso fazer menos que isso para você e suas amigas."

 

 

Uma das experiências mais especiais que tive com papai foi em julho de 1990, quando um grupo de 19 formandos e meu pai, nosso professor acompanhante, passamos 35 dias viajando pelos Estados Unidos, o GELQ. Alugamos 2 vans grandes, papai era um dos motoristas de uma, eu na outra. Uma das paradas foi em Houston, Texas, que fica a apenas 90 minutos de Texas A&M, onde papai estudou o mestrado por dois anos e meio logo depois de formado. Papai falava muito de Texas A&M, foi uma experiência incrível para ele. Desde 1958 ele não voltava ao Texas. Quando entrávamos em todos os estados, parávamos à beira da estrada para tirar foto ao lado da placa do estado. Quando entramos no Texas, papai se emocionou muito, tirou seu lenço branco de pano do bolso e enxugou as lágrimas, sem se importar com os jovens ao redor. "Vocês vão compreender se passarem 30 anos sem voltar à Esalq. Espero que não aconteça". O grupo graciosamente concordou em ficar com um veículo só pra passarem o domingo em Houston, enquanto papai e eu dirigimos o outro pra College Station. Estávamos muito perto para não irmos. "Você não quer passar o dia com os amigos, filha?" Eu não perderia esse dia por nada pai! Papai ia andando rapidinho pelo campus da universidade, como se não quisesse perder tempo algum, eu com a câmera atras dele tirando fotos sem parar. "Aqui foi meu quarto. lá naquela janela, segundo andar. Aqui tive aula dessa matéria, ali outra matéria.." E assim passamos algumas horas que nunca mais esquecerei. 

 

Sobre seu lenço de pano branco, sempre no bolso de trás das calças, certa vez ele teve uma discordância amigável com o alfaiate que estava fazendo algumas calças novas pra ele. "Eu quero o bolso de trás à esquerda com um botão e uma tampa. E o de trás à direita sem nada, bolso normal aberto." O alfaiate disse: "mas não pode, não é assim que se faz calça social." Papai explicou sua lógica: eu sou canhoto, a esquerda ponho minha carteira, que precisa ser protegida com botão, e tampa para ficar discreto. À direita meu lenço de pano, que posso precisar acessar rapidamente se espirrar." Assim era o papai, pensava e analisava profundamente, até coisas simples.

 

Papai recebeu em vida uma tremenda honra. A Sala Zilmar Ziller Marcos na Adealq lhe trouxe enorme felicidade. Que honra incrível! O Hino da Esalq será cantado por muitas gerações mais. E vários outros símbolos que tiveram o envolvimento de papai. A formatura ao ar livre no Gramadão, em frente ao maravilhoso prédio principal, era mencionada nas nossas conversas frequentemente.

 

Muitos são os ensinamentos que levaremos para sempre do papai, como "O saber não se dilui ao ser compartilhado, mantém a mesma concentração".  Papai nos deixou, membros da família, amigos, colegas de trabalho e alunos, lembranças especiais. Nessa última semana a comunidade Esalqueana tem feito homenagens incrivelmente tocantes ao papai, carinhosamente chamado de ZZM. Vídeos novos ou adaptados com imagens do papai, postagens em redes sociais, muitas descrevendo experiências de alunos com ele, blogs, artigos em jornais e a adaptação carinhosa da Ode à Esalq feita por meu colega de turma GE (Arno) e gloriosamente declamada pelo RG (André), outro colega meu de turma e muito amigo de papai. No seu velório, papai foi celebrado com 36 coroas de flores de família, amigos, instituições. 16 coroas foram de turmas de graduados, incluindo seus afilhados de 87 e 98, a turma de 78 primeira a cantar o Hino da Esalq, e algumas turmas que nem chegaram a tê-lo como professor. Papai foi também celebrado por 10 Repúblicas com coroas. Nós da família ficamos muito emocionados ao ver tanto amor e carinho para com o papai! Foi incrível! Muito obrigada!

 

E aí algo especial foi gradativamente acontecendo ao decorrer dessa semana. nossa imensa dor começou a ser parcialmente substituída em nossos corações por gratidão, enorme gratidão! Não há como descrever o conforto que todas as palavras da comunidade Esalqueana nos trouxe. Obrigada! Muito obrigada! Sem planejamento, as palavras Cumpriu Missão Vitoriosa foram usadas por muitos e muitos. Penso que papai está nos observando e pensando. "ahhhhhh!" (com apenas um ponto de exclamação, pois papai dizia para mim, que gosto de usar vários, "um é suficiente, filha").

 

Muito tem sido lembrado sobre ZZM como professor e Esalqueano. Afinal ele amava a ESALQ como ninguém! Como pai, ele sempre demonstrou o equilíbrio entre o amor e a disciplina. Acima de tudo, nos três filhos sempre soubemos que podíamos contar com ele, em qualquer situação! A história de amor com mamãe começou na adolescência como estudantes do Colégio Piracicabano, onde mamãe foi interna. Casados por mais de 64 anos, mais 8 de namoro, foram mais de 72 anos juntos! Que benção! Como a avô de 5 netos, ele foi uma mistura de amor, ensinamentos e muitas brincadeiras. Com dois netos em Piracicaba e três netos na Florida, papai escreveu música de ninar a eles (escreveu música para a mamãe e cada filho também) e formou laços especiais com todos, sempre detectando as diferenças na personalidade de cada um. Foi um avô muito ligado e muito presente com os netos em Piracicaba, desde que nasceram. Papai e mamãe adoravam nos visitar na Florida, e com os netos Americano-Brasileiros ensinou brincadeiras e músicas brasileiras, como "cadê o toicinho que tava aqui" e "atirei o pau no gato", apesar de a cada frase ter que parar pra explicar o português: "O que é toicinho vô? Por que alguém atiraria um pau no gato vô?"

 

Marido, pai, avô, amigo e professor...Zilmar vai deixar muita saudade! Já está deixando.

 

How lucky I am to have someone that makes saying goodbye so hard.

 

The price one pays for love is grief.

 

Com gratidão,

 

Marta (AP)

 

15 de janeiro de 2024


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