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A Centenária República Copacabana em Piracicaba

08/12/2023 - Por evaristo marzabal neves, docente sênior da esalq; gustavo barreira, ex-morador da copacabana; murilo titoto paiva, atual morador da copacabana
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Em meados de 1923, alguns jovens estudantes provenientes do Rio de Janeiro chegaram em Piracicaba - SP para estudar na então Escola Agrícola Prática Luiz de Queiroz. Como uma paródia e alusão ao recém-criado Hotel Copacabana Palace, fundado em 13 de agosto do mesmo ano, no Rio de Janeiro, criaram a "República Copacabana Palace", afinal, naquela época, nada mais chamativo já que a sofisticação da república sempre esteve à altura do hotel das celebridades... pura vaidade.

Com o passar dos anos, o "Palace" ficou apenas na memória e na sofisticação que perdura até hoje. Nos anos 1960 a república passou a ser chamada apenas de "Copacabana", ou "Copa", que é como as gerações mais novas costumam se referir ao local. Talvez seja, a conferir, uma das repúblicas de estudantes universitários mais antiga do mundo.

Continuando sua longeva história, a "Copa" em seu início esteve intimamente ligada à Escola Agrícola Prática Luiz de Queiroz que, oito anos depois (1931) da fundação da República, foi elevada ao nível universitário e passou a se chamar Esalq - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Neste período, 1923 até 1934, quando se cria a Universidade de São Paulo em 25/01/1934, a Esalq pertencia à Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo.

A trajetória da Esalq também foi de evolução e em 1934 foi a primeira unidade do interior paulista fundadora da Universidade de São Paulo, a USP, que surgiu da união da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) com as já existentes Escola Politécnica de São Paulo, Faculdade de Medicina, Faculdade de Direito e Faculdade de Farmácia e Odontologia, todas da capital paulista. Dessa forma, mesmo que em cidades como São Paulo já existissem repúblicas estudantis, a Copacabana foi a primeira república estudantil da USP no interior paulista e, provavelmente, uma das existentes até os dias atuais, continuando resiliente, carregando história e tradição ao longo desses 100 anos. Atualmente o legado e os fortes valores que a mantiveram "de pé" se mantêm, perpetuando e respeitando as particularidades, pensamentos e trabalhos deixados por aqueles que lá frequentaram.

Celebração - Neste 2023, a República Copacabana completou com muito orgulho e alegria, 100 anos de história e comemorou seu Centenário no dia 13 e outubro 2023 com a presença de 79 ex-moradores, 5 atuais moradores e cerca de 54 convidados, totalizando 138 pessoas! Essa comemoração aconteceu na chácara de um dos ex-moradores, o Edson Gil, conhecido como Professor Pardal, formado em 1966. O proprietário da chácara cede todo ano o espaço para os "copacabanos", recebendo-os como família no seu próprio lar. "Não estamos comemorando apenas 100 anos de existência, mas sim a história de uma família que se formou dentro de uma república e eu tenho orgulho de pertencer à essa família!", comenta Edson Gil, formado na Esalq em 1966, consultor de café aposentado, mas ainda na ativa.

Toda essa festa de 100 anos, contando com o anual churrasco de ex-moradores, foi organizado pelos atuais moradores da república que demonstram orgulho em poder fazer parte dessa comunidade. Os moradores atuais da Copa são Renato Barros de Oliveira, 27 anos, natural de Sorocaba - SP; Thyago Barbosa de Matos Junior, 23 anos, natural de Guarulhos - SP, Marcos Velludo Junqueira Filho, 21 anos, natural de São Miguel do Iguaçu - PR; Murilo Titoto Paiva, 21 anos, natural de Catanduva - SP; Felipe Quinilato Baldessin, com 23 anos, atualmente o único morador natural de Piracicaba - SP; e Nicholas Scampini, 21 anos, natural de Parnaíba - PI.

Durante o evento dos 100 anos, a República contou com uma exposição no Museu Luiz de Queiroz durante a Semana Luiz de Queiroz de 2023, quando foram feitas diversas homenagens para ex-moradores, diretoria da Esalq, Conselho de Repúblicas entre outras instituições, com o plantio de uma Peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron) comemorativa de 100 anos na praça das repúblicas dentro da AAALQ (Associação Atlética Acadêmica Luiz de Queiroz), a Atlética mais antiga do Brasil, fundada em 1903, e, em seguida, com um churrasco de ex-moradores. Relevante também foi a participação especial e homenagem recebida na Sessão Solene de encerramento da Semana Luiz de Queiroz no Ginásio de Esportes, na manhã de 14 de outubro, e no churrasco de confraternização das turmas comemorativas de seus quinquênios e de encerramento da 66ª Semana ´´Luiz de Queiroz´´. Registra-se ainda que na Sessão Comemorativa dos 114 anos do Centro Acadêmico Luiz de Queiroz (CALQ) no Anfiteatro do Pavilhão de Engenharia, em 20 de maio de 2023, foi incluído a comemoração dos 100 anos da República. Na mesa diretora fez parte o Prof. Otavio Nakano, aposentado do departamento de Entomologia e Acarologia, que foi morador da República Copacabana, nos anos 50.

"O ambiente da República Copacabana é um terreno fértil para o cultivo de amizades duradouras. Lá, fortalecem-se as raízes e valores provenientes do berço, gerando flores e frutos de alegria e amizade", comenta Fausto Nimer Terrabuio, formado em 2015, Produtor Rural e Proprietário da FNTerra.

Uma das principais características da Copacabana sempre foi o incentivo à participação dos moradores em atividades extracurriculares, como representação discente em órgãos superiores da Unidade, na Associação Atlética Acadêmica Luiz de Queiroz/AAALQ (fundada em 1903), Centro Acadêmico Luiz de Queiroz/CALQ (fundado em 1909) e estágios nos grupos de pesquisa e extensão da Esalq.

Com todos esses anos de história, a República Copacabana ganhou força no mercado de trabalho voltado ao agronegócio com ex-moradores, que hoje são referências e agentes importantes no mercado. Isso demonstra que a instituição república não se resume a 100 anos apenas de festas e eventos, indo muito além, capacitando e formando profissionais com habilidades relevantes para a vida profissional e pessoal. "Viver em República me fez crescer como pessoa e me desenvolver como cidadão. Os contatos estabelecidos, tanto com ex-moradores quanto com contemporâneos, valem para a vida toda e realmente fazem muita diferença também no ambiente profissional", destaca Fabio S. Pismel, formado em 1994, que ocupou o cargo de Superintendente Comercial do Banco Itaú e hoje está aposentado.

Todo esse contato mantido e estabelecido entre os atuais moradores, os recém-formados e os ex-moradores faz com que os membros da república estabeleçam uma rede de conexão forte de amizade e profissionalismo/networking, onde os já formados criam oportunidades para que os mais novos possam acessar o mercado e crescer na vida! "Graças à Copacabana e aos ex-moradores, tive a oportunidade de fazer estágio no tão promissor e desconhecido (na época) Cerrado Brasileiro. Uma oportunidade também de fazer estágio profissionalizante no cerrado, graças a um professor da Esalq e ex-morador da República. E tudo isso ajudou a conquistar meu primeiro emprego pós formando, justamente no Mato Grosso", lembra Roger Feldman, formado em 2001, que hoje trabalha na Borregaard e é gerente de vendas latam (América Latina).

Desde a década de 1980, os "copacabanos" vêm recolhendo informações/follow-up sobre os ex-moradores e onde estão. Até o momento, o follow-up registrou 172 ex-copacabanos que moraram, cobrindo o período de 1937 a 2023. Desses 172, 119 estão vivos nos dias de hoje e distribuídos por diversos estados e países, sendo 6 moradores que vivem na Áustria, EUA, Irlanda e Japão. Os demais estão no Brasil, totalizando 11 estados. "O primeiro lugar que visitei em Piracicaba foi a Copacabana. A partir desse momento, eu já fiquei tranquilo e sabia que estava no lugar certo. Com certeza foram os melhores anos da minha vida. Todos os momentos compartilhados com meus amigos copacabanos ficarão sempre em minha memória. Além de todas as portas que a Copa me abriu, contatos que fiz, oportunidades que surgiram. Com certeza devo muito à Copa. Para aqueles que estão entrando agora, vão conhecer a Copa, tenham sua própria experiência, tenho certeza de que não vão se arrepender", relata Rafael Cóttica, formado em 2020, atual mestrando em Fitotecnia na University of Nebraska-Lincoln.

A vida em república - A vida em república proporciona ainda, aos estudantes que participam ativamente da rotina da Copacabana, uma visão empreendedora de como resolver problemas e buscar soluções para questões cotidianas que surgem durante os anos de graduação na universidade. Tal experiência proporciona um ambiente para a formação de líderes talentosos para lidar com pessoas e instituições, formando gerentes, diretores e empreendedores que desenvolveram suas próprias empresas ou atuam em outras grandes. "A República é a escola da vida. Tira o mimo e o egoísmo. Aprendemos a pensar nos outros anos antes de nós mesmos. Viramos irmãos para a vida toda, até mesmo quem não foi contemporâneo, mas morou na mesma República. Na minha vida, o pouco que foi construído em muito se deve à República Copacabana e meus irmãos de lá", reforça o egresso da turma de 2009, Fernando Reis, Diretor Executivo da AgroAdvance Brasil.

Além disso, quem tem essa experiência de morar em república Esalqueana acaba indicando os próprios parentes e filhos a terem a vivência, pois sabem a quão engrandecedora é. Gustavo Barreira, formado em 2000, lembrou que seu pai, também esalqueano, formado em 75, morou em república. "Ele sempre me estimulou a viver e a aprender com tudo que a república traz para nossa formação, como pessoa. Mesmo sendo piracicabano, fui acolhido pela Copacabana e tive uma convivência incrível ao longo dos 5 anos. Aprendizados que tive, experiências que fazem parte da minha formação e que me ajudam na vida pessoal e profissional. Espírito de equipe, trabalhar por algo maior", comenta o egresso, atual CEO da CBCA.

Lucas Ingold é produtor rural, formado em 2016. Para ele, morar em república foi uma experiência transformadora. "Ali aprendi a conviver em grupo e desenvolver um espírito de coletivo. Ao compartilhar o espaço com outras pessoas, aprendi a respeitar as diferenças, negociar conflitos e buscar soluções em conjunto". Ingold lembra que a convivência em república é desafiadora, mas também muito enriquecedora. "Dividir as tarefas domésticas e as despesas cria um ambiente mais equilibrado e justo para todos os moradores. É crucial aprender a ser responsável, cumprir as tarefas atribuídas a cada um e respeitar os horários acordados". Além disso, ele reforça que ter morado na Copa permitiu ter contato com pessoas de diferentes origens e personalidades, o que pode ser muito enriquecedor. "É preciso aprender a respeitar as diferenças culturais, a opinião dos outros e a conviver com as peculiaridades de cada um", complementa.

Viver em grupo também foi uma atitude que inspirou Marcos Petean na sua vida profissional. "A vivência em república foi uma etapa fundamental para meu crescimento pessoal e profissional. De lá, surgiram grandes irmãos, com diferentes culturas, crenças e classes sociais. Serei eternamente grato à república Copacabana e a todos que por lá passaram", aponta o egresso da turma de 2011, hoje CEO da Gênica.

Endereço - Durante todos esses anos de existência, a república Copacabana esteve localizada em diferentes bairros de Piracicaba. De acordo com os dados levantados pelos moradores e ex-moradores, a república, a partir de 1954, já esteve presente em mais de 14 endereços. Um adendo: não há registro de residências da república no período de 1923 a 1954. Atualmente, está localizada na Rua Padre José Conceição Meireles, nº 158 - Vila Independência.

A localidade e a casa onde a república é sediada mudam sempre que os moradores veem necessidade. No entanto, isso não é o mais importante, porque a Copa não é apenas uma casa de estudantes, mas sim o suor, a lágrima, a dedicação, o orgulho, a amizade, o amor que cada morador e ex-morador teve com ela para manter seu legado e sua história de pé.

Vitor Cicolin formou-se na Esalq em 1990 e hoje atua como Presidente e Diretor Técnico na Horticitrus. Ex-morador da Copacabana, ele expressa seu orgulho e o sentimento de pertencimento que se tem ao fazer parte dessa grande família.

"Nunca se esqueça de seus amigos! O tempo passa, a vida acontece, a distância separa. A república continua sendo minha casa. Os anos que foram decisivos na minha formação profissional e acadêmica foram os anos que vivi e vivo na república Copacabana. Considero membros de minha família, tanto que visito a república com frequência e não deixo de prestigiar os churrascos de ex-moradores. Da condição de manter laços vivos de relacionamento com a república despertou a vocação de ter uma família inteira dedicada à agricultura e agronomia. Tenho duas filhas formadas em Engenharia Agronômica na Esalq. Trabalho em uma empresa produtora de mudas, que mantém contato permanente com moradores e ex-moradores, fazendo com que diariamente me envolva com a vida desta verdadeira instituição que é a república Copacabana".

Ação social - Em tempo, é válido ressaltar que não só a Copacabana, mas as repúblicas esalqueanas participam de campanha solidária anual para arrecadação de roupas, alimentos e produtos de higiene pessoal para comunidades carentes. "Todo ano participamos de um campeonato entre repúblicas/Interreps que faz parte do Conselho de Repúblicas e que é organizado por ele e a Atlética da ESALQ (AAALQ)", conta Murilo Titoto Paiva., atual morador da Copacabana Nessa atividade, além da competição esportiva, existe a competição social de arrecadação de roupas, alimentos e produtos de higiene pessoal. "A Copacabana é a segunda maior vencedora de arrecadação de agasalhos e a campeã de arrecadação de alimentos. Anualmente, alimentos, roupas e material de higiene arrecadados pelas repúblicas da Esalq são doados para instituições de caridade da região de Piracicaba", explica Murilo. A Copacabana ganhou as competições de arrecadação de roupassem 2008, 2009, 2010., 2011 e 2012. Além disso, entre 2022 e 2018, tornou-se decacampeã na arrecadação de alimentos

Concluindo, para evidenciar a importância da vida em república na formação educacional e nas lições de convivência e coexistência para a vida pós-universitária, segue o depoimento de Michel Henrique Reis dos Santos, formado na Esalq em 1991, atualmente Diretor Senior de Sustentabilidade Global da Bunge, em Nova York, EUA. "Frente a tantos desafios, tivemos nosso melhor ´churras´ da história da Copa; todos merecíamos, nossa conquista é única. Valeu pela criatividade, empenho e por permitirem que pudéssemos estar com a família Copacabana. Doutores, patrocinadores, voluntários estrategistas, esposas, filhos, Janja, Véia e outros que se foram, mas certamente estavam presentes espiritualmente: que espetáculo! Em 1990, num puro insight, criei um grito de guerra para o interrepublicas. Não pensei que viraria esse legado, mas hoje está claro que não tinha como ser diferente. Ser ex-morador da Copa e ter esses irmãos, cunhadas, sobrinhos e pelo menos grandes amigos de uma vida. E tudo começa na república. Cada um de vocês faz com que, juntos, sejamos A Força e a Tradição da Amizade Esalqueana! Isso vai além de 100 anos. É eterno! Deus nos deu mais do que pedimos"

Autores:
Evaristo Marzabal Neves, docente Sênior da Esalq
Gustavo Barreira, ex-morador da Copacabana
Murilo Titoto Paiva, atual morador da Copacabana

Publicado na edição 505 do Boletim ESALQNet