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Muitas Incertezas na Safra 2017/18

20/02/2017 - Por marcos fava neves
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Quais são os fatos e impactos na cana?



ü  Ainda nos momentos
finais da nossa safra 2016/17, pelo relatório da UNICA no período 1o de abril a
1 de fevereiro, já processamos 593,82 milhões de toneladas (0,11% a menos que
na safra passada). Esta cana gerou 35,25 milhões de toneladas de açúcar e 25,02
bilhões de litros de etanol (10,57 bilhões de anidro e 14,45 bilhões de
hidratado). Produzimos 15,39% a mais de açúcar que no comparativo com o ano
passado e 8,04% a menos de etanol.



ü  Novas estimativas de
safra 17/18 vão sendo divulgadas. A Archer Consulting publicou 586 milhões de
toneladas de cana, 35,428 milhões de toneladas de açúcar e 24,546 bilhões de
litros de etanol (10,771 bilhões de anidro e 13,774 bilhões de hidratado). A
empresa coloca o mix em 47% açúcar e 53% etanol;



ü  Datagro um pouco mais
otimista, prevê 612 milhões de toneladas, cerca de 1,1% acima da previsão de
2016/17 (605,50 milhões). Seriam 36,80 milhões de toneladas de açúcar (3,3% a
mais) e 1% a menos de etanol, atingindo 25,31 bilhões de litros. Acreditam em 8
milhões de toneladas de cana bisada e mix de 47,4% para açúcar;



ü  De acordo com a
Copersucar, no centro-sul devemos produzir no ciclo 17/18 cerca de 36 milhões
de toneladas de açúcar, uma a mais que no ciclo 2016/17, destinando 47,5% da
cana para açúcar. Serão moídas 590 milhões de toneladas de cana. Se o clima em
fevereiro e março não ajudar, podemos ter apenas 560 milhões. Será uma safra
que começa um pouco mais tarde devido ao menor volume de cana bisada. Acreditam
em 135 kg de açúcar por tonelada;



ü  Vale dizer que as
previsões de safra 2017/18 estão muito díspares, indo desde 565 até quase 620
milhões de toneladas;



ü  Pelos dados da UNICA, a
renovação de canaviais aumentou para 13,7% da área nesta safra, um investimento
acima de R$ 1 bilhão, contra 10% na safra passada. O ideal seriam 18%.



ü  Vale dizer que as
previsões de safra 2017/18 estão muito díspares, indo desde 565 até quase 620
milhões de toneladas;



ü  O início da safra pode
apresentar produtividades menores devido à seca em março do ano passado e
também devido aos efeitos das geadas sobre a cana nova. A Datagro acredita em
média de 79 t/ha. Alguns veranicos no segundo semestre também atrapalharam o
desenvolvimento da cana;



ü  Tereos anunciou
investimento de R$ 60 milhões em Tanabi para expansão da moagem. A Usina passará
a ter capacidade de moer 4 milhões de toneladas, levando a capacidade da Tereos
a 21 milhões de toneladas de cana por safra. A Tereos expandiu sua área de
cultivo em 3 mil hectares nesta safra e planeja expandir mais 5 mil em áreas
arrendadas para colher em 18/19. Também fechou a compra dos 45,97% da Petrobras
na Guarani, por US$ 202,75 milhões;



ü  São Martinho também
investiu para aumentar a Usina Santa Cruz em 500 mil toneladas (5,6 milhões de
toneladas) para a safra 2017/18. O lucro líquido no último trimestre foi de R$
55,8 milhões, 29,5% menor. A justificativa ficou por conta de geadas (queda de
3,7% da produção) e antecipação de vendas de açúcar. O Ebitda foi de R$ 341,6
milhões;



ü  A Biosev anunciou lucro
líquido de R$ 42,7 milhões no terceiro trimestre da safra 2016/17, contra um
prejuízo de R$ 96,2 milhões deste mesmo trimestre na safra anterior, mesmo com
a receita diminuindo 11% no trimestre caindo para R$ 1,5 bilhões. O EBITDA no
trimestre foi de R$ 395,7 milhões (quase 10% menor);



ü  Enfim... mês onde aparecem algumas notícias de investimentos e bons resultados
operacionais dos grupos de capital aberto, e ainda muita incerteza com o
tamanho da safra de cana. Aparentemente o clima nos últimos 30 dias jogou a
favor da cana, mas já na segunda quinzena de fevereiro a água deu uma
sumida...;



Quais são os fatos e impactos no açúcar neste mês?



ü  Começamos enfatizando
as realizações: Em janeiro exportamos US$ 955 milhões, 121% a mais que janeiro
de 2016. Em volume foram 2,22 milhões de toneladas, 48% a mais que o mesmo mês
do ano passado. É a prata do açúcar entrando no Brasil!;



ü  Entre os fatos com
impactos positivos, temos que no ciclo 2016/17 a Índia deve entrar no mercado
importando açúcar, pois a produção pode cair para 21 milhões de toneladas,
graças aos problemas climáticos, sendo a menor produção em 7 anos. Sua demanda
é estimada em 25 milhões de toneladas. Até o final de janeiro, as usinas
indianas estavam com uma produção 10% menor e devem parar antes do previsto.
Este fato que ajudará a sustentar os preços. A seca na Índia também atrapalhou
o plantio, podendo comprometer um pouco na safra 17/18 e em alguns estados
ainda está seco;



ü  Teremos um ano promissor
nas vendas internacionais com cerca de metade do nosso açúcar  exportado. A Archer estima preços médios para
a safra em R$ 1.480 a R$ 1.500/tonelada (VHP FOB Santos). O preço médio da
safra 2016/17 até agora foi de R$ 1.537/tonelada. Acreditam que até o final do
ano passado, cerca de 10,7 milhões de toneladas já haviam sido fixadas, pouco
mais de 40% da exportação, a um preço médio de 17,38 cents por libra-peso.
Bons resultados tiveram os que fixaram os
preços aproveitando o real mais fraco de alguns meses atrás. A Archer estima
que este grupo garantiu R$ 250 a 300/tonelada a mais que o momento atual;



ü  Pesquisa feita pela Reuters com operadores de
18 grandes empresas deu como resultado uma aposta em preços neste ano ao redor
de 21,3 cents/libra peso. Se for, está ótimo para nós.
Devemos lembrar que o
enfraquecimento do dólar é fator altista nos preços do açúcar;



ü  Na Rússia a produção
16/17 deve ser recorde, num total de 6 milhões de toneladas. De importadora, a
Rússia passou a ser exportadora em apenas 10 anos, dobrando sua produção;



ü  Na Europa também se
observa euforia na produção do açúcar de beterraba, após o fim da restrição a
aumentos de produção, mesmo como final da garantia de preços. A estimativa é
que a UE possa chegar a 20 milhões de toneladas, sendo este um fator baixista
nos preços, pois necessitarão exportar os excedentes. Por outro lado, o mercado
do Reino Unido, que importa pouco mais de 1 milhão de toneladas, deve se abrir
ao mundo com o BREXIT;



ü 
Os chineses em 2016
importaram a menor quantidade de açúcar em cinco anos (3,06 milhões tons);



ü 
A produção de
açúcar do Paquistão também cresceu, e o país deve produzir 5,4  milhões de toneladas em 2016/17. É
praticamente a quantidade anual consumida. 



ü  A Platts alterou sua
estimativa para a safra 2017/18, subindo de um superávit de 1,2 para 2,7 milhões
de toneladas. Espera produções maiores no Brasil e na Europa, e menores na
Índia e Tailândia. Na safra 16/17 estimam o déficit em 5,7 milhões de
toneladas. Colocam o consumo crescendo apenas 1%, devido aos preços mais altos;



ü 
Com expectativas
que
2017/18 trará
melhores produções em União Europeia, Tailândia e Índia, a F.O. Licht soltou
sua primeira projeção com um superávit de 2 milhões de toneladas;



ü  Ainda existem riscos
climáticos que podem não garantir o superávit e estão sustentando os preços do
açúcar, pois os estoques estão nos mais baixos níveis desde 2011/12 (77 milhões
de toneladas). As apostas são arriscadas, pois para haver este superávit, o
Brasil precisa ter excelente performance e ainda falta muito para a safra 17/18
começar. Teremos portanto, maior volatilidade;



ü  Outro ponto importante
é que usinas fizeram investimentos para aumentar a capacidade de fazer açúcar
para esta safra, o que joga mais peso na varíavel da flexibilidade;



ü 
No mercado interno
a saca está cotada ao redor de R$ 84;



ü 
Enfim: O mês nos trouxe boas
notícias no curto prazo, o que deve continuar garantindo um ano bom, mas começa
a trazer notícias que diminuem nossas esperanças de um ano muito bom em 2018,
devido à reação da produção aos bons preços. Mas têm muitas variáveis ao longo
do ano para nosso monitoramento, e todas interferem no mercado de açúcar, desde
o clima, o Real, o Petróleo e a competitividade do etanol.



Quais são os fatos e impactos no etanol neste mês?



ü  Como consequência do
desastre econômico que foi o ano de 2016, segundo a ANP o consumo de
combustíveis caiu 4,5%. Em 2015, o consumo caiu 1,9%, portanto queda de 6,4% em
dois anos. O mercado de gasolina C (vendida nos postos de combustíveis) cresceu
4,6% em 2016, atingindo 43,019 bilhões de litros e o etanol hidratado caiu 18,3%,
ficando em 14,586 bilhões de litros. O diesel também desabou para 54,279
bilhões de litros, pouco mais de 5% de perda.



ü  Temos que nos acostumar neste ano com a nova política de preços da
Petrobras, que seguirá os preços do petróleo, portanto teremos mais
volatilidade pela frente. Neste momento nossa gasolina está um pouco mais cara
que a mundial;



ü  Os preços do anidro e
do hidratado recuaram no final de janeiro e início de fevereiro, mas mais uma
vez isto não chegou aos postos e portanto não traduziu no necessário aumento de
consumo. A relação está ao redor de 75%, afastando os consumidores;



ü  Pela UNICA, em janeiro
de 2017, quando comparado com dezembro de 2016, as vendas de anidro caíram
6,06% totalizando 851 milhões de litros e de hidratado caíram 20%, atingindo
quase 900 milhões de litros;



ü  Desde 1 de janeiro já incide o PIS/Cofins no etanol, aumentando em R$
0,12/litro. Medida fortemente criticada pois vai na contramão das metas ambientais
colocadas pelo Brasil;



ü  Se o hidratado perder
mais competitividade, teremos melhor situação para o anidro neste ano, visando
acompanhar o crescimento do consumo da gasolina;



ü  No âmbito externo, os EUA exportaram em 2016 mais de 3,9 bilhões de litros
de etanol, 27% a mais que no ano anterior, trazendo um faturamento de US$ 2,02
bilhões (13% a mais). Brasil, Canadá e China são os grandes compradores, com
26%, 25% e 17% de participação, respectivamente.
O Brasil importou mais
de 700 milhões de litros de etanol americano em 2016, sendo que apenas e
m dezembro o Brasil
comprou 43% das exportações americanas (161,5 milhões de litros) e só vendeu
aos EUA 120 milhões de litros em todo o ano 2016 (63% a menos).
Como consequência de uma safra mais açucareira, perdemos espaços
importantes no mercado americano e aumentamos as importações de etanol de
milho;



ü  Fato negativo aos EUA é que a China colocou uma tarifa de 30% para
importações de etanol, que afetará fortemente as exportações dos EUA em 2017 (quase
700 milhões de litros vendidos em 2016);



ü  Voltando a este assunto neste momento, existe muita incerteza de como
será o comportamento de Donald Trump em relação às políticas para os
biocombustíveis nos EUA. Se na campanha ele falou favoravelmente ao etanol, na
Environmental Protection Agency (EPA) foi nomeada uma pessoa ligada à indústria
do petróleo. Devemos acompanhar muito de perto, pois um retrocesso na lei
americana prejudica não apenas a cana, mas todo o agro brasileiro. Isto
refletiu nos mercados dos Renewable Identification Number (RIN), trazendo
preços para baixo. Estes são papeis comercializados entre as refinarias,
emitidos pelas que utilizaram mais etanol que o obrigatório e comprados pelas
que usaram menos;



ü  No etanol não são muito boas as notícias. Temos perdido importante
participação de mercado, tanto no mercado nacional, quanto no internacional.



Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão
Preto.
Em 2013 foi Professor
Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor
Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da
Orplana. Este material é um resumo mensal feito sobre assuntos de relevância à
cadeia da cana de açúcar. (favaneves@gmail.com).



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