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Precisamos vender o nosso peixe

20/07/2018 - Por haroldo josé torres da silva
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Tive a oportunidade de conhecer de perto, nesta semana, a situação econômica da piscicultura no Estado do Mato Grosso. Foram 1.230km percorridos e 3 (três) cidades visitadas: Alta Floresta, Sorriso e Cuiabá. Neste artigo vou sintetizar um pouco daquilo que vivencie, ouvi e aprendo com os produtores.

É comum associarmos a piscicultura como uma atividade de subsistência familiar. No entanto, o que encontrei foram produtores altamente profissionais e tecnificados, mas que assumem a atividade como sendo secundária. Ela é utilizada, essencialmente, para aproveitamento e otimização de área, além de garantir a diversificação das suas atividades rurais. Por outro lado, não há um padrão. A piscicultura no Mato Grosso é caracterizada por intensa heterogeneidade técnica. Há produtores com sistemas de produção e práticas zootécnicas bastante distintos entre si.

O potencial da piscicultura no Mato Grosso (e no Brasil como um todo) é indiscutível. No entanto, por que não observaremos, no curto prazo, uma expansão significativa da oferta? Antes de responder a essa questão, é importante resgatar um conceito econômico básico. O preço de um bem ou serviço é determinado pela interação entre oferta e demanda. No entanto, se mantivermos a demanda constante, um aumento da oferta levará a uma redução no preço de comercialização desse bem ou serviço. Mas, isso não seria benéfico para o consumidor? Vamos analisar o outro lado da moeda.

O setor tem lidado com aumentos dos custos nominais de produção, principalmente em função das elevações nos preços das rações - insumo que representa cerca de 65% do custo total. Atualmente, os aumentos nos preços dos milho e da soja, além dos impactos da tabela de frete mínimo causaram uma aumento de quase 20% no preço médio das rações utilizada na atividade. Isso tem se refletido em margens econômicas cada vez mais apertadas. Portanto, nesse cenário, há pouco estímulo e interesse do produtor rural a aumentar os investimentos na piscicultura.

O problema está na demanda, isto é, no consumo. Na região de Sorriso, atualmente, a piscicultura ocupa aproximadamente 800 ha, ao passo que há possibilidade de expansão para 4.000 ha. Entretanto, dada a situação do consumo, não há perspectivas de expansão da oferta. O que se observa, em termos gerais, é que o preço do peixe, em R$/kg, tem sido superior ao das demais proteínas (tais como, frango e porco). Por outro lado, por que o preço do peixe é "salgado"? É caro porque ninguém consome ou porque ninguém consome é caro? Há uma série de razões, dentre elas, as margens de comercialização do varejo e de atravessadores.

Num cenário de aumento das taxas de desemprego e redução da renda disponível, o consumidor migra para a proteína mais barata - o famoso efeito substituição. Além desse aspecto, precisamos explorar e vender melhor o nosso produto. É preciso uma campanha de marketing e comunicação para toda a cadeia produtiva, valorizando os benefícios do pescado em relação às outras proteínas. Desculpem o trocadilho, mas precisamos vender melhor o nosso peixe e estimular o seu consumo, afinal é a proteína do futuro.

É preciso agir e pensar estrategicamente o futuro deste importante segmento do agronegócio nacional. Algumas ações são necessárias, tais como, necessidade de organização institucional da cadeia produtiva; maior articulação entre os seus agentes e arranjos dos produtores em cooperativas para compra conjunta de insumos e venda coletiva dos seus produtos - desintermediação e venda direta do produto, além de expandir a sua comunicação. Essa foi a primeira impressão de um economista se aventurando na cadeia do pescado.

 

Observação: Na ocasião, participei dos painéis de custos de produção organizados pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária - CNA, em função do Projeto Campo Fruto, a qual tem o PECEGE como instituição parceira. Os resultados poderão ser conferidos através das publicações técnicas da CNA, como forma de apoiar o produtor rural na tomada de decisão.

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